Edição nº 28
 

Europa

A corrida aos bancos já começou

No meio de uma crise sem precedentes, com um novo governo a assumir funções, o medo de que o dinheiro guardado no banco perdesse valor espalhou-se à velocidade da luz. Os aforradores correram às agências para levantar os depósitos, um movimento que, em poucos meses, conduziu ao fecho de vários bancos. O episódio refere-se a 1933, o ano da Grande Depressão nos Estados Unidos. O pânico foi fruto dos rumores de que Franklin Roosevelt, Presidente recém-eleito, pretendia depreciar o dólar.


Protesto em Barcelona: No primeiro trimestre, 100 mil milhões de euros 
foram enviados 
para fora do país

 Quase 80 anos depois, esta história parece tragicamente actual. Hoje, é na Europa que os bancos vivem os seus piores dias desde 2008, o início da actual crise, a mais profunda desde a da década de 30. É lá que circulam notícias e boatos que já estão a dar início a uma corrida bancária, um dos eventos mais temidos por economistas e governos. Uma eventual falência em série dos bancos europeus pode ser o golpe de misericórdia para a moeda única, algo que espalharia o pânico pela economia mundial.

Em Espanha, as 
perdas da banca com os créditos incobráveis são estimadas num quarto do PIB
Os sinais de alarme já dispararam. Os aforradores gregos levantaram 32 mil milhões de euros das suas contas bancárias, nos últimos 12 meses, o que representa uma queda de 16% nos depósitos. Um movimento semelhante está a acontecer em Espanha, onde os bancos perderam 6% dos depósitos no mesmo período. Por enquanto, nenhuma dessas economias fragilizadas viu sinais de uma corrida bancária no seu sentido mais clássico. Não há filas nos bancos e os depósitos ainda diminuem a taxas abaixo dos 5% ao mês, patamar que o Fundo Monetário Internacional caracteriza como o limiar do pânico. Mas os prognósticos não são optimistas. Em Espanha, as perdas potenciais do sistema bancário com o crédito malparado (empréstimos que os clientes não conseguem pagar) são de 260 mil milhões de euros, um quarto do PIB do país.

Na Grécia, crescem as dúvidas quanto à capacidade do país de se manter na zona euro. “Como analista, acho que o país não sairá do euro. Mas se tivesse dinheiro lá, certamente já o teria levantado”, diz James Rickards, autor do livro Currency Wars (“Guerras Cambiais”) e director do Tangent Capital Partners. Como afirmou Mervyn King, presidente do Banco Central inglês, “precipitar uma corrida bancária é irracional. Mas participar numa, não”.

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O problema da Grécia, com uma dívida equivalente a 160% do PIB, tem fortes contornos políticos. Incapaz de formar um governo nas eleições de Maio, o país teve um novo pleito a 17 de Junho. A popularidade dos líderes de extrema esquerda, como Alexis Tsipras, do partido Syriza, que chegou a estar à frente  nas sondagens, provocou calafrios nos analistas financeiros. Tsipras dizia que as medidas de austeridade destinadas a “salvar” a Grécia empurraram o país “para o inferno”. Se o seu partido Syriza tivesse ganho a saída do euro e o regresso ao dracma eram inevitáveis. A Europa respirou de alivio após a vitória tangencial do partido de centro-direita Nova Democracia (pró-austeridade), liderado por Antonis Samaras.  “Não vai haver mais aventuras, o lugar da Grécia na Europa não será posto em causa”, disse Samaras. Foi mais um episódio de uma novela cujo desfecho ainda é incerto.

Poucos dias antes o governo espanhol de Mariano Rajoy colocou os mercados em estado de choque com o pedido de resgate do sector bancário avaliado em 100 mil milhões de euros. Muitos temem que o montante seja insuficiente. Outros argumentam que o pedido de ajuda aos bancos é apenas o prelúdio de um resgate ao Estado (semelhante ao ocorrido na Irlanda, Grécia, Portugal e, ao que tudo indica, ao Chipre).  “O governo está a socorrer os bancos e os bancos estão a socorrer o governo”, disse o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, à agência Reuters. “É economia vudu”, ironizou.

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Antonis Samaras, em Atenas, 
após a vitória eleitoral: “Não haverá mais aventuras. O lugar 
da Grécia é na União Europeia”, afirma

O problema é que a Espanha é um “peso pesado” da União Europeia. Além da dívida externa e do desemprego, o problema espanhol são os créditos incobráveis, fruto do estouro da bolha imobiliária. O banco Bankia, especializado no crédito hipotecário, precisa de 19 mil milhões de euros para sobreviver (a somar à injecção de 4 mil milhões de euros do início de Maio). O receito dos investidores é tal que no primeiro trimestre deste ano, 100 mil milhões de euros “voaram” do país, um recorde das transferências para o exterior.

Uma das saídas defendidas por Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, é a criação de um fundo de garantia de depósitos bancários para a zona euro (os mecanismos que hoje existem são nacionais). Outra opção é autorizar o Mecanismo Europeu de Estabilização (fundo permanente de resgate para os governos), a recapitalizar os bancos directamente. 
“A situação na Espanha e na Grécia está a colocar o sistema bancário europeu sob mais pressão do que estava o americano há cinco anos”, diz Alex Tsirigotis, analista do banco italiano Mediobanca. “Se a corrida bancária acontecer, o mercado interbancário vai parar, tal como sucedeu com na altura da falência do banco Lehman Brothers, em 2008”, recorda Cristiano Souza, economista do Santander. É um filme que ninguém quer ver repetido.  


Por: Mariana Segala, em Atenas
 
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