Edição nº 27
 

Europa

A cigarra 
e a formiga

Publicado a 25-06-2012 11:37:00

Estou ciente de que toda a Europa nos observa. Na hora em que o resultado foi anunciado, tive a certeza de que em diversos países europeus houve um sentimento de alívio e de esperança, que, por fim, a austeridade não deve ser uma fatalidade.”


Hollande em Paris: Por enquanto, o novo Presidente socialista é só festa

Foi assim, sem meias palavras, que o francês François Hollande saudou os seus eleitores na Praça da Bastilha, em Paris, após derrotar Nicolas Sarkozy e ser eleito o primeiro Presidente socialista depois da saída de François Mitterrand em 1995. A mensagem, ainda que pronunciada para incendiar o público local, tinha uma destinatária além das fronteiras da França: a chanceler alemã Angela Merkel, grande avalista da política de austeridade exigida aos países afectados pela crise da dívida soberana, da Grécia à Península Ibérica.

Hollande, cujo carisma ainda está por provar, e Merkel, actual dama de ferro da cena europeia, podem até trocar elogios em frente às câmaras. Mas, independentemente da imagem que tentem transmitir, os dois estão em extremos opostos do espectro político europeu. Mais do que retórica, a diferença entre eles é de visão de mundo. Para Merkel, a receita para sair da crise é cortar o problema pela raiz, no caso, o endividamento. No seu estilo “formiga”, ela defende menos gastos públicos e, quando necessário, aumento de impostos. Se os países estão com dificuldades para pagar as suas dívidas, é preciso, na visão alemã, diminuir o nível de endividamento em percentagem do produto interno bruto (PIB), mesmo que o efeito imediato dessa decisão seja doloroso: desemprego e austeridade. Assim, diz Merkel, a economia constrói bases sólidas.

Todos temem a “armadilha da dívida”: 
Sucede quando a austeridade conduz à recessão, à perda de confiança dos mercados e à dívida pública impagável
Hollande, no papel de “cigarra”, defende que é preciso ser menos rígido, dar estímulos para a economia crescer e aliviar as pressões sociais. Um dos principais receios dos expansionistas é o debt trap, ou “armadilha da dívida”. Trata-se de um cenário no qual, perante uma recessão profunda, os investidores perdem a confiança na capacidade de um determinado país honrar os seus títulos e, para aceitar correr o risco de não ser pagos, passam a cobrar juros mais altos a cada nova emissão de títulos. Levada ao extremo, essa situação pode tornar a dívida impagável e forçar o país a mergulhar numa crise de proporções ainda maiores. A questão de fundo, rebatem os alemães, é que a expansão dos gastos também pode minar a confiança dos investidores, causando os mesmos efeitos em cascata.

Políticos e economistas separados...

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Merkel em Berlim: A chanceler alemã acredita que a saída é trabalhar para reduzir a dívida
Hollande já deixou claro que quer renegociar o Pacto Fiscal Europeu, assinado em Março por 25 países da União Europeia e que limita o endividamento a 60% do PIB e o défice público a 3%. Merkel, por sua vez, avisou que não aceitará renegociar o que já foi decidido (e ainda precisa ser ratificado pelos Parlamentos nacionais). Os dois dizem querer crescimento. Como cada um pretende chegar lá, porém, é que faz toda a diferença. Hollande acha que a economia será impulsionada por investimentos em infra-estruturas; Merkel acredita que o PIB vai crescer a partir do rigor fiscal. Qual deles tem razão?

Os dois lados têm os seus gurus. Os adeptos da expansão dos gastos públicos costumam admirar os artigos do americano Paul Krugman, Nobel da Economia em 2008. Simpatizante da corrente keynesiana (referência ao economista inglês John Maynard Keynes), Krugman refuta a tese de que a austeridade inspira maior confiança por parte dos investidores. Para ele, quando os consumidores e as empresas travam os gastos, são os governos que devem induzir o crescimento através de mais investimento. Entre os defensores da austeridade, uma das principais estrelas é o alemão Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, Banco Central da Alemanha, que, com algumas variações, costuma bater na mesma tecla: “Só podemos reconquistar a confiança dos investidores se eliminarmos os défices e aumentarmos a competitividade”, contrapõe.

Embora cada grupo se esforce por apresentar argumentos e estatísticas, a verdade é que até hoje nenhum dos lados conseguiu comprovar a sua infalibilidade. O que é evidente na Europa é que os eleitores dos vários países estão fartos de “apertar o cinto”. No mesmo fim-de-semana em que Hollande conquistou a presidência da França, a população grega mostrou nas urnas o seu desencanto ao eleger o Parlamento mais fragmentado da sua história. Nenhum dos partidos que defende a adopção das medidas de austeridade conseguiu mais de 20% dos votos. Para mais, o Partido Comunista Grego, que advoga a necessidade de abandonar o euro, ficou com 8,5% dos votos. Caso não seja formado um governo de coligação, um novo acto eleitoral ocorrerá em Junho. Mesmo nos países historicamente alinhados com a política económica alemã, a população tem exigido menos austeridade. No fim de Abril, o então primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, pediu a demissão ao fracassar as negociações para aprovar a redução do défice público a 3% do PIB, prevista para o próximo ano.

Na “escala de Richter” da crise europeia, a Grécia é o exemplo mais extremo, com a dívida equivalente a 165,3% do PIB. O caso francês é menos complicado: a relação dívida versus PIB é de 86%. Mas o que preocupa é a tradição de quatro décadas de défice fiscal. Isso, somado à ascensão de Hollande, pode, segundo estimativas, fazer o endividamento francês atingir 100% do PIB em 2015.

Levando-se em conta o discurso de campanha de Hollande, a revista inglesa The Economist chegou a colocar em dúvida a própria sobrevivência do euro, que estaria em perigo diante de uma eventual ruptura entre a França e a Alemanha.

...Investidores e eleitores divididos

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Mais um protesto em Atenas: 
Os eleitores gregos decidiram punir os políticos favoráveis à austeridade
Talvez o mais preocupante, no caso europeu, seja a velocidade com que os problemas se acumulam. Há alguns dias, a maior preocupação dos investidores era o futuro da Espanha, um país apanhado na temida “armadilha da dívida”. Com as atenções voltadas para a França, os espanhóis saíram, por ora, dos holofotes. Mas dificilmente a Espanha terá tempo para respirar. O país acaba de ter a sua nota revista em baixa pela Standard and Poor’s, agência de notação de risco (rating). O motivo foi a convicção de que o governo terá de resgatar as instituições bancárias em crise, o que aumentaria ainda mais a velocidade com que a dívida cresce — em 2008, era equivalente a 40% do PIB; hoje está em 68,5%. Simpático aos ideais de Merkel, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy anunciou, em Março, uma redução de 27 mil milhões de euros no orçamento, classificando-o como o mais austero da história do país. No fim de Abril, o governo lançou um programa de aumento de impostos, congelamento de vagas no sector público e mudanças na segurança social. Tudo para tentar diminuir o défice público de 8,5% para 1,1% em quatro anos.

Vai funcionar? “Cortes no orçamento não acompanhados de apoio para o crescimento do PIB estão a produzir uma desaceleração económica que está a minar a sustentabilidade dessa estratégia”, diz Barry Eichengreen, professor de Economia da Universidade da Califórnia e um dos economistas mais influentes do mundo. A discussão académica vai continuar. No mundo real, porém, as escolhas parecem feitas. Os investidores estão com Merkel. Os eleitores, com Hollande.  

Por: Guilherme Manechini
 
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