Edição nº 27
 

Europa

Saldos, soldes, rebajas, sales

Publicado a 24-06-2012 11:07:00

Quando escrito em chinês, a palavra “crise” é formada por dois caracteres: um simboliza o perigo e outro a oportunidade. Nas contas dos europeus, a braços com uma depressão política e económica desde 2008, a crise é uma ameaça permanente que paira sobre o seu quotidiano. A maioria das acções de empresas europeias está a negociar em mínimos históricos e os seus accionistas estão desesperadamente a necessitar de liquidez. Logo, para os grandes investidores, a crise é uma porta de entrada no Velho Continente, outrora bloqueada pelos preços proibitivos. É também uma oportunidade de ouro, pois é sabido que “quem vende por desespero, geralmente vende mal”.

O mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do planeta com uma fortuna avaliada em 76,2 mil milhões de dólares, é o rosto mais visível dessa realidade. Recentemente, a sua America Movil, a maior empresa de telecomunicações da América Latina, lançou uma oferta de 3,4 mil milhões de dólares sobre a operadora de telecomunicações holandesa KPN, com o intuito de aumentar a sua participação de 4,8% para 28%. “É muito simples: actualmente os preços na Europa estão baixos por tudo o que se está a passar na região” e “o Slim gosta de comprar acções baratas”, comentou Martin Lara, analista da mexicana Actinver à agência Reuters. Se o negócio se concretizar, será o maior investimento da America Movil fora da América Latina e, provavelmente, o primeiro de muitos: “Seguramente que Carlos Slim vai continuar a olhar para a Europa”, garantiu Garcia-Moreno, administrador da operadora de telecomunicações mexicana numa conferência telefónica com analistas.

As telecomunicações estão em alta. Slim investiu na holandesa KPN e Li Ka-shing 
na irlandesa Eircom
Quem também não tem ficado de fora da época de “saldos” pela Europa são os chineses. Pouco antes de Slim lançar a oferta pela KPN, a Hutchison Whampoa, uma empresa sediada em Hong-Kong e liderada pelo multimilionário chinês Li Ka-shing, ofereceu 2,6 mil milhões de dólares pela operadora de telecomunicações irlandesa Eircom. Na prática, Slim e “companhia” estão apenas a aproveitar as pechinchas geradas pela crise da dívida soberana na Europa. Também terá sido certamente essa a motivação da empresária angolana Isabel dos Santos que no mês passado decidiu voltar a abrir os cordões à bolsa para ir às compras a Portugal, um dos países mais fustigados pela crise do euro.

Terceiro maior da Bolsa portuguesa

Em 2009, a consultora A. T. Kerney publicou um relatório referindo que Angola já era o terceiro principal investidor da Bolsa portuguesa, com participações qualificadas em empresas lusitanas no valor de 2645 milhões de dólares, cerca de 3% do mercado. Na altura, o presidente da A. T. Kerney para a Península Ibérica disse que “Angola vai continuar a ter um peso importante no mercado português”. Não se enganou: hoje, o investimento angolano representa 3,45% da capitalização bolsista do principal índice accionista português (PSI-20), isto apesar de a preços de mercado as participações angolanas não ultrapassarem 1900 milhões de dólares.

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Carlos Slim: O homem mais rico do mundo não perde uma oportunidade para comprar barato

O principal empresário angolano por terras portuguesas é de longe Isabel dos Santos, filha do Presidente da República José Eduardo dos Santos. De acordo com os últimos dados oficiais, Isabel dos Santos detém mais de 1750 milhões de dólares aplicados em empresas portuguesas cotadas. O remanescente é da responsabilidade da Sonangol, que controla 11% do Banco Comercial Português (BCP); da Newshold, proprietária do semanário “Sol”, que detém mais de 15% do grupo de media português Cofina; e ainda de um conjunto de outros investidores angolanos. Só este ano, o dinheiro de empresários angolanos investido em companhias portuguesas cotadas em Bolsa já ascende a mais de 82 milhões de euros. Grande parte deste investimento foi realizado pelas holdings de Isabel dos Santos (Santoro e Kento) no reforço de posições que a empresária angolana já detinha no Banco BPI e na Zon.

Seguindo, porventura, o lema do lendário investidor Warren Buffett de que “as grandes oportunidades de investimento verificam-se quando empresas excelentes se encontram em circunstâncias insólitas que provocam a queda do preço das acções”, a empresária realizou em Maio dois avultados investimentos. Através da Santoro comprou 9,4% do capital do Banco BPI ao La Caixa por cerca de 60 milhões de dólares. E por via da Kento despendeu cerca de 46 milhões de dólares para ficar com os 5% do capital da Zon que estava nas mãos da espanhola Telefónica. Com estas duas operações, Isabel dos Santos passou a deter uma participação de 19,43% no Banco BPI, que se traduz numa posição de 87 milhões de dólares, e a controlar 14,9% da Zon, accionista da ZAP, actualmente com um valor de mercado de 98 milhões de dólares.

