
Quatro quartos, três casas de banho, três lugares de estacionamento e 320 metros quadrados de área. Assim é descrito um imóvel que está para venda, em Las Vegas, por 310 mil dólares. Nessa residência, um quarto, uma casa de banho, uma sala e uma cozinha formam um pequeno núcleo individual que tem acesso por uma porta independente. Este tipo de apartamentos, onde vivem várias pessoas, tornou-se uma nova moda entre as construtoras, que parecem ter acordado para uma tendência: há cada vez mais famílias com filhos adultos a morar em sua casa.
Os Estados Unidos já não viam tantos jovens a dividir o mesmo tecto com os pais ou os avós desde os tempos de James Dean. Com os progressos alcançados na educação depois da Segunda

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Guerra Mundial, os jovens americanos foram encorajados pelos pais a deixar o “ninho” mais cedo e a conquistar a sua independência financeira. No início dos anos 80, só 11% das pessoas de 25 a 34 anos moravam com a família. Hoje, devido à crise económica dos últimos quatro anos, a percentagem já chegou aos 22%. O grande número de jovens que saiu da casa dos pais e que se viu obrigado a regressar por questões económicas deu origem à expressão “geração bumerangue”. “O padrão das famílias multigeracionais era uma coisa do passado, que só existiu antes dos Estados Unidos se tornarem uma economia industrial”, diz Martin Whyte, professor de Sociologia na Universidade Harvard. “Hoje, muitas pessoas por volta dos 50 anos têm de ajudar financeiramente não só os pais, mas também os filhos.”
ROMNEY E OBAMA durante a campanha eleitoral: Afectados pelo desemprego,
os jovens adultos representam 15% do eleitorado americanoDe um modo geral, os dados mais recentes sobre a economia americana são positivos e reforçam a percepção de que o país já caminha para a retoma. No ano passado, o PIB cresceu 1,7% e estima-se que, no primeiro trimestre de 2012, a subida terá sido de 2,3%. Entre o início de Janeiro e o fim de Março, 635 mil novos empregos foram criados, 30% mais do que no trimestre anterior. Mas é uma recuperação ainda tímida e os jovens fazem parte do grupo mais penalizado pela crise. O desemprego entre os que têm entre 25 a 34 anos de idade está em 9%, valor acima da taxa da população total. Procurar o primeiro emprego durante demasiado tempo dá uma péssima imagem ao currículo (fenómeno já chamado “efeito cicatriz”). No diz respeito aos rendimentos, a situação não é melhor: os ganhos médios dessa faixa etária é quase 10% mais baixo do que a dos americanos em geral (no ano 2000, era similar). Para completar o calvário, os jovens estão cada vez mais endividados. Dois terços dos estudantes universitários pagam as propinas com financiamento bancário. Quando terminam a licenciatura, devem, em média, 24 mil dólares. Em tempos de vacas gordas, pagar essa dívida não era problema. Quando estão sem trabalho, o crédito por pagar tornou-se uma questão nacional. Estima-se que 30% dos estudantes estejam falidos. O total de empréstimos é de 1 bilião de dólares, valor superior às dívidas de cartão de crédito de todos os americanos.

“Não me restou alternativa senão pedir ajuda aos meus pais”, conta Janel Martinez, que voltou para casa dois dias depois da licenciatura em Sociologia e Jornalismo. Metade do salário que recebe como produtora de media digital em Nova Iorque serve para pagar a prestação mensal de 1000 dólares que terá de suportar por mais 12 anos. “Os jovens americanos estão a levar uma vida em câmara lenta: arranjam emprego, casam, compram o primeiro imóvel e têm filhos mais tarde. Eles não estão a injectar dinheiro na economia e isso é preocupante”, afirma o economista Gary Painter, professor da Universidade do Sul da Califórnia. Todd Buchholz, ex-director de política económica da Casa Branca e autor do livro Novas Ideias de Economistas Mortos, argumenta que a “geração bumerangue” é um dos factores que pode atrasar a recuperação da economia americana.

A questão do desemprego é um dos temas mais quentes das eleições presidenciais deste ano. Os membros da “geração bumerangue seguem os debates eleitorais com atenção”. Embora ainda vivam na casa dos pais, eles continuam a ser responsáveis por cerca de 15% dos votos. Logo, é um grupo que certamente vai ter algum peso na decisão sobre quem será o próximo Presidente.Por: Mariana Segala