Edição nº 28
 

RIO+20

O planeta 20 anos depois

A avaliação da vida na Terra nos últimos 20 anos leva a conclusões aparentemente paradoxais. Tanto é possível argumentar que o mundo se tornou um lugar melhor para se viver como sustentar que piorou. Do ponto de vista social, houve grandes avanços. O PIB per capita aumentou 40%. A participação das mulheres na força de trabalho cresceu 53%. Os anos de escolaridade subiram 48%. Isto num período em que a população mundial aumentou de 5,5 mil milhões para 7 mil milhões de pessoas. Já nos indicadores ambientais, apesar de todos os acordos e protocolos que foram assinados, há poucos motivos para comemorar. Afinal, a temperatura média do planeta subiu 0,5 graus, as emissões de carbono aumentaram 39% e o consumo do petróleo subiu 30%. Para a comunidade científica, o quadro é insustentável.

 É este planeta com imensos desafios que cerca de 50 mil pessoas, de 193 países, analisaram na Rio+20, conferência das Nações Unidas que aconteceu de 20 a 22 de Junho no Rio de Janeiro. Passados 20 anos da Eco 92, o Brasil recebeu novamente um evento de dimensões globais que visa a definição da agenda de sustentabilidade nas próximas décadas.

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A conferência ocorre num momento de inflexão da geoeconomia. Duas décadas depois, novas forças emergiram no mundo. Em 1992, a China era apenas a nona economia global, hoje é a segunda. O Brasil ainda era o país da instabilidade económica e das promessas não cumpridas. Hoje, é um dos mais dinâmicos dos BRIC (que  também inclui a Índia e Rússia). Este quarteto (a par de outros países “emergentes”) deverão continuar a alavancar o crescimento global nos próximos anos.

Este é um ponto positivo. O problema é que hoje a atenção da maior parte dos países está afastada dos temas ligados à sustentabilidade. Se em 1992 a economia global começava a recuperar do surto inflacionário do final dos anos 80, agora não há perspectiva de quando, ou como, a crise que se abate sobre os países ricos, em particular a Europa, se dissipará. “Os países do G8 estão mais preocupados em salvar a sua economia do que o planeta”, diz Marco Fujihara, um conselheiro para assuntos ambientais do Banco Mundial. É essa a razão que explica a falta de empenhamento dos líderes mundiais no encontro deste ano, algo que contrasta com as mensagens positivas e confiantes de 1992.

Pelos cálculos da ONU, a transição para a economia verde exigiria um investimento anual equivalente a 2% do PIB mundial
A RIO+20 gravitou em torno de dois grandes temas: a estrutura de governança global para o desenvolvimento sustentável; e a economia verde. O primeiro tema trata da necessidade de instrumentos que viabilizem a transição dos países para o desenvolvimento sustentável. A crítica recorrente é que os diversos acordos e tratados são de difícil cumprimento sem um quadro institucional claro. Por isso, havia a proposta para a criação de uma agência internacional nos mesmos moldes da Organização Mundial do Comércio, que estabelece regras globais para as trocas comerciais e resolve disputas entre países. Outra proposta sobre a mesa é transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente num órgão independente. Ambas falharam redondamente.

Economia verde: o conceito da moda

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Apesar da questão institucional entusiasmar o debate entre os diplomatas, a economia verde acabou por ser a estrela do evento. O conceito ainda está em construção. Para a ONU, trata-se da promoção da melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, com a redução dos riscos ambientais. Dito de outra forma, o desenvolvimento da economia verde promoveria a exploração eficiente dos recursos naturais, menor uso de carbono e maior inclusão social. O tema foi escolhido para marcar um certo distanciamento do foco ambientalista da Eco 92. A seu favor há uma profusão de estudos. Um da Organização Internacional do Trabalho estima que a economia verde poderia gerar 60 milhões de empregos na próxima década caso os governos incentivassem novas tecnologias ambientais e apoiassem sectores como o das energias renováveis. Calcula-se que 5 milhões de postos de trabalho tenham sido criados apenas no sector de energia renovável entre 2006 e 2010. Na Europa, cerca de 15 milhões de pessoas já trabalham com a protecção da biodiversidade. Nos Estados Unidos, 3 milhões de empregos estão ligados ao sector.

A Coreia do Sul investiu 38 mil milhões de dólares no apoio a projectos. Mas exigiu que 80%  fossem para a economia verde de bens e serviços ambientais.
Pelos cálculos da ONU, a transição para a economia verde exigiria um investimento anual equivalente a 2% do PIB mundial — cerca de 1,3 biliões de dólares — até 2050, algo que, numa época de crise, parece ser uma meta irreal. Por isso, muitos acreditam que a pressão sobre a iniciativa privada vai aumentar. “O sector privado produz quase tudo o que consumimos. Gera 60% do PIB e do emprego. A transição para a economia verde exige um novo modelo”, diz o economista indiano Pavan Sukhdev, conselheiro das Nações Unidas para a iniciativa da economia verde.

Qualidade de vida nas grandes cidades

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New Songdo, na Coreia do Sul: A cidade para 250 mil pessoas está a ser construída seguindo rígidos padrões de sustentabilidade
Parte da discussão sobre um modelo global de economia verde é relativa à qualidade de vida nas cidades, onde já mora metade da população mundial. Em 2030, estima-se que cerca de oito em cada dez pessoas estarão a viver em zonas urbanas. Portland, nos Estados Unidos, Malmo, na Suécia, e Curitiba, no Brasil, costumam ser citadas como exemplos de cidades que desenvolveram sistemas de eficiência energética e de mobilidade urbana mais sustentáveis. Há novas cidades na Ásia, porém, que já foram construídas de raiz com o propósito de oferecer qualidade de vida e ambiental.

O melhor exemplo é o da coreana New Songdo. A sua edificação começou em 2009 e hoje já é considerada o maior empreendimento privado urbano do mundo. Projectada para receber 250 mil pessoas, a cidade tem como principal objectivo a produção do menor passivo ambiental possível — a madeira utilizada na construção tem de ser reciclada, os prédios comerciais e residenciais adoptam sistema de eficiência energética e a água tem de ser reaproveitada. Não é por acaso que New Songdo nasce num país em que a economia verde passou a ser perseguida como uma meta de desenvolvimento social e económico.

Desde que assumiu a liderança do governo da Coreia do Sul, em 2008, o Presidente Lee Myung-bak estabeleceu metas ambiciosas para a sustentabilidade, tais como reduzir de 81% para 61% a participação de fontes fósseis na matriz energética do país até 2030.

Painéis solares: O modelo de economia 
verde inclui a expansão do uso de energias renováveis

Durante a crise financeira, a Coreia do Sul criou um pacote de estímulos económicos no valor de 38 mil milhões de dólares, mas anexou 80% dos investimentos a projectos voltados para a economia verde, o chamado Green New Deal. A iniciativa mais importante está quase concluída. Trata-se da recuperação dos quatro maiores rios do país, para a qual foram destinados 18 mil milhões de dólares. 

A experiência coreana pode parecer uma extravagância, mas está a ser usada na comunidade científica como uma prova de que a transição para a economia verde é possível, mesmo em alturas de crise. Mas os chefes do Estado presentes na Rio+20 parecem não ter aprendido essa lição.



Por: Fabiane Stefano, no Rio de Janeiro
 
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