Edição nº 27
 

China

O combate 
pela sucessão 
já começou

No segundo semestre deste ano, provavelmente em Outubro, o establishment político chinês irá definir quem será, já a partir de 2013, o Presidente da segunda maior economia do mundo até 2023.


Bo Xilai, em Pequim: Antes da expulsão, o “príncipe” distribuía sorrisos à comunicação social

Além disso, decidirá quem fará parte do Comité Permanente do Politburo, principal órgão decisório do Partido Comunista (PC), de onde emergem figuras como o primeiro-ministro e vários secretários de Estado. À medida que a movimentação nos bastidores aumenta, a cena política chinesa faz recordar a célebre frase cunhada pelo autor britânico George Orwell: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”

Xi Jinping, excepto se houver uma improvável reviravolta, será o próximo Presidente chinês. Ele é filho de um revolucionário que lutou com Mao Tsé-tung e chegou a vice-primeiro-ministro da China na década de 50. Mais tarde, o seu pai arquitectou a criação da zona económica especial de Shenzen, transformando o que era um local discreto até a década de 80, num maiores símbolos dos “milagre económico” chinês. Além de Xi, seis dos mais prováveis candidatos a um lugar no Comité Permanente, todos na faixa dos 60 anos, também são chamados “príncipes”, parentes de figuras ilustres da história do país. A sucessão, no sistema chinês, não tem um carácter hereditário semelhante ao da Coreia do Norte. Porém, como mostra a actual disputa pelo poder, ter um parente revolucionário, ou um sólido currículo, pode ser um bom atalho para chegar ao labirinto do poder. “Na China, os governos passam, mas alguns apelidos ficam”, diz Cheng Li, director do departamento de estudos asiáticos do


O episódio da expulsão de Bo Xilai e 
a desaleração do crescimento do PIB — a previsão para este ano é de 8% — pode precipitar as reformas políticas

Brookings Institution, de Washington, considerado um dos maiores conhecedores da política chinesa.

A nova composição da cúpula decisória irá definir se o país caminhará, nos próximos anos, rumo a uma reforma política ou se manterá o status quo. O chinês Cheng Li costuma dividir os membros do PC em duas facções. O grupo a que ele chama “elitista”, linha seguida pela maioria dos príncipes, é politicamente conservador e economicamente liberal. Defende o crescimento acelerado do PIB e a abertura do mercado para os investimentos estrangeiros, mas nem quer ouvir falar de reformas políticas. Já o chamado grupo “populista”, liderado pelo actual Presidente Hu Jintao e pelo primeiro-ministro Wen Jiabao, sustenta que é necessário ampliar a democracia interna do PC e adoptar medidas mais duras para lidar com a corrupção nos altos escalões do governo.

Na área económica, os populistas, embora não sejam contrários à iniciativa privada, defendem a adopção de políticas redistributivas mais justas.

A queda de um príncipe

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Delegados ao Congresso do PC: Os analistas prevêem que a nomeação formal do novo Presidente chinês ocorra já em Outubro deste ano
Entre os dois grupos há uma diferença original. De um modo geral, os populistas destacaram-se na Liga da Juventude Comunista e vêm de famílias sem importância. Depois avançaram na carreira política galgando posições nas administrações provinciais. Já os príncipes sempre estiveram destinados a um futuro mais promissor — e, após o massacre dos estudantes na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em Pequim, em 1989, passaram a ser vistos pelos veteranos do PC como vitais para a preservação do sistema. “Muitos príncipes só estão onde estão para manter os privilégios. Vale sempre lembrar que na China não existem concursos, nem sequer para a escolha de funcionários públicos”, diz Joseph Cheng, professor de Ciência Política da Universidade de Hong-Kong.

A vida na cúpula do poder chinês cria um certo espírito de grupo, mas não evita disputas fratricidas, como demonstrou a recente expulsão de Bo Xilai, um príncipe “elitista” que dominava a cidade de Chongqing. O seu pai era o revolucionário Bo Yibo, considerado um dos Oito Imortais, grupo dos comunistas mais relevantes na China dos anos 80 e 90. Dono de uma fortuna estimada em 160 milhões de dólares, Bo Xilai era, até há pouco tempo, um forte candidato a ocupar uma cadeira do Comité Permanente. Político carismático, sempre receptivo a dar entrevistas aos canais de televisão (num país onde isso não é normal), Bo Xilai adorava evocar a memória de Mao Tsé-tung e adoptava políticas de forte apelo popular, como o combate às máfias locais. A sua sorte mudou quando as autoridades de Pequim descobriram que havia escutado um telefonema entre o Presidente Hu Jintao e um fiscal anticorrupção durante a visita presidencial à cidade de Chongqing, em Agosto do ano passado.

