Edição nº 28
 

Estados Unidos

Eles gritam mais alto

Publicado a 19-07-2012 11:58:00
Até há pouco tempo, Jamie Dimon, presidente do JP Morgan Chase, era considerado uma rara excepção entre os seus pares em Wall Street. À frente do banco desde 2007, ele passou à margem da lista de vilões da crise. No auge da turbulência, em 2009, o JP Morgan foi um dos bancos menos afectados e, mais tarde, o primeiro a devolver o dinheiro do resgate ao governo americano. Porém, bastaram poucas horas para acabar com anos de convivência pacífica com os accionistas.

Reunião de accionistas do Bank Of America: Protestos travaram aumento de salários

No dia 10 de Maio, Dimon — outrora chamado “último homem de pé” no mercado financeiro americano — anunciou perdas de mais de 2 mil milhões de dólares em operações, por ele qualificadas como “erros grosseiros”. Os accionistas minoritários pediram imediatamente a cabeça dos executivos envolvidos e medidas de controlo mais rígidas. Um dia antes do encontro de accionistas na Florida, o banco anunciou a demissão da directora de investimento, Ina Drew. Outra medida exigida foi a restituição dos bónus pagos aos executivos envolvidos com as perdas. Para agravar o cenário, o banco passou a ser investigado pela SEC, a agência reguladora do mercado de capitais americano, pela Reserva Federal, o banco central americano, e até pelo FBI.

O JP Morgan não foi caso único. Os confrontos entre executivos e accionistas fazem parte do dia-a-dia de várias empresas americanas e europeias. Em casos mais extremos, a pressão dos accionistas minoritários culminou na demissão de presidentes, tal como sucedeu na seguradora britânica Aviva e na empresa de internet Yahoo!

Outro caso elucidativo foi o do Bank of America, em que 92% dos accionistas aprovaram o pacote de remuneração de 7 milhões de dólares para o presidente, Brian Moynihan. Só que uma pequena parcela de insatisfeitos decidiu protestar (os berros ouviram-se dentro e fora do local da reunião). “Os accionistas não se querem intrometer no dia-a-dia das empresas. Mas são implacáveis com eventuais deslizes e exigem medidas imediatas”, diz Sarah Wilson, presidente da Manifest, uma empresa especializada na representação de accionistas minoritários, com sede em Londres.

Protestos provocam danos na imagem

A falta de paciência é proporcional ao trauma da crise financeira. É uma reacção já vista noutros momentos da história. As reivindicações dos accionistas minoritários nos Estados Unidos começaram na década de 30, após a quebra da Bolsa de Nova Iorque. Lewis Gilbert, primeiro activista da história americana, conseguiu, em 1939, que a siderúrgica Bethlehem Steel mudasse o local do encontro anual da Pensilvânia para Nova Iorque. Nos últimos dois anos, as novas regras do mercado financeiros deram voz aos accionistas em questões mais importantes. Hoje, os accionistas podem reprovar a remuneração dos executivos, ainda que esse protesto não tenha de ser necessariamente acatado pelos dirigentes da empresa. “Mesmo que não tenha efeitos práticos, a rejeição dos salários dos executivos promove o debate público e torna as empresas mais criteriosas. Senão elas correm o risco de uma crise de imagem”, diz Todd Mattley, do Calpers, fundo de pensões da Califórnia, que votou contra o pacote de remuneração de 10% das 3 mil empresas que fazem parte do seu portefólio. O Reino Unido também quer adoptar o say on pay (opinar sobre salários). Se a nova legislação for aprovada, os accionistas terão o direito de vetar a remuneração dos executivos. Um dos defensores da lei é John Vincent Cable, secretário do primeiro-ministro David Cameron. “A remuneração dos gestores aumenta quando os resultados são bons e continua a subir quando o desempenho é desastroso. Os accionistas podem evitar essa injustiça”, justificou.

Regras de controlo mais rígidas

Clique para ampliar a imagemMas a discussão mais polémica é sobre a aplicação de uma lei específica para controlar o mercado financeiro. Da autoria do economista Paul Volcker, conselheiro do Presidente Barack Obama e ex-presidente da Fed, a regra Volcker pretende limitar os investimentos especulativos dos bancos americanos. Se for aprovada, os bancos ainda terão dois anos para se adaptar. “O mercado precisa de mais regras, após duas décadas em que a desregulação se mostrou desastrosa para o país”, diz Seth Gardner, director da Universidade Duke. “Mas não será tão simples definir na prática o que é, ou não, um investimento especulativo.”

Tolerância zero: Quatro empresas que enfrentaram a fúria dos accionistas este ano

Os especialistas também argumentam que a discussão na praça pública não ajuda a manter o bom senso, sobretudo num ano de eleições presidenciais. O envolvimento do FBI nas investigações do JP Morgan é prova disso. “Trata-se de uma reação política e não técnica”, afirma Jesse Fried, professor de Direito da Universidade Harvard. Segundo Fried, o risco é o de alimentar um discurso em que os accionistas apareçam como “guardiões da justiça”, e os executivos como “oportunistas gananciosos”. A história mostra que não é bem assim. Nos anos 70, surgiu um novo tipo de accionista — o raider, uma espécie de investidor oportunista que comprava participações de empresas para depois as vender celebrizado no filme Wall Street. Talvez não exista a fórmula perfeita para dividir poder entre executivos e investidores. Mas vai ser cada vez mais difícil ignorar a voz estridente dos pequenos accionistas.

Por: Cristiane Mano, em Nova Iorque
 
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