Mercado Capitais
A história do mercado de capitais em Angola tem sido atribulada. Desde 2006 que a criação de uma Bolsa tem vindo a ser anunciada sucessivamente para “muito breve”. O antigo coordenador da comissão instaladora da futura Bolsa, António da Cruz Lima, chegou a afirmar à imprensa que seria a terceira maior de África com uma capitalização de 36 mil milhões de dólares.
Archer Mangueira: Presidente da Comissão do Mercado de Capitais com um grande desafio
Confirmou também que já teria havido um número inicial de subscritores (empresas públicas e privadas angolanas caso da Sonangol, Endiama, Ensa, BPC, BIC, BFA, BAI, grupo António Mosquito, Sistec e Chicoil) que investiram 7,7 milhões de dólares na constituição da Bolsa. Esta funcionaria num edifício, com a fachada em vidro, localizado na Rua Rainha Ginga, no coração de Luanda — um espaço, que ostentava orgulhosamente o nome de Bolsa de Valores e Derivativos de Angola, hoje tapado.
Em 2011, o processo voltou à estaca zero com a admissão pública, por parte de Carlos Feijó, na altura ministro de Estado, que Angola ainda não estava preparada para ter um mercado de capitais a funcionar em pleno. No início desse ano, foi nomeada uma comissão de reestruturação e gestão da Comissão do Mercado de Capitais (CMC), coordenada pela secretária de Estado das Finanças, Valentina Matias de Sousa Filipe. No início de 2012, o processo sofreu um derradeiro desenvolvimento com a nomeação de Archer Mangueira (veja entrevista), até então vice-ministro do Comércio, para liderar a CMC.
Desde que tomou posse, a equipa de Archer Mangueira não tem tido uma vida fácil. O legado de “falsas partidas” e a pressão do mercado obrigam à tomada urgente de decisões. Só que a equipa ainda se está a instalar. Os primeiros dois meses de trabalho foram passados provisoriamente na sede do BPC. Nos últimos dois meses, a equipa transitou para o 5.º andar da sede do BCI. O espaço é mais agradável, cheio de luminosidade natural. O exíguo hall de entrada, onde está a recepcionista, termina com uma parede envidraçada que ostenta o logótipo da CMC. Depois todos os gabinetes virados para a marginal têm vidros de correr que deixam entrar a luz do Sol e revelam uma vista magnífica sobre a baía de Luanda. As paredes também estão pintadas de branco, o que acentua o ar tranquilo do espaço e fazem realçar os quadros de pintores angolanos e algumas esculturas. O mobiliário é moderno, mas a decoração é quase minimalista. Percebe-se que são “inquilinos” recentes. Mas a razão mais importante para essa decoração “espartana” é que esta ainda não é a morada definitiva da CMC. “Estamos a conversar com o Executivo de modo a encontrar um espaço em Luanda que possa ser considerado de referência para o mercado financeiro angolano”. Recorde-se que hoje a sua equipa tem 50 pessoas, “um número que tenderá a crescer, à medida que as iniciativas forem sendo concretizadas”.
- Definição do plano estratégico para o mercado de capitais até 2017.
- Definição do quadro normativo para os fundos de investimento.
- Arranque do mercado de dívida pública.
- Arranque do mercado de dívida corporativa.
- Arranque do mercado accionista.
- Arranque do mercado de futuros.
Entrados no gabinete de Archer Mangueira deparamos com uma pilha de livros sobre economia e clássicos de mercados de capitais. Percebe-se que o novo responsável da CMC anda a fazer o trabalho de casa. “Nesta primeira fase pediram-nos, sobretudo, que aprofundássemos os estudos sobre o novo mercado. Quer sobre o que já foi feito quer, principalmente, sobre o que queremos fazer nos próximos cinco anos.” A estratégia a seguir, no entanto, já é clara. “Teve como base as orientações do titular do Executivo e as recomendações do Conselho de Ministros relativas aos segmentos a dar prioridade no âmbito da institucionalização do mercado de capitais no nosso país”, salienta Archer Mangueira.
