Edição nº 27
 

Argentina

Cristina Kirchner: Mulher de armas

Publicado a 25-06-2012 11:17:00

A classe política argentina está em polvorosa. Antes do Parlamento votar a proposta da Presidente Cristina Kirchner de nacionalizar 51% da YPF, a petrolífera controlada pela espanhola Repsol, já os políticos de várias províncias se movimentavam para ocupar um “assento” na nova empresa estatal.

Nos braços do povo: Recuperar as Maldivas e nacionalizar a YPF, ideias que tiveram apoio popular

Das 17 cadeiras do conselho de administração da futura empresa, três serão destinadas às províncias de Neuquén, Santa Cruz e Chubut, as principais produtoras de petróleo, todas na Patagónia. Mendoza, a quarta no ranking da produção, por enquanto, ainda está de fora. Outro ponto de disputa é a participação dessas províncias no capital social. Neuquén, onde está localizado o campo de Vaca Muerta, ambiciona ter a maior quota. Na disputa interna está a aumentar o poder da Presidente Cristina Kirchner que não esconde a sua alegria por liderar esta distribuição de “favores”.

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As sondagens de opinião também estão a favor da Presidente. Cerca de 60% dos argentinos aprovaram a nacionalização da YPF — que também teve o apoio dos políticos de vários quadrantes. O assunto que agora domina a agenda interna fez desaparecer da ribalta a acusação de favorecimento de um amigo que pendia sobre o vice-presidente Amado Boudou. Fez também esquecer a tentativa abortada da Presidente Kirchner em recolocar o tema da soberania das ilhas Malvinas sob os holofotes da imprensa internacional. “Propositado ou não, a verdade é que a nacionalização travou os debates sobre os verdadeiros problemas do país”, resume Eliana Cardoso, co-autora do livro A Economia da América Latina: Diversidade, Conflitos e Tendências.

A operação também levanta problemas económicos difíceis de gerir. É sabido que a exploração de Vaca Muerta vá exigir investimentos anuais de 25 mil milhões de dólares, durante os próximos dez anos. Logo, os especialistas acreditam que o governo irá acabar por assinar um novo acordo com uma grande petrolífera estrangeira (a americana Chevron, os chineses da Sinopec e da CNOOC e a Petrobras são quatro candidatos potenciais). “No sector de petróleo, é comum os investidores estrangeiros encontrarem ambientes políticos turbulentos e, ainda assim, fecharem negócios”, diz Albert Fishlow, director do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia. A verdade é que mesmo que a YPG celebre uma nova parceria com outra empresa estrangeira, a imagem internacional da Argentina ficou abalada.

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Nas últimas duas décadas, a América do Sul sempre foi uma região dividida. De um lado, estavam os países onde os partidos (sejam de esquerda ou direita) funcionam em harmonia com as leis vigentes (como no Brasil e no Chile). No outro extremo, os países geridos por políticos populistas que adaptam essas leis às suas convicções pessoais. “A diferença é que o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa já foram eleitos com o objectivo de nacionalizar empresas, sobretudo as do sector energético. Na Argentina, o governo tomou a decisão depois de ser empossado”, argumenta Victor Bulmer-Thomas, professor emérito da Universidade de Londres e autor de A História Económica da América Latina.

Não deixa de ser paradoxal que a Argentina, conhecida por ser um dos grandes centros mundiais da psicanálise, pareça presa ao que Sigmund Freud chamou “compulsão à repetição”. Antes da nacionalização da YPF, o governo argentino já tinha assumido o controlo de uma companhia de saneamento básico, dos correios e de cerca de dez fundos de pensões. O caso mais notório é o da Aerolineas Argentinas, expropriada em 2008 e que, desde então, tem registado um prejuízo diário de 2 milhões de dólares.

O caso é um mau presságio para quem quiser entrar no capital da YSF. “Quando um investidor analisa um país, há sempre dois pesos na balança: o nível do risco e as possibilidades de retorno. No caso do petróleo, é possível que os ganhos potenciais se sobreponham ao medo de ser confiscado pelo governo. Mas noutros sectores, os investidores vão pesar os riscos antes de colocar mais dinheiro na Argentina”, diz Miguel Kiguel, ex-secretário das finanças do Ministério da Economia e hoje director da consultora Econviews, de Buenos Aires.

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Neuquén, na Patagónia: Capital petrolífera e do gás do país. Produz 52% da energia eléctrica
O Brasil parece estar a correr na direcção oposta com o investimento estrangeiro a representar 3% do PIB versus o valor de 1% na Argentina (veja infografia “Um continente, dois caminhos”). Mas os defensores de Kirchner argumentam que a Argentina tem crescido  a um ritmo mais elevado do que o Brasil — médias anuais de 6,9% e 4,2% nos últimos cinco anos. Só que essa expansão tem sido sustentada por taxas elevadas de inflação — o índice oficial é de 9,8%, mas no mercado paralelo chega aos 22,7%. Com índice de preços em alta, baixo investimento externo e mercados de crédito fechados, o crescimento argentino fica menos atractivo para os investidores internacionais. “O problema do populismo é que termina sempre com uma ressaca e muitas dores de cabeça”, diz Miguel Kiguel. Para o bem da Argentina (e da América Latina) oxalá que o economista esteja enganado. 


Por: Guilherme Manechini
 
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