Edição nº 28
 

Europa

O lado Merkel ganhou

No domingo, 17 de Junho, no centro de Berlim, em frente ao portão de Brandemburgo, reuniu-se uma multidão para ver, num ecrã gigante, a Alemanha jogar contra a Dinamarca (o encontro de futebol que decidia a passagem aos quartos-de-final do chamado “grupo da morte”). Antes da partida e durante o intervalo, o que se via não eram imagens em directo do campo, como seria de esperar, mas, sim, informações ao vivo de Atenas.


Antonis Samaras, o vencedor grego: A sua eleição acalmou a 
crise, por algumas horas

Para os alemães presentes no local, esses momentos eram como sinais de que havia chegado a hora de ir buscar outra cerveja. Mas a cúpula do governo alemão acompanhava com igual ansiedade os resultados das eleições gregas. Uma eventual consagração do partido de Esquerda Radical, conhecido por Syriza, que se opunha veemente às políticas de austeridades poderia levar o caos aos mercados e fazer a Grécia sair da zona euro. No final do encontro, a selecção alemã bateu a Dinamarca, e os adeptos festejaram ruidosamente. No outro “desafio” o conservador Antonis Samaras, do partido Nova Democracia, venceu as eleições gregas e os líderes europeus respiraram mais aliviados. Diz-se que o facto da selecção grega de futebol ter vencido a Rússia no dia anterior (qualificando-se inesperadamente) teve um impacto positivo no acto eleitoral.

O problema é que essa vitória foi “sol de pouca dura” para os gregos que depois baquearam frente à toda-poderosa Alemanha (com a suprema humilhação de verem a chanceler Merkel a festejar nas bancadas). No “jogo da política” a vitória de Samaras também foi ilusória, dado que as visões sobre o futuro da moeda comum continuam apocalípticas.

O facto do governo espanhol ter sido forçado a pagar juros de 7,1% nos seus títulos de longo prazo no dia seguinte às eleições gregas — o nível insuportável que levou a Irlanda, Portugal e a própria Grécia ao pedido de resgate — mostrou que o alívio pela vitória da centro-direita, na verdade, não passou de um breve suspiro de alívio. Como tem sido comum nestes últimos meses, a cada novo passo em falso da moeda única, o mundo clama por uma liderança mais firme da Alemanha, a maior economia da Europa. No centro das atenções está Angela Merkel — sempre ela. O mundo aguarda por um plano realista para atacar uma crise que dura há tempo de mais.

Para os alemães, porém, os ponteiros do relógio parecem avançar a um ritmo mais lento. Os adeptos que foram ver o jogo no domingo e preferiram beber cerveja a acompanhar os noticiários são um sinal dessa tendência. A verdade é que os alemães parecem não estar muito preocupados com o fim do euro. Semanas antes das eleições na Grécia, a revista semanal Der Spiegel divulgou uma estatística curiosa: nos últimos dois anos já havia publicado 17 temas de capa sobre a crise. Porém, para a maioria dos alemães, os problemas do continente são apenas isto: a mesma notícia repetida várias vezes nas televisões. “O assunto é entendido como um problema dos outros”, resume o economista Jens Boysen-Hogrefe, do Instituto de Economia de Kiel.

Enquanto o desemprego bate recordes na Grécia e em Espanha, o assunto premente na Alemanha é a falta de mão-de-obra. Na semana em que a Espanha pedia 100 mil milhões de euros em empréstimos para salvar os bancos, a alemã Audi divulgou ter obtido, em 2011, a maior facturação dos seus 103 anos de história. Acrescentou ter revisto em alta as suas metas para 2012, devido ao crescimento da procura, em particular da Ásia. Nem a notícia de que a economia alemã teve o pior mês (Junho) dos últimos 14 anos arrefeceu o optimismo.

Exportações alemãs em alta

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A desvalorização do euro tem ajudado as exportações alemãs. Mas também há méritos próprios. Desde a crise financeira de 2008, que a Alemanha (país em que as exportações representam mais de 50% do PIB) procura diversificar as suas vendas externas. O esforço é particularmente visível entre as mittelstand (pequenas e médias empresas familiares) que empregam quase 80% da força de trabalho e respondem por mais da metade das exportações.

A postura dos alemães, em geral, e do governo Merkel, em particular, representa uma visão de mundo peculiar: a de que o trabalho duro é o único caminho para vencer. Diz-se que num jantar no ano passado alguém teria perguntado a Merkel quando é que ela iria deixar de exigir sacrifícios dos gregos. “Não vamos mudar enquanto as olheiras de George Papandreou (primeiro-ministro da Grécia da época) forem menores do que as minhas”, teria dito ela.

Num momento em que a generalidade dos líderes mundiais parecem discordar de Merkel, é curioso notar a actuação dos partidos alemães da oposição. O assunto político da actualidade é o pacto fiscal, um acordo assinado em Março pela maioria dos países da União Europeia que precisa de ser aprovado nos parlamentos nacionais. Pelo texto, os países devem impor regras para travar as suas dívidas públicas. Na Alemanha, os líderes da oposição querem incluir medidas que, de alguma maneira, estimulem o crescimento. Não há, no entanto, apoio à ideia de abrandar as metas fiscais impostas à Espanha ou à Grécia. “Em assuntos europeus, o consenso político é quase absoluto”, diz Werner Patzelt, director do Instituto de Ciência Política da Universidade de Dresden. Em casa, Merkel tem sido julgada de forma mais condescendente do que no exterior. São poucos os que falam sobre o que outros líderes europeus chamam “hesitação”. Para Hubert Védrine, ex-ministro das Relações Exteriores de França, a Alemanha “tem um relacionamento esquizofrénico com a ideia de poder”. Uma explicação simplista remete à história. Em alemão, liderança, ou führung, ainda faz lembrar a figura de Hitler, o führer. Nas empresas, o termo costuma ser substituído pelo equivalente em inglês, leadership.

Mercados ainda respeitam o euro

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“Merkel pode mudar de posição rapidamente quando a ocasião o exige”, diz Gerd Langguth, biógrafo da líder alemã
Ainda que apoiada por uma população que parece apática diante do desespero alheio, Merkel não está livre de críticas. O Handelsblatt, jornal de economia e finanças, inaugurou uma coluna intitulada “O que Merkel não diz”, onde se admite que as medidas de austeridade não são suficientes para salvar o euro. Os alemães sabem que a chanceler também sabe ser flexível. “Ela pode mudar de posição rapidamente quando a ocasião assim o exige”, diz o cientista político Gerd Langguth, autor da biografia de Merkel. Este mês vai ser votado no Parlamento alemão o Mecanismo Europeu de Estabilidade, um fundo permanente de resgate a que ela já se opôs no passado. Esse será um avanço para quem anseia por “mais Europa”, ou seja, mais poder para Bruxelas (ou melhor para Berlim).

Mas como é que isso se fará? Merkel ainda não convenceu o mundo de que a austeridade pode ter êxito a médio prazo, mas também ninguém provou ter uma alternativa credível. No meio das inúmeras notícias sobre a crise, um facto passou despercebido. Em Junho, a polícia francesa descobriu nos arredores de Paris a segunda maior fábrica de notas de euro falsificadas de todos os tempos. Nos armazéns de uma zona industrial, foram encontrados 9 milhões de euros em notas. Em tempos incertos como este, não deixa de ser um sinal, ainda que estranho, de que a moeda comum ainda inspira confiança. 


Por: André Faust, em Berlim
 
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