A calendarização das prioridades demonstra uma ruptura com a visão do antecessor de Archer Mangueira que dava primazia à inauguração da Bolsa. “Esta visão parece bem mais realista e prudente. Começar pela Bolsa seria como que iniciar a construção de uma casa pelo telhado”, confidenciou-nos um especialista em mercado de capitais que preferiu manter o anonimato. Percebe-se as reservas que o assunto merece por parte de quem trabalha no mercado. Em primeiro lugar, porque Angola é dos poucos países africanos que ainda não tem um mercado de valores mobiliários activo, algo que é um forte revês para a imagem de um país moderno, com um sistema financeiro sofisticado, que o Executivo e o Banco Nacional de Angola (BNA) têm procurado transmitir — ainda recentemente em conversa informal com os líderes da missão do FMI, que visitou Angola, eles confessaram à EXAME a sua surpresa pela qualidade dos técnicos com quem interagiram. “Dos melhores que há em África e ao nível dos melhores do mundo”, confidenciaram. Em segundo lugar, porque a data de abertura da Bolsa chegou a ser várias vezes anunciada e depois adiada, fazendo com que o tema se tornasse quase um tabu.
Por outro lado, os analistas contactados pela EXAME reconhecem que Angola ainda não está preparada para ter uma Bolsa a funcionar em pleno. Sobretudo porque faltam empresas em número suficiente para dar dimensão ao mercado. Depois, porque muitas delas ainda apresentam debilidades na prestação regular de contas, uma condição indispensável para a admissão à cotação (basta referir que cerca de metade das empresas públicas nem sequer apresentou as contas de 2009 e 2010 — veja EXAME n.º 27).
Archer Mangueira alude ao assunto de forma politicamente correcta, “não queremos criar uma Bolsa só por criar, só para dizer que temos uma. Mesmo em África, sabemos que só a Bolsa de Joanesburgo tem uma dimensão e uma liquidez ao nível dos standarts internacionais. Temos participado em missões junto de mercados de países amigos e pudemos constatar que muitas delas têm enormes carências. Não é isso que queremos para a nossa Bolsa”. Acrescenta que esta estratégia faseada de abertura, por pequenos passos, tem também a virtude da aprendizagem. “É uma forma de se ir testando o mercado de modo a que tudo funcione na perfeição quando chegarmos à fase derradeira da abertura da Bolsa. Por outro lado, também damos um pouco mais de tempo às empresas para se prepararem para as exigências de uma admissão à cotação”, justifica.
Dentro dessa estratégia de abertura gradual, o primeiro mercado a estrear será o da dívida pública. Archer Mangueira alerta, porém, que o mercado já funciona, só que é restrito ao mercado interbancário (entre o BNA e os bancos). “A ideia é que o mercado de dívida pública, que até agora tem servido sobretudo para financiar o Orçamento Geral do Estado, seja um instrumento de estabilidade das finanças públicas a médio e a longo prazos. O objectivo será dar prioridade às emissões com um prazo mais alargado, por exemplo, as obrigações do Tesouro com prazos de maturidade acima dos cinco anos.” Para já, este tipo de operações serão feitas entre investidores nacionais, mas no futuro poderão ser alargadas aos internacionais, algo que implicará adaptações da legislação cambial, nomeadamente no que diz respeito à repatriação de dividendos. “O facto do nível de risco de Angola já estar a ser avaliado positivamente pelas principais agências internacionais de rating é uma vantagem, caso o Governo tenha interesse em colocar emissões de dívida pública nos mercados internacionais”, reconhece Archer Mangueira, questionado pela EXAME sobre o assunto.
O segundo mercado a abrir será o da dívida corporativa (obrigações de empresas públicas ou privadas). “É uma alternativa de financiamento menos onerosa para as empresas do que o recurso ao crédito bancário, por exemplo”. Uma das vantagens, segundo Archer Mangueira, é que a infra-estrutura tecnológica a criar (a central de negociação de títulos) servirá em simultâneo o mercado da dívida pública. “A criação e gestão dessa central deverá ser assumida por uma associação de operadores privados tal como hoje sucede com a entidade que gere os terminais Multicaixa, por exemplo”, esclarece. O responsável diz que já estão a decorrer contactos com potenciais fornecedores de equipamentos para a central, estando por decidir se se tratará apenas de um investimento privado ou misto (com capitais públicos). Recorde-se a este propósito que a anterior comissão de instalação da Bolsa já havia adquirido uma plataforma tecnológica, pensada para um sistema de negociação em contínuo, para um volume de transacções na ordem dos 30 milhões de dólares por dia (um montante demasiado elevado para a actual fase embrionária do mercado). “Temos uma equipa interna a analisar se é preferível adaptar essa plataforma às novas necessidades, suportando o respectivo custo, ou se é preferível partir para uma nova solução”, afirma.
