Edição nº 28
 

Eventos

Luanda entrou 
na rota da TED

A TED começou em 1984 quando os americanos Richard Wurman e Harry Marks resolveram promover ciclos de palestras nas áreas de tecnologia, entretenimento e design (daí o nome de TED) com o objectivo de “divulgar as grandes ideias”. Nos anos 90, passou a conferência anual, organizada em Monterey, na Califórnia, como uma celebração do espírito inovador de Silicon Valley e uma referência na arte de apresentar conteúdos complexos e inovadores de uma forma curta, interessante, animada e acessível (muitos professores universitários estão a usá-las nas aulas).


Januário JANO: Apresentador e anfitrião, 
o pai da primeira TEDx realizada em Luanda

Em 2001, o jornalista Chris Anderson, na altura o director da revista Business 2.0 (não confundir com o homónimo que dirige a rival Wired), fundou a organização sem fins lucrativos The Sampling Foundation, que comprou a TED. Nascido no Paquistão e educado em Oxford, em Inglaterra, Anderson tornou-a num fenómeno de culto à escala global. Os temas das palestras alargaram-se para praticamente todas as áreas do conhecimento (educação, política, gestão, saúde, bem-estar, religião, gastronomia são apenas alguns exemplos) e os oradores estão entre as mentes mais brilhantes e criativas do planeta. A lista de oradores é infindável e diversificada. Pelos palcos da TED já passaram quase todos os prémios Nobel vivos, os fundadores da Google e da Microsoft, autores da moda como Malcolm Gladwell e Elizabeth Gilbert, cientistas como Jane Goodall e Richard Dawkins, celebridades como o ecologista Al Gore, o músico Bono ou o chef Jamie Olivier e até monges budistas, publicitários ou gurus da autoajuda. Nenhum deles cobra um centavo por palestra que são preparadas exaustivamente (alguns confessaram ter demorado seis meses até chegar à versão ideal). Os fãs dizem que a TED consegue transformar académicos em estrelas do rock, tal o à-vontade em palco. Todos têm, no máximo, 18 minutos para fazer a apresentação. Quando o tema o permite, explora-se o humor, ao estilo de uma stand up comedy.

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Tudo isto só foi possível porque Andersen, em 2006, teve uma ideia radical: oferecer gratuitamente na internet todos os vídeos das palestras (hoje elas também podem ser consultadas nos tablets e telemóveis). Os números são elucidativos. Há mais de mil palestras, vistas por cerca de 500 milhões de pessoas. Hoje, as conferências (cada evento dura cinco dias e reúne cerca de 50 oradores) decorrem em grandes anfiteatros nos Estados Unidos (Long Beach e Palm Springs) e em locais rotativos na Europa e na Ásia. São transmitidas ao vivo em tempo real (life streaming) perante uma animada audiência (celebridades como Cameron Diaz e Meg Ryan podem ver-se na plateia). Mas o maior mérito da TED está no facto de ter tornado o conhecimento acessível de forma gratuita. Várias das universidades mais prestigiadas do mundo, como Harvard, Yale e Stanford, já utilizam estas apresentações nas suas salas de aula.

O sucesso planetário da TED sofreu um segundo impulso quando Anderson criou, em 2009, a “filha” TEDx. Trata-se de um licenciamento da versão original, segundo o qual uma organizadora de eventos, sediada em qualquer parte do mundo, também pode realizar palestras “locais” com o mesmo formato. Desde então, já se realizaram 2038 eventos TEDx, em 107 países, existindo mais de mil agendadas para este ano. É aqui que entra o angolano
A TEDx, nascida em 2009, é um licenciamento da versão original, realizado em 107 cidades, entre as quais Luanda
Januário Jano, de 32 anos. Nascido em Luanda, fez os estudos no Namibe, regressou à capital e daí partiu para Portugal onde viveu apenas sete meses. Encontrou a sua verdadeira vocação em Londres onde se licenciou em Design, com grau de mérito, na prestigiada London Metropolitan University. Por lá, Januário sentiu-se “em casa”. Como sempre gostou de “inovar e fazer coisas novas” envolveu-se em diversos projectos artísticos e trabalhou em vários sítios (desde paginador de revistas a empregado da rede de restaurantes TGI Friday) para suportar as propinas da faculdade. Foi em Londres que criou a Coconote Studio, um estúdio de consultoria de marcas e design, que depois manteve quando, há quatro anos, regressou a Angola. Por aqui tem feito criação de marcas e produção de eventos num pequeno escritório no Bairro Azul onde trabalham mais quatro pessoas.

No final do ano passado, teve a ideia de criar um grande evento que “juntasse cabeças criativas” que esteve para chamar Design Week. Depois lembrou-se que havia a TED, uma plataforma que usava na faculdade e de que sempre foi fã. Assim nasceu a ideia da primeira TEDx, evento que co-organizou com o amigo Pedro Reis, que hoje trabalha na Finlândia, e outros profissionais angolanos em regime de voluntariado. A decisão valeu-lhe a interrupção do mestrado em Design Brand Strategy na faculdade londrina (falta-lhe apenas redigir a tese). É que organizar um evento desta natureza não foi fácil. O primeiro passou foi submeter-se ao “crivo” dos licenciadores. “A TED impõe normas muito rígidas. Temos de fazer uma exposição detalhada do conceito e cumprir diversos requisitos para obter a licença. O formato do evento tem de ser igual ao original em termos, por exemplo, da decoração do espaço, do tipo de oradores, do estilo de apresentações ou do comportamento da audiência. Mas a exigência principal é que seja um evento não comercial. Os oradores passam ideias, não aproveitar a oportunidade para publicitar os locais onde trabalham. Os sponsors também se podem associar à iniciativa, desde que não usem uma abordagem comercial”, explica.