No portefólio de investimentos portugueses de Isabel dos Santos, há ainda lugar para uma participação em conjunto com aSonangol via Esperanza Holding de 45% na Amorim Energia, que controla 33,34% da Galp Energia. A petrolífera portuguesa apresenta uma capitalização bolsista superior a 10 mil milhões de dólares, conferindo assim uma posição de 1550 milhões à empresária angolana. Além disso, há ainda a salientar a participação de 25% no Banco BIC, que já este ano adquiriu o banco português BPN por cerca de 60 milhões de dólares (veja EXAME n.º 19).

Fora de Portugal, os investimentos de Isabel dos Santos e de outros empresários angolanos começam também agora a crescer. Um dos últimos negócios passou pela aquisição de 85% do capital Grisogono, uma empresa suíça de bens de luxo reconhecida por fabricar relógios e jóias de elevada qualidade. Os restantes 15% do capital da companhia permanecem na posse de Fawaz Gruois, que permanece na empresa como administrador executivo e director artístico. Os restantes administradores da empresa acabaram por ser afastados. Para os seus lugares foram nomeados Jorge Brito Pereira, da sociedade de advogados PLMJ, o economista Vasco Pires Rites e Maurício Moisés Toledano Marques. A liderar a Grisogono, o registo de comércio suíço (FOSC),  passou a estar Mário Filipe Moreira Leite da Silva, administrador do BPI e presidente da Santoro. É difícil antever quais serão os próximos investimentos por capitais angolanos. Todavia, tudo indica que Portugal continuará a ser um destino de eleição. Entre os principais sectores a marcar presença no radar dos kwanzas estará com certeza a banca, dado que, quer o Banco BPI quer o BCP já anunciaram a necessidade de terem de realizar aumentos de capital para conseguirem cumprir com as imposições do regulador do sector bancário. Estas operações obrigarão, invariavelmente os actuais accionistas das duas instituições a acompanharem os aumentos de capital, salvo o risco de acabarem por perder significância na estrutura dos dois bancos.

Mas também no sector da energia foram dados passos da maior relevância que poderão gerar novos investimentos angolanos num futuro breve. No último dia de Março, os accionistas da Galp Energia chegaram a um acordo que prevê a saída dos italianos da Eni do capital da petrolífera, deixando a Amorim Energia (controlada em 45% pela Esperanza Holding) com a opção de ficar com metade do capital da Galp. Este negócio permitiu que Américo Amorim, presidente da Amorim Energia e um dos homens mais ricos de Portugal, fosse eleito chairman da Galp Energia na assembleia geral da petrolífera realizada no início de Maio. Recorde-se que a ascensão de Amorim à liderança da petrolífera foi o culminar de longos meses de negociações entre o empresário português e Paolo Scaroni, presidente da Eni, que viu abrir-se a porta para sair do capital da empresa portuguesa. E foi também o fim de uma relação com quase uma década que nunca foi propriamente pacífica. Além de ser eleito como presidente não executivo da Galp, Amorim garante que pode, se assim o entender, reforçar na Galp até 48,34%. E, além disso, o empresário “obriga” os seus sócios angolanos na Amorim Energia —Sonangol e Isabel dos Santos — a comprarem acções no mercado se quiserem ter uma posição directa na companhia, como têm defendido.

Privatizações no radar dos investidores

Desde Maio do ano passado que Portugal vive sob um duro programa de assistência financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia (UE). Entre medidas de austeridade fortíssimas, marcadas por uma subida da carga tributária e por cortes salariais, o FMI e a UE obrigam o governo português a vender as suas “jóias da coroa” por via de um vasto programa de privatização. De acordo com o memorando de entendimento entre o governo português e os membros da UE e do FMI, o plano de privatizações deverá render aos cofres do Tesouro português cerca de 7 mil milhões de dólares. Os primeiros encaixes já foram realizados com a venda do BPN ao Banco BIC, e com as alienações das participações que o Estado português detinha na eléctrica EDP (25,7%) aos chineses da China Three Gorges, e de grande parte da posição que detinha na REN, o principal transportador de electricidade e gás em Portugal, aos chineses da State Grid e aos árabes da Oman Oil.

Na agenda de privatizações, mas ainda sem uma calendarização detalhada, marcam presença a alienação companhia aérea bandeira, a Transportadora Aérea de Portugal (TAP), um dos canais da Rádio e Televisão de Portugal (RTP), a venda total do negócio segurador da Caixa Geral de Depósitos, os Correios de Portugal (CTT), o grupo ANA, responsável pela gestão dos aeroportos no espaço português, o principal operador de transporte ferroviário de carga no país (CP Carga) e, a prazo, parte do capital das Águas de Portugal.   