Falta falar da terceira prioridade: a regulamentação e posterior entrada em funcionamento dos fundos de investimento. Para os menos familiarizados trata-se de um instrumento financeiro onde os aforradores adquirem quotas (ou unidades de participação) num fundo comum, gerido por profissionais. É uma alternativa prudente e cada vez mais popular em todo o mundo entre os pequenos investidores, se comparada com o investimento directo e individual em acções. “Os fundos são um mecanismo adequado para diversificar o risco e para massificar o investimento em mercado de capitais junto dos pequenos aforradores”, diz Archer Mangueira. De facto, hoje, a nível internacional existem fundos de investimento para todos os gostos e carteiras. Desde os mais conservadores que investem em títulos sem risco (obrigações do Tesouro), aos especializados na compra de acções, ou os fundos imobiliários, isto para dar apenas exemplos dos fundos mais comuns. É que em países como os Estados Unidos existem inúmeras outras alternativas de fundos, alguns até algo bizarros, tais como os designados “verdes” ou ligados a “boas causas” (que apenas investem em empresas com uma atitude socialmente e ambientalmente responsáveis) ou os relacionados com “paixões” (aplicam em automóveis de luxo, vinhos, moedas raras ou outros artigos de coleccionadores).
Depois de terem sido dados todos estes passos, chegará então a vez da ansiada Bolsa. Como já foi referido, o principal desafio estará no lado da oferta. “O mercado tem de dar garantias de confiança e segurança. Isso implica a existência de contabilidade organizada por parte das empresas, auditadas por fontes independentes e maior transparência de informação. Outra questão relacionada é a banalização das sociedades anónimas, de capital aberto, uma figura jurídica que já existe no actual quadro normativo, mas que ainda não está culturalmente disseminada.” Especialmente importante será também actuar do lado da procura, promovendo a literacia financeira e a cultura do investimento junto das populações. Esta é uma tarefa que a CMC pretende levar especialmente a sério. “Queremos cooperar com as universidades e também com a imprensa de forma a promover a literacia financeira. Estamos a ultimar um protocolo nesse sentido com a Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto que inclui o apoio a programas de especialização e mestrados em Finanças e Mercado de Capitais”, revela. Está igualmente em curso a reformulação do site da CMC e a aposta em acções de sensibilização dirigidas ao grande público.
Augusto Archer de Sousa Mangueira - Presidente
Patrício Bicudo Vilar - Administrador Executivo
Mário Edison Gourgel Gavião - Administrador Executivo
Mário Eglicénio Baptista Ferreira do Nascimento - Administrador Executivo
Vera Esperança dos Santos Daves - Administradora Executiva
Pedro Sérgio Costa Pitta Groz - Assessor do pca
Para já, a equipa de Archer Mangueira tem procurado aprender com a experiência de outros países. “Estivemos em Cabo Verde, em Maio. E este mês temos agendada a visita à Bolsa de Joanesburgo. Acreditamos que a integração dos mercados financeiros em África será uma realidade.” No âmbito da SADC — Comunidade de Desenvolvimento da África Austral —, Archer Mangueira considera que a Tanzânia e as Maurícias têm mercados interessantes e a Etiópia é forte no das commodities. Quanto ao modelo da futura Bolsa, Archer Mangueira recorda que há a possibilidade de se fazerem parcerias com outras praças, nomeadamente africanas, sendo que o seu funcionamento seria precedido de uma fase de negociação ao balcão (over-the-counter), à semelhança do que acontece no mercado Nasdaq, nos Estados Unidos. Para o mercado de futuros, Archer Mangueira informou sobre a possibilidade de replicar uma experiência internacional do tipo Bolsa de Mercadorias de Chicago. “Esta opção teria a vantagem de beneficiarmos desse capital de experiência e know-how.”
