Edição nº 27
 

África

Fazendo a ponte para o futuro

Publicado a 23-06-2012 10:46:00

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A economia africana nunca cresceu tanto. Segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) a previsão de crescimento do continente para este ano é de 5,5%, um valor acima da média mundial. Os peritos da organização acrescentam que sete das dez economias mais dinâmicas do mundo nos próximos cinco anos estarão localizadas em África. A grande questão é se esse ritmo de crescimento vai permanecer e, em caso afirmativo, até quando? Para responder às duas perguntas é necessário perceber as causas que justificam esse desempenho positivo. A primeira razão, é o aumento dos preços das matérias-primas exportadas por África. A segunda, é a estabilidade política e macroeconómica na maioria dos países do continente. A terceira, é a subida do poder de compra das famílias que fez explodir o consumo. São razões que parecem ter vindo para ficar.

Outro motivo para o optimismo é o crescimento do investimento directo estrangeiro (IDE) que tem crescido a uma taxa média ponderada de 20% desde 2007 (153% em termos absolutos desde 2003 e 27% desde 2010). Mas se compararmos o desempenho com o resto do mundo, verificamos que África apenas atraiu 5% dos projectos de investimento externo mundial. Existem três grandes desafios a vencer pelo continente que explicam este paradoxo.

1- Mudar a percepção 
 dos investidores internacionais

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África ainda é vista como um continente arriscado. Na sondagem efectuada pela consultora Ernst & Young a 500 investidores à escala global verifica-se que a maioria (principalmente os que ainda não investem em África) continua a ver o continente como um local mais difícil para se fazer negócios do que as outras regiões emergentes. A percepção é mais positiva entre quem já faz negócios no continente que classifica a sua atractividade como “muito elevada” (só a Ásia teve uma pontuação mais alta).

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Os resultados do inquérito revelam ainda que as percepções negativas sobre África são, em primeiro lugar, relacionadas com os factores de risco político. A segurança, a instabilidade política e a corrupção foram eleitos os maiores obstáculos ao investimento. A verdade é que, na última edição do ranking Doing Business, 
do Banco Mundial, 14 países africanos estão mais bem classificados do que a Rússia; 16 tiveram melhores resultados 
do que o Brasil e 17 registaram uma nota superior à da Índia. Paralelamente, apesar de a corrupção continuar a ser um dos maiores desafios da região, segundo os dados da Transparency International, há 14 países africanos cujo indice de percepção da corrupção é inferior ao da Índia e 35 relativamente à Rússia.

2- Aumentar o nível de integração regional

Outro problema é a existência de barreiras elevadas ao comércio entre os países africanos, um continente composto por 
54 nações, a maioria com economias pouco desenvolvidos e um PIB per capita reduzido.

O Banco Mundial publicou um estudo recente (veja EXAME n.º 26) onde conclui 
que África teria tudo a ganhar se estivesse mais integrada. Segundo as estimativas, 
o comércio inter-regional apenas representa 
10% do total das trocas no continente (face aos 60% da União Europeia, por exemplo). Mas há outras barreiras não aduaneiras importantes. Uma delas diz respeito ao movimento de pessoas e bens. Perde-se muito tempo nas fronteiras africanas devido ao número reduzido de postos fronteiriços (face à dimensão do continente) e à falta de coordenação entre os países vizinhos. Outra barreira “escondida” é o facto de a maioria dos países ainda não estar suficientemente industrializado. Isso faz com que os países vizinhos produzam bens similares o que torna o comércio entre eles pouco atractivo.

Clique para ampliar a imagemPor todas estas razões, a prioridade deve estar na criação de zonas de comércio livre. 
A Comunidade da África Oriental (Quénia, Uganda, Tanzânia, Burundi e Ruanda, um mercado de 150 milhões de pessoas) é, até à data, o caso mais bem sucedido de integração regional. Existe um projecto semelhante para a SADC (da qual Angola faz parte) que agrupa 250 milhões  de consumidores. O problema, aliás, não está  na falta de economias regionais, mas, sim, na ausência de integração entre elas (veja infografia da página anterior). Um excelente passo nesse sentido foi dado em Outubro de 2008 quando 26 chefes de Estado de países africanos decidiram criar uma zona  de comércio livre tripartida (agrupa a COMESA, A SADC e a EAC). Se estas três economias regionais se unissem estaríamos 
a falar de um mercado de 600 milhões 
de pessoas, cuja população apenas 
é ultrapassada pela Índia e pela China.

3- Acelerar o 
 desenvolvimento das infra-estruturas

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No que diz respeito a infra-estruturas, muito já foi feito, mas muito há ainda por fazer. Um estudo  do África Infrastructure Country Diagnostic (AICD) estima  que os investimentos em infra-estruturas em África deveriam ascender a 90 mil milhões de dólares por ano (de 2010 até 2020). Deste modo, o continente poderia reduzir o fosso que ainda o separa de outros mercados emergentes. A mesma organização estima que hoje o ritmo anual de investimentos públicos é de apenas 30 mil milhões de dólares (um terço do necessário).  Paralelamente, um outro estudo do Infrastucture Consortium for África (ICA) estima que o financiamento externo para estes projectos (vindo, por exemplo, dos países do G8, de instituições financeiras globais e do sector privado) chegou aos 85 mil milhões em 2010.

Somando os dois montantes verificamos que o valor global não está muito longe do montante ideal definido pelo AICD. A má notícia é que, segundo a Ernst & Young (E&Y), o investimento privado parece ter baixado nos últimos anos. Mas se fizermos uma análise histórica verificamos que 40% do investimento directo estrangeiro desde 2003 referem-se a projectos de infra-estruturas como a energia, água e transportes. Daí que a E&Y tenha denominado o relatório  de “Construindo pontes”, um título que visa chamar a atenção para o duplo problema: África ainda precisa de colmatar o fosso que a separa de outras regiões nas infra-estruturas e, em vez de erguer barreiras, é preciso construir pontes comerciais ao longo do continente.



Por: Filipe Cardoso
 
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