Edição nº 28
 

Emergentes

Até o bric perdeu 
o fôlego

Publicado a 19-07-2012 11:00:00
Uma das mais célebres frases do milionário norte-americano Warren Buffett resume bem o espírito dos tempos actuais: “Só na maré baixa é que se descobre quem está a nadar sem colete de salvação.” A citação aplica-se com perfeição às épocas de crise recentes. Entre 2008 e 2009, no auge do caos económico, os países ricos entraram em recessão e mostraram que estavam a nadar sem colete. Durante o mesmo período, os países emergentes passaram sem grandes constrangimentos pela “maré baixa”, o que lhes rendeu a fama de resilientes às intempéries da economia global.

Extracção de carvão na Índia: 
O país carrega um fardo por não fazer reformas económicas

Hoje, quando todos vislumbram, com receio, a possibilidade de um novo “mergulho” da economia mundial, é cada vez mais claro que os países emergentes também não usam coletes assim tão seguros. Nos últimos meses, os indicadores de crescimento do Brasil, Rússia, Índia e China mostram que o bloco BRIC também está a sofrer os impactos da crise na Europa. Perante o agravamento do cenário externo, as quatro nações do grupo — responsável por quase metade do crescimento mundial nos últimos anos — reduziram as suas estimativas para 2012. A previsão inicial para o bloco, que era de um crescimento de 7,6%, caiu para 6,3%. Há um ano, as previsões para a China e da Índia eram de 9,2% e 7,8%, respectivamente, agora, são 8,2% e 6,6%. As estimativas para o Brasil foram as que mais encolheram: de uns optimistas 4% para os actuais 2,2%.

Mais do que uma desaceleração sazonal, a desaceleração coloca em dúvida a ideia de que o Bric seria a nova locomotiva da economia global. Nos últimos anos, a distância entre o desempenho dos emergentes e o dos ricos tem vindo a estreitar-se. Em 2009, os países do Bric cresceram, em média, 5,4%, nove pontos percentuais a mais do que as nações desenvolvidas. Este ano, segundo os analistas, a distância entre os dois grupos deverá ser reduzida a 4,9 pontos percentuais. “Os países do BRIC vão crescer mais lentamente, pois dependem em larga medida das economias avançadas, que têm um árduo trabalho pela frente”, diz Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia. Até Jim O’Neill, o executivo do banco Goldman Sachs que criou o acrónimo BRIC em 2001, reconhece que a tese do domínio dos emergentes no século xxi está em xeque.

Desaceleração com causas diferentes

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As causas para o abrandamento dos países do Bric não são homogéneas. As economias mais orientadas para as exportações, como as da China e da Rússia, sofrem com a baixa procura de produtos importados, principalmente da União Europeia. No primeiro trimestre, as vendas externas da China cresceram 7,6%, o que fez o PIB expandir a um ritmo mais lento para os padrões chineses — 8,1% —, a pior taxa dos últimos três anos. Segundo o governo de Pequim, empenhado em acelerar a transição para um modelo de crescimento mais dependente do mercado interno, as exportações devem crescer abaixo de 10% em 2012, metade do registado no ano passado.

No caso do Brasil e da Índia, países menos vulneráveis às quedas nas vendas externas, as causas da desaceleração são a combinação de um aparente esgotamento do consumo interno com a falta de reformas que dêem mais oxigénio aos empreendedores locais. Nos primeiros três meses do ano, o Brasil cresceu apenas 0,8%. O desempenho modesto é atribuído, em grande parte, à queda nos investimentos e ao alto endividamento das famílias, o que travou os gastos dos brasileiros. Na Índia, o PIB expandiu 5,3% no primeiro trimestre, o pior resultado dos últimos nove anos.