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A “aventura” também obrigou a um grande investimento pessoal. “Fui assistir à conferencia de Palm Springs, nos Estados Unidos e a outra realizada em Doha, no Catar, onde se realizou, em paralelo, uma semana de workshops sobre a marca.” Já em Luanda foi preciso encontrar o espaço adequado (auditório do ENAD), formar a equipa, recrutar os oradores e produzir os materiais de comunicação, que incluíram uma brochura e um site muito apelativos (veja em tedxluanda.com). Tudo isto em apenas seis meses. No final, Januário Jano faz um balanço muito positivo embora reconheça que teve de aplicar grande parte das poupanças no evento. “Tivemos bons apoios, como o do grupo Vernon, mas alguns dos potenciais sponsors só responderam depois do prazo. Creio que para as próximas edições será mais fácil. Muitas empresas só se aperceberam da importância da TEDx no local. Foi lá que verificaram que podem criar os seus próprios eventos dentro do grande evento. Agora já temos três patrocinadores confirmados para o TEDx de 2013”, diz o anfitrião.

A mesma surpresa foi patente nalguns oradores. “Ao aperceberem-se do aparato muitos sentiram um nervoso miudinho antes de entrar em palco. Alguns quase desistiam. A verdade é que eu deveria ter passado mais tempo com eles nos ensaios, mas os seis meses passaram a correr”, lamenta. Não obstante o feedback do público (estavam cerca de 300 pessoas na sala) foi muito positivo. A lista de oradores era interessante e diversificada e o tempo da palestra foi escrupulosamente respeitado. Alguns oradores fizerem prelecções mais sérias (casos dos ligados aos empreendedorismo social); outros adicionaram manifestações artísticas (Cláudio Rafael no audiovisual, Ana Guerra Marques, na dança, Kizua Gourgel na música ou Domingos Sá, na gastronomia); outros apostaram claramente no entretenimento (caso de Yago de Quai). A TEDx Luanda teve também o mérito de colocar em palco um dos oradores mais jovens de sempre da rede (a escritora de livros infantis Déborah Ribas, de apenas 15 anos, cujo charme encantou a plateia). Houve ainda espaço para outros shows nos intervalos das apresentações, brincadeiras com a audiência (os famosos “momentos TED” que incluíram largadas de balões e as já célebres “ondas”) e manifestações artísticas paralelas no exterior do auditório.

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Januário Jano ainda está a apurar as estatísticas das visualizações das apresentações (acessíveis através do site geral da TEDx ou da versão angolana e inclusivamente do YouTube). Sabe, no entanto, que o vídeo de Yago de Quay, que apresentou a inovação tecnológica de um fato (parecia retirado de um filme de ficção científica) que reagia ao som da música. E tem também os números de quem viu a transmissão em life stream (houve quem acompanhasse a emissão em directo do Brasil, Estados Unidos, Portugal, Reino Unido e Austrália).

Para o futuro, o coordenador da TEDx Luanda garante que vai manter a periodicidade anual do evento (“já tenho três oradores confirmados”, adianta) tendo também como meta pessoal o alargamento da organização às províncias. Januário Jano tem como ambição pessoal trabalhar num grande projecto ligado ao branding de Angola e, em particular, das suas cidades. “Gostava de ajudar a promover alguns valores históricos e culturais que entretanto se perderam. Mas também outros mais contemporâneos. Por exemplo, os vendedores ambulantes são personagens únicas que já fazem parte da nossa cultura urbana. Há muito a fazer para projectar a marca Angola em termos turísticos”, diz. Eis um bom tema para uma prelecção no TEDx. Há candidatos?



Por: Jaime Fidalgo
 

Comentários

  1. Ivo Guimarães
    2013-03-26 23:19:06
    óptimo, acho fantástica a ideia e a iniciativa do senhor Marco e do senhor Januario, é mesmo lá a frente......Parabéns, vamos apoiar e participar, Angola agradece

  2. 2013-03-26 23:18:13
    óptimo, acho fantástica a ideia e a iniciativa do senhor Marco e do senhor Januario, é mesmo lá a frente.....
  3. Januario Jose
    2012-08-14 01:28:09
    O ciclo e fenômeno TEDxLuanda que já vai transformando vidas, especialmente a minha de formas a ajudar de certa forma a plurificação do que existe de bom e melhor dentro de uma sociedade jovem e inocente, ainda assim o que estamos a fazer não deve ser visto como show, mas sim uma forma de redefinir os nossos potências e aplica-los positivamente
  4. MARCO TEAMNEURS
    2012-08-13 09:18:19
    Parabéns Equipa TED Angola! Um abraço da Finlândia!
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