Economia perdeu fulgor

A gota de água foi o pedido de asilo ao consulado americano feito pelo seu antigo director da polícia. Dizendo-se perseguido, o ex-braço direito de Bo Xilai afirmava ter provas de crimes cometidos pela família do chefe. A acusação era de que a mulher de Bo Xilai teria mandado matar um empresário britânico amigo da família devido a disputas de negócios. Esse foi o pretexto para que os inimigos de Bo Xilai conseguissem decretar o fim de sua carreira política. “De certa forma, o que aconteceu é bem-vindo, pois incita os chineses a serem mais transparentes sobre as atitudes dos membros do partido”, afirma Cheng Li, do Brookings Institution.

Alguns analistas acreditam que o episódio Bo Xilai pode marcar o início de reformas políticas. “Se houver apoio popular, o governo, mesmo que liderado por um príncipe como Xi, será obrigado a fazê-las”, diz Jonathan Fenby, da consultora inglesa Trusted Sources. O gesto mais ousado seria fortalecer o aparelho judicial para que os altos membros do governo não vivessem acima das leis. Durante três décadas, o sistema político do país confiou no crescimento económico para manter a legitimidade. Em tempos de desaceleração do PIB (a previsão para este ano está em 8%), o custo político de maner o status quo poderá ser maior do que o de enfrentar as tradições. Uma eventual indignação popular faria mal tanto aos “elitistas” como aos “populistas”.

Filhos da revolução
Xi Jinping, que deve assumir a presidência da China 
em 2013, e seis dos candidatos a ocupar um posto 
no Comité Permanente do Politburo, a mais alta 
instância do PC, são chamados “príncipes”, 
parentes de figuras cimeiras da política chinesa.

Xi Jinping
Idade: 59 anos
Cargo actual: Vice-presidente da China. É cotado para assumir a presidência do país em 2013
Ligação familiar Filho de Xi Zhongxun, 
vice-primeiro-ministro da China 
na década de 50

Yu Zhengsheng
Idade: 67 anos
Cargo actual: Líder do 
Partido Comunista, em Xangai
Ligação familiar: Chamado “Grande irmão entre os príncipes”, é filho de Yu Qiwei, activista comunista e primeiro marido de Jiang Qing, que depois viria a ser a quarta mulher do líder Mao Tsé-tung. É amigo próximo da família do ex-secretário-geral do partido, Deng Xiaoping.

Zhang QingLi
Idade: 61 anos
Cargo actual: Líder do Partido Comunista em Hubei
Ligação familiar: Sobrinho de Zhang Wannian, general do Exército de Libertação Popular 
e ex-vice-presidente da Comissão Militar Central.

Zhang Dejiang
Idade: 66 anos
Cargo actual: Líder do Partido Comunista em Chongqing (assumiu em Março no lugar de Bo Xilai, recentemente expurgado pelo PC).
Ligação familiar: Filho de Zhang Ziyi, antigo general do Exército de Libertação Popular da China.

Li Yuanchao
Idade: 62 anos
Cargo actual: Director 
do Departamento Central 
de Organização do Partido Comunista, que controla 
os 70 milhões de filiados.
Ligação familiar: Filho de 
Li Gancheng, vice-governador de Xangai na década de 60.

Liu Yandong
Idade: 67 anos
Cargo actual: Conselheira de Estado da China. Se escolhida, será a primeira mulher no Comité Permanente.
Ligação familiar: Filha de Liu Ruilong, vice-ministro da Agricultura na década de 50.

Wang Qishan
Idade: 64 anos
Cargo actual: Vice-primeiro-
-ministro do Conselho de Estado da China, responsável pelas pastas das Finanças 
e do Comércio Externo.
Ligação familiar: Genro de Yao Yilin, ex-membro do Comité Permanente do Politburo.

Comité permanente

Os seus nove membros são quem governa, de facto, 
a China. Do grupo saem o Presidente, o primeiro-
-ministro e os secretários. Sendo um órgão confidencial, pouco se sabe sobre como funciona. Espera-se que sete membros sejam substituídos (por terem mais de 67 anos de idade) no próximo congresso do Partido Comunista, previsto para acontecer em Outubro.
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Por: Mariana Segala
 
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