Com essas notícias, os investidores estão mais reticentes em relação aos BRIC. Em oito das últimas dez semanas, eles reduziram as suas aplicações nas Bolsas dos países emergentes. Segundo o Bank of America Merrill Lynch, o actual nível de exposição de fundos de investimentos estrangeiros nesses países é o menor desde Outubro. Confrontados com PIB mais magros, os países emergentes têm adoptado diferentes receitas para voltar a crescer. Recentemente, o governo chinês cortou a taxa básica de juro em 0,25 pontos percentuais, diminuiu o preço dos combustíveis em 5,5% e criou um programa de subsídios para a compra de electrodomésticos.

Índia pode baixar a notação de risco

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Loja de Huaying, na China: Subsídios para estimular o consumo chinês
Também surgiram novos investimentos em infra-estruturas. Já foi autorizada a construção de 70 aeroportos nos próximos três anos. “Aumentar o investimento público face à desaceleração do consumo pode ser a resposta certa de curto prazo, mas vai agravar o peso da dívida chinesa”, diz Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim. “Foi isso o que aconteceu na América Latina nos anos 70.” A expectativa é que a Índia imite a China e anuncie investimentos em infra-estruturas. A redução do crescimento aumentou a desconfiança dos analistas. A Standard & Poor’s alertou, em Junho, que a Índia poderia ser o primeiro país do BRIC a baixar o actual nível de classificação de risco (rating).

Parte da preocupação quanto aos emergentes é fruto do próprio sucesso do bloco. Em 2001, a expectativa de O’Neill era que, em apenas uma década, a economia chinesa seria do tamanho da alemã e que a brasileira igualaria a italiana. A história mostrou que a previsão era pessimista. Hoje, a China é a segunda maior economia do mundo e o Brasil é a sexta, ultrapassando não só a Itália, mas também o Reino Unido. Numa entrevista recente, perguntaram a Warren Bufett se ele estava preocupado com a China. “Nas próximas décadas, os chineses alternarão entre os períodos de crescimento com os de recessão, tal como sucedeu com os Estados Unidos e vários outros países ao longo da sua história. Mas não se enganem: a trajectória global é no sentido ascendente”, respondeu. Ou seja, para o lendário investidor, considerado por muitos o melhor do século xx, a grande potência emergente está a nadar com um colete que não é indestrutível. Mas é mais resistente do que os outros.   

Arriba, arriba México

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Peña Nieto: 
o PRI pode voltar 
ao poder no México doze anos depois
Depois de passar pela pior recessão 
desde a “crise da tequila”, o país restaura 
o crescimento e a confiança. a violência 
e o narcotráfico são desafios a vencer

A desaceleração económica que caracteriza os BRIC parece não se repetir noutro grande emergente, o México. Entre 2008 e 2009, a economia do país, muito dependente da americana, foi ao fundo do poço: recuou mais de 6%. Nos últimos dois anos, com a tímida recuperação dos Estados Unidos, os mexicanos começaram a olhar para a frente de uma forma mais positiva. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mexicana deverá crescer de 3,5% a 4% ao ano até 2014, uma previsão similar à do Brasil e da Rússia durante o mesmo período.

Este cenário tranquilo só é ameaçado pelos receios com a segurança. Os dados não oficiais indicam que mais de 50 mil pessoas morreram na guerra ao tráfico de drogas nos últimos seis anos.Durante as eleições presidenciais realizadas no mês passado, a violência continuou no centro do debate. Insatisfeitos com a política de segurança pública do ex-presidente Felipe Calderón, do Partido da Acção Nacional, os eleitores deixaram a candidata governamental, Josefina Vázquez Mota, em terceiro lugar. O vencedor foi Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI) com 38% dos votos, o mesmo que dominou a política local durante sete décadas e foi acusado de corrupção e infidelidade conjugal. Na altura em fechámos a EXAME o candidato da esquerda Andres Obrador (com 32%) quer impugnar o acto alegando que o PRI “comprou” 5 milhões de votos.  A boa notícia para os mexicanos é que o FMI não condiciona as suas previsões à vitória de um candidato.


Por: Guilherme Manechini
 
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