Portugal já não é prioridade para Angola
Isabel dos Santos adquiriu 85% 
da Grisogono, 
uma empresa suíça 
de relógios e jóias

Considerando o momento actual dos mercados, a limitação de tempo para a realização destas operações e o aperto financeiro do Tesouro português é expectável que alguns destes negócios sejam fechados a “preços de saldo”. Será que parte desse investimento poderá vir de Luanda? O ministro da Economia de Portugal, já mostrou esse interesse em várias ocasiões. No seu livro, intitulado Portugal na Hora da Verdade, Álvaro Santos Pereira escreveu que “não devemos temer os investimentos angolanos, as aquisições brasileiras ou as parcerias moçambicanas. Se as travarmos, estaremos a desperdiçar uma das nossas maiores vantagens comparativas, o nosso passado comum, a nossa cultura e uma língua partilhada em quatro continentes”.    

Já Manuel Vicente, ministro de Estado e da Coordenação Económica, disse recentemente em Luanda que o investimento directo angolano em Portugal deixou de ser prioritário. “O Estado hoje tem outras prioridades. Estamos a olhar mais para os problemas internos do que para os problemas externos. Os empresários privados são livres. Onde eles encontrarem oportunidades e virem que há, de facto, a criatividade e escala para investir, só nos resta, como Governo, apoiarmos essas iniciativas”, acentuou Manuel Vicente, durante a apresentação do balanço das actividades do Executivo no primeiro trimestre de 2012.

Manuel Vicente acrescentou que agora, face à globalização da economia, importa não investir num único mercado. “O mundo hoje é uma aldeia global e, como se costuma dizer na gíria, não podemos colocar os ovos todos no mesmo cesto. As economias melhoram ou pioram em função dos locais, e temos de ter investimentos em várias paragens”, afirmou. Caso para dizer: “Quem desdenha quer comprar?”  


O poder do kwanza na bolsa portuguesaClique para ampliar a imagem


O investimento angolano 
em empresas portuguesas cotadas em Bolsa ascende actualmente aos 1500 milhões 
de dólares, o equivalente a 3,45% da capitalização bolsista 
do principal índice accionista 
da Euronext Lisbon

Isabel dos Santos: 106 milhões de dólares em compras

Em apenas um mês, a empresária Isabel dos Santos comprou 9,4% do Banco BPI ao La Caixa — por cerca 
de 60 milhões de dólares — e 5% do capital da Zon — que estava nas mãos da espanhola Telefónica 
por 46 milhões de dólares.

Além das telecomunicações e da banca, a empresária também tem interesses no sector da energia. A sua maior posição accionista está centrada na Galp Energia, através da Esperanza Holding — uma subsidiária da Sonangol em parceria com Isabel dos Santos — que, desde 2005, detém 45% da Amorim Energia, dona, por sua vez, de 33,34% da Galp Energia. Hoje, a posição angolana na petrolífera portuguesa está avaliada, a preços de mercado, em mais 
de 1550 milhões de dólares.

Na banca, o domínio da empresária é notado pela sua holding Santoro. Na carteira da Santoro está, desde 2008, uma posição de 25% no Banco BIC, que acabou por comprar já este ano 
o português BPN por 60 milhões de dólares, e ainda uma participação de 19,43% no Banco BPI, accionista 
do Banco Fomento Angola (BFA). 
A posição no BPI começou a ser construída em Dezembro de 2008 com a aquisição de 9,7% do capital 
do banco, até então detida por outra instituição financeira portuguesa (BCP) por cerca de 231 milhões de dólares. Em Dezembro de 2010, Isabel dos Santos reforçou o investimento no banco ao adquirir mais 0,2% do capital, e, em Maio deste ano, voltou 
a reforçar a posição, ao comprar mais 9,4% do banco ao espanhol La Caixa por cerca de 60 milhões de dólares.

No sector das telecomunicações 
a presença da empresária é notada através da Kento Holding, que já controla 14,9% da Zon, accionista da ZAP. A preços de mercado, a posição na Zon vale cerca de 124 milhões de dólares. Recorde-se que a posição na operadora de telecomunicações foi iniciada em Dezembro de 2009, quando a empresária angolana adquiriu 2,5% do capital da Zon 
à Caixa Geral de Depósitos, 4,53% 
à própria Zon por via da compra de acções próprias e ainda mais 2,95% à Cinveste, empresa 
do coronel Luís Silva.

O último investimento da empresária angolana na Zon foi realizado no mês passado, num valor superior a 
46 milhões de dólares na aquisição de 5% do capital 
que estava nas mãos da espanhola Telefónica.


Manchete na imprensa: A dupla operação foi notícia em toda a imprensa portuguesa no seu habitual tom sensacionalista. Ao que se diz, a edição da revista Visão terá sido uma das mais vendidas de sempre


Por: Luís Leitão, em Lisboa
 
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