Edição nº 28
 

Microeconomia

As pequenas nunca foram tão grandes

Publicado a 19-07-2012 10:41:00
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O Governo, através do Ministério da Economia, resolveu atacar de forma determinada o apoio ao empresariado nacional, em particular às micro, pequenas e média empresas (MPME). Elas são, como é sabido, o motor da “economia real” na generalidade dos países. O problema é que em Angola o peso da “economia informal” ainda é muito elevado. Isso faz com que, segundo os dados do Ministério, as MPME representem apenas 5% das receitas do imposto industrial arrecadado pelo Estado. A título de exemplo, segundo a mesma fonte, em Portugal as MPME têm um peso 12 vezes maior, sendo responsáveis por 60% do imposto recolhido. Os dados são ainda mais impressionantes no Brasil, país em destaque pelo número de empresas, quer em percentagem do PIB quer da população activa (veja gráfico acima).

A ideia de lançar um vasto programa de apoio às MPME não é nova (veja entrevista ao ministro da Economia, Abraão Gourgel, à EXAME, em Julho de 2011). Só que, como também é sabido, o problema em Angola nunca foi a elaboração de planos, mas a sua capacidade de execução. Neste capítulo o Ministério da Economia tem dado mostras de um inegável dinamismo. Nunca as MPME tiveram tanto protagonismo mediático como nos últimos meses.


O Estado suporta a bonificação das taxas de juro e garante a cobertura até 70% do valor do empréstimo
Uma das primeiras batalhas vencidas foi a da comunicação. O outrora designado “programa de desenvolvimento das MPME” passou a ostentar o nome mais apelativo de “Angola Investe” (que, já agora, é um dos pilares da estratégia global do Executivo, “Angola 2015”). O programa Angola Investe é vasto, envolve várias entidades e agrupa 14 iniciativas (divididas em cinco grupos), algumas delas com objectivos quase similares. Não surpreende, portanto, que tenham surgido dúvidas na sua interpretação (a título de curiosidade o Ministério da Economia enviou um comunicado para as redacções dos jornais queixando-se da falta de rigor das notícias que estavam a ser publicadas sobre o programa).

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Talvez, por isso, algumas das suas iniciativas (ou subprogramas) mais emblemáticas foram, também elas, “rebaptizadas”. Na última edição da EXAME falámos do “programa de incentivo ao consumo de produção nacional” — numa primeira fase apelidado “Comprar Nacional” e que, na altura da apresentação pública ganhou a nova designação (bem mais apelativa, mais uma vez) de “Feito em Angola”. Também outra das iniciativas importantes, o “programa de apoio ao pequeno negócio”, vulgo PROAPEN (veja texto seguinte), passou a designar-se “Meu Negócio, Minha Vida” (convenhamos que o Ministério da Economia tem jeito para títulos).

Porém, o programa que encheu os noticiários do último mês foi a primeira das 14 iniciativas, a que visa a facilitação do crédito às MPME. Com este objectivo “o ministro da Economia assinou um memorando de entendimento com 19 bancos comerciais no valor de 1,4 mil milhões de dólares”, diz a nota de imprensa. Para o conhecer melhor, a EXAME falou com José Bento, nascido no Huambo, consultor do ministro (cargo que exerce desde a criação do Ministério da Coordenação Económica há quatro anos) e um dos principais rostos do programa Angola Investe. Ficámos a saber que dos 21 bancos activos em Angola, 20 já assinaram o protocolo (veja lista na página seguinte) segundo o qual os juros a serem pagos pelas MPME serão de 30% da taxa acordada com os bancos, até ao limite máximo de 5%.

