Edição nº 27
 

Estados Unidos

Depois da euforia...

Publicado a 24-06-2012 11:21:00
O mercado financeiro é a maior fábrica de metáforas já produzida pela humanidade. Os optimistas, segundo o jargão de Wall Street, são os “touros”; os pessimistas são os “ursos”; há os investidores “abutres”, o “efeito borboleta”, etc.

Abertura de capital do Facebook: Menos razões para tantos sorrisos

A última metáfora da lista foi criada para descrever o comportamento recente do mercado financeiro: o de condutor de um automóvel nos segundos que antecedem um acidente. Ou seja, aquela altura em que ele põe o pé no travão, mas percebe que é tarde de mais, por isso, aguarda aterrorizado pelo momento em que o carro irá embater no muro.

É assim que os investidores estão a reagir ao mais recente capítulo do drama grego. Na Europa. Na Ásia. Em África. Em qualquer mercado, os investidores assistem horrorizados a um cenário que dificilmente deixará de ser trágico. Há, porém, uma excepção. Na Bolsa americana, a mais importante do mundo, ninguém parece muito preocupado com os helénicos. A resistência do mercado americano tem sido impressionante. Desde Outubro do ano passado, os principais índices da Bolsa acumulam subidas de 25%, em média.

Nos resto do mundo sucede o contrário. Desde os picos históricos de 2007, as maiores praças financeiras caíram em desgraça. Na Europa, a queda média foi de 52%; no Japão e na China, de 60%. Mas nos Estados Unidos a queda não passou dos 16%. De lá para cá, vale a pena recordar, o Lehman Brothers e a AIG faliram, a recessão do imobiliário contagiou o resto da economia, a zona do euro esteve ameaçada de colapso (para muitos, ainda está).

 

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Mitt Romney: indecisão nas eleições americanas pode gerar instabilidade em Wall Street
Claro que há bons motivos para essa resistência. As companhias americanas (caso da Apple) nunca foram tão rentáveis. Têm biliões em caixa. As multinacionais estão a aproveitar o crescimento de emergentes como a China e o Brasil. O desemprego está a cair, embora lentamente. E, no mês passado, surgiu um outro grande motivo para optimismo. O Facebook, a rede social que reúne 900 milhões de pessoas, abriu o capital em Bolsa. Mas os eventos que se seguiram à emissão de acções liderada pelo jovem empresário Mark Zuckerberg deram aos pessimistas motivos para acreditar que há algo de estranho no ar.

Em dois dias, as acções do Facebook perderam 18% do valor. Os motivos para o fiasco pós-estreia foram muitos — a começar por problemas na infra-estrutura de tecnologia da Nasdaq. O sistema travou devido ao número de transacções simultâneas e cancelou várias ordens de compra. Havia, ainda, razões nebulosas. Na segunda-feira, 21 de Maio, a agência de notícias Reuters acusou as três instituições financeiras, escolhidas para coordenar a oferta pública inicial, de ter revisto em baixa (e em segredo) as previsões sobre a facturação do Facebook. O motivo foi a desaceleração das receitas da publicidade no primeiro trimestre, apesar de o número de utilizadores do Facebook continuar a crescer. É que mais clientes aumentam os custos com a infra-estrutura de servidores da empresa. Por outras palavras, menos receitas e mais custos.  


A rede furou: O índice que mede a relação entre o preço dos papéis e o lucro das empresas mostra como as acções 
do Facebook estão mais altas do que as dos seus concorrentes directos no mercado de tecnologia
“As coisas para o Facebook tendem a piorar”, diz Rob Enderle, analista-chefe da Enderle Group, consultora especializada em tecnologia. “Ele sabia que se esperasse um pouco mais, não iria conseguir ganhar tanto dinheiro com a operação.” Mas, segundo os analistas, a verdadeira razão para a queda das acções foi outra — coerente aliás com o comportamento da Bolsa americana no passado recente. O mercado estava optimista de mais. A comparação com outras companhias de tecnologia mostra que o preço das acções do Facebook estava extremamente elevado. Com base no índice P/L, que mede a relação entre o preço dos títulos e o lucro das empresas (quanto mais baixo, mais barata é a acção), empresas como a Google, Microsoft e Apple têm valores de mercado que variam de 10 a 20 vezes o respectivo lucro. Com o seu preço inicial de 38 dólares, o P/L do Facebook ficou em 125 vezes. No jargão do mercado financeiro, a acção do Facebook foi “priced to perfection”. Ou seja, para justificar o valor pago, tudo teria de acontecer perfeitamente. E isso, como é sabido, só acontece nos filmes de cinema.

A “marcha atrás” dos investidores em relação à abertura de capital mais badalada dos últimos anos despertou a atenção de quem acompanha a Bolsa americana mais de perto. Há indícios de que a cautela dos investidores se tornou generalizada. Seis das 20 acções das grandes empresas com melhor desempenho nos Estados Unidos e no Canadá são de sectores conhecidos como “defensivos” — que não sofrem tanto se ocorre uma crise, caso das eléctricas, por exemplo. Há diversos motivos para isso. As eleições vêm aí e os líderes republicanos e democratas no Congresso já ameaçam repetir a crise da negociação do tecto da dívida americana em 2012. A recuperação económica não é garantida. E há, finalmente, o risco de que a situação na Europa vá de mal a pior. E não é preciso ser um especialista em metáforas para saber o que vem depois da calmaria.

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Por: Bruno Ferrari
 

Comentários

  1. maria pons
    2012-07-12 14:54:33
    Se os gregos agora teem também petroleo helénico que já começou a ser explorado, é óbvio quem os Americanos não estão grandemente preocupados...toca a entrar no negócio do petroleo grego!
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