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Isto significa que se, porventura, uma MPME acordasse uma taxa de 15% com o banco, na prática passaria a pagar apenas 4,5%. Para quem gosta de conhecer os detalhes, os limites máximos das taxas de juro não poderão ultrapassar a Luibor (Luanda Interbank Offered Rate, taxa de referência do BNA) a seis meses mais 6% para as microempresas; mais 4,5% para as pequenas empresas e mais 3% para as médias empresas. “São taxas ao nível das oferecidas aos melhores clientes dos bancos”, afirma José Bento. Pagar juros máximos de 5% é, em resumo, uma excelente notícia para os empreendedores e um valente “empurrão” à criação de negócios.
Acesso ao crédito a juros acessíveis
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O aparente “milagre” tem uma explicação. O Estado garante a bonificação dos juros pagos pelas MPME (ou seja, a diferença entre a taxa de juro do mercado e o valor máximo de 5% que será efectivamente pago pelas empresas) e colocará à disposição um fundo de garantia que poderá cobrir até 70% do montante desse empréstimo. O investimento do Estado será de 155 milhões de dólares para a bonificação de juros e de 200 milhões para o fundo de garantia. Os bancos comerciais, por vez, comprometeram-se a alocar, nos respectivos memorandos, uma linha de financiamento até ao limite de 1,4 mil milhões de dólares durante este ano. “Os bancos vão investir na economia, concedendo mais crédito, com um risco menor, dado que os empréstimos serão cobertos a 70% pelo Governo através do fundo de garantia. Os empreendedores, por seu turno, ganham acesso ao crédito, a taxas acessíveis, tendo apenas de garantir os restantes 30% do empréstimo”, sintetiza.

Mas a “benesse” não é para todos. As empresas elegíveis terão de ser certificadas como MPME pelo INAPEM, têm de actuar em sectores considerados prioritários (a preferência vai para o chamado sector produtivo) e o investimento deverá ser dirigido à aquisição de imobilizado corpóreo ou ao reforço do fundo de maneio. Por outro lado, existem limites máximos para os empréstimos (200 mil dólares para microempresas, 1,5 milhões para as pequenas e 5 milhões para as médias). De referir ainda que o prazo máximo de reembolso é de sete anos e a carência de capital de, pelo menos, seis meses.

Outra novidade do programa Angola Investe é a criação de fundo público de capital de risco em 2012. O capital de risco, para os menos familiarizados, é um instrumento muito usado (sobretudo em países como os Estados Unidos) onde o investidor investe em start-ups (empresas nascentes) promissoras, adquirindo uma parte do capital e apoiando a gestão. Algum tempo depois, essa participação acaba por ser revendida, idealmente com mais-valias. “O fundo será gerido por um banco, terá uma gestão profissional e o objectivo final será o lucro. Mas a ideia do Executivo é apoiar os projectos mais promissores dos sectores estratégicos da economia”, explica o consultor.

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Outro eixo fundamental do Angola Investe é o estímulo à produção nacional. Os dois subprogramas Feito em Angola (selo de origem angolana) e Dinamização dos Sectores-bandeira (os primeiros eleitos foram os ovos, frangos e leite) já estão em curso. Faltam dois objectivos mais ambiciosos. O primeiro, é o fomento do cooperativismo, em particular na agricultura e pescas, esforço que será feito em consertação com o Instituto de Desenvolvimento Agrário. “A ideia é concentrar o apoio às cooperativas mais organizadas em todas as províncias, de modo a que sirvam de exemplo para as restantes. Temos também de aprender com experiências bem sucedidas lá fora, em particular no domínio da capacitação e da modernização, caso do Brasil”, explica José Bento.

Além do estímulo à produção, há a questão da comercialização. “Isso implica a reconstrução de estradas e infra-estruturas de apoio — centros logísticos e silos agrícolas, por exemplo — de modo a criar vias de acesso rápido desde os locais de produção até aos mercados e às grandes superfícies de distribuição”. Refira-se que esta iniciativa intitulada “corredores para escoamento de produtos agro-pecuários” está a ser coordenada pelo Ministério do Comércio e a Secretaria da Presidência para os Assuntos Sociais.

O segundo grande objectivo, desta feita em articulação com o Ministério da Indústria, é “dinamizar os pólos agro-industriais, pólos industriais e a zonas económicas exclusivas (ZEE)”. “Temos de perceber por que razão alguns pólos industriais não avançaram e rever os modelos de aplicação. O papel do Estado deverá ser, sobretudo, o de reduzir os custos de contexto que ainda são muito elevados em Angola. Isso implica lotear os terrenos, erguer as infra-estruturas e assegurar o abastecimento de água, energia, saneamento de maneira a atrair bons projectos privados e dar-lhes condições de competitividade”, defende.

INAPEM terá um papel fundamental

No que se refere à “capacitação para MPME” e “potenciar a desburocratização e os apoios fiscais e institucionais às MPME”, (que agrupam quatro iniciativas) o papel do INAPEM (Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas) é fundamental. A revitalização deste instituto (que, em breve, terá uma nova imagem e novo site) é uma das prioridades do Ministério da Economia. Além da missão de certificar as MPME, o INAPEM terá como atribuições a formação e consultoria e a criação de uma rede de incubação, escola de empreendedores e um observatório. Na calendarização de acções proposta pelo Ministério da Economia para este ano, prevê-se ainda a realização de um congresso e de um concurso dedicado ao empreendedorismo.

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Falta referir o quinto e último grupo: “As iniciativas de impacto social e económico imediato.” A já referida iniciativa do programa de microfomento (PROAPEN ou “Meu Negócio, Minha Vida”) e o de reconversão da economia informal (PREI) serão abordadas no artigo seguinte. As restantes medidas de impacto social serão sentidas já em 2012 e o investimento previsto será de 69 milhões de dólares (num outro documento específico sobre as iniciativas programadas para Luanda, fala-se num investimento de 131 milhões de dólares).

O fundo público de capital de risco vai investir 200 milhões de dólares em jovens empresas promissoras

Destacam-se quatro grandes projectos. O primeiro, chama-se Luanda Limpa (orçamentado em 25,6 milhões de dólares). Pressupõe que o Estado pague um valor a definir pelo lixo recolhido e entregue em 25 pontos de recolha que serão criados na cidade. E implica a aquisição de kits de saneamento e de motociclos de transporte de lixo. Os interessados poderão adquirir os kits através do microcrédito e receberão vouchers, ou cheques, convertíveis em dinheiro nas agências bancárias.

O segundo (no valor de 43,6 milhões de dólares), consiste na criação de uma rede de mercados populares em Luanda (complementar da actual) que inclui 18 mercados municipais (a renda a pagar pelos vendedores andará em torno dos 100 kwanzas por dia); 80 mercados de bairro, 14 mercados de peixe e uma rede de 100 quiosques.

O terceiro, é um programa de apoio ao pequeno negócio em Luanda (no valor de 39,8 milhões de dólares) que tem como trunfo a atribuição de microcrédito em condições favoráveis (juros de 2%).

Por fim, há o programa de equipamentos sociais (investimento de 18,7 milhões de dólares) que visa criar 100 balneários públicos, 11 cozinhas comunitárias e 14 polidesportivos. Luanda, ao que tudo indica, vai sofrer uma “revolução empreendedora”. Resta-nos esperar que estas iniciativas sociais e económicas de carácter “imediato”, façam jus ao nome.

 






Por: Jaime Fidalgo
 

Comentários

  1. MOISES DOMINGOS
    2013-04-07 17:33:24
    quero saber se os angolanos vao ter mesmo acesso a tudo isso? ser assim e uma maravilha. divulguem mais aos angolanos.e priorizem tambem os dificientes de guerra e ex- militares,porque sao os maiores pobres deste pais
  2. MOISES DOMINGOS
    2013-04-07 17:30:35
    quero saber se os angolanos vao ter mesmo acesso a tudo isso? ser assim e uma maravilha. divulguem mais aos angolanos.e priorizem tambem os dificientes de guerra e ex- militares,porque sao os maiores pobres deste pais
  3. MOISES DOMINGOS
    2013-04-07 17:28:31
    quero saber se os angolanos vao ter mesmo acesso a tudo isso? ser assim e uma maravilha. divulguem mais aos angolanos.e priorizem tambem os dificientes de guerra e ex- militares
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