Esta é uma das justificações porque o executivo resolveu começar já este ano pelo mercado da dívida, deixando o arranque do mercado accionista para 2016. Conheça a visão do presidente da Comissão do Mercado de Capitais, na primeira entrevista de fundo aos órgãos de comunicação social desde a tomada de posse
Fez ainda estudos de pós-graduação em Gestão Macroeconómica na Universidade Complutense de Madrid, cujo trabalho final foi subordinado ao tema “Modelos quantitativos de equilíbrios económicos”. Fruto dessa experiência internacional, Archer Mangueira é hoje fluente em quatro línguas: português, alemão, espanhol e inglês. Como se pode ler nesta entrevista exclusiva, a primeira desde que tomou posse, o presidente da Comissão do Mercado de Capitais também domina outra língua: a do jargão associado aos mercados de valores mobiliários, repleto de termos anglófonos. Nesta conversa, porém, procurou desmistificar os tabus em torno do futuro do mercado de capitais.
Temos pela frente um longo e esforçado caminho rumo ao desenvolvimento. Contamos com uma natureza generosa: subsolos extremamente ricos (onshore e offshore); vastas extensões de terra fértil, talvez a última que resta por aproveitar neste planeta. Depois há a água, escassa nas economias vizinhas e por cá abundante e o mar rico em pescado e nutrientes. Há ainda a população que será predominantemente jovem por muito mais gerações. Num mundo cada vez mais multipolar, Angola é o pilar natural de um dos pólos geoestratégicos em formação: o Atlântico Sul. Os desafios são transformar todo este potencial em riqueza e bem-estar; fazer com que a explosão populacional seja o “dividendo demográfico” que estimula o crescimento — e não o obstáculo que bloqueia o desenvolvimento — e tornar a “atracção pela cidade” num motor mais do progresso, em vez de ser causa maior de tensões sociais. Mas são os capitais que dinamizam o mercado de trabalho. Logo, gerar endogenamente capitais, captá-los, reuni-los em volumes adequados e mobilizá-los para a valorização do território e das suas gentes é o caminho mais seguro para o desenvolvimento.
Saliento três maneiras. Através do Estado, quando cobra impostos e emite dívida para lançar as infra-estruturas, organizar os mercados e investir em sectores produtivos que considere estruturantes. Através dos bancos, quando se financiam internamente e no exterior para, por sua vez, financiarem, tanto a actividade económica corrente como os projectos de investimento. E através do mercado de valores mobiliários, quando põe a iniciativa empresarial em contacto directo com quem possui capitais disponíveis para investir. A intermediação fiscal, a bancária e o mercado de valores mobiliários são três maneiras alternativas e complementares de mobilizar capitais para o processo de desenvolvimento.
Os bancos sabem que manter o equilíbrio entre activos expostos a riscos e passivos a pagar à vista, exige uma estrutura complexa cujo custo terá de ser repercutido no “preço do dinheiro”. Porém, a intermediação bancária é insuperável quando se trata de financiar as PME e outros agentes económicos menos capazes de preparar informação financeira com o detalhe e a frequência que os investidores exigem. O maior trunfo dos bancos é a relação de proximidade com as entidades que financiam.
A intermediação bancária expõe o sistema de pagamentos aos riscos financeiros, e isso coloca problemas que não podem ser ignorados. Desde logo, a necessidade dos bancos possuírem capitais próprios adequados aos riscos que se acumulem nos balanços — para que as perdas prováveis não prejudiquem o sistema de pagamentos e, consequentemente, o próprio processo de desenvolvimento. Depois, porque o nível de capitalização dos bancos não depende de nenhuma medida de política monetária, apenas da vontade dos accionistas. Outra razão é que eles levam os bancos centrais a ter de manter facilidades de liquidez. Por fim, porque perante um episódio de risco sistémico, os bancos centrais terão fatalmente de optar entre a estabilidade do sistema bancário e a preservação dos equilíbrios macroeconómicos. É impossível defender ambas, simultaneamente.
Tais perigos não existem no mercado de valores mobiliários?O mercado de valores mobiliários, ao tornar possível que os capitais fluam directamente dos investidores para os emitentes, ou entre investidores, não tem custos de intermediação. Mas também tem custos operacionais que importa levar em linha de conta. Tal como a intermediação fiscal, o mercado de valores mobiliários é também acentuadamente pró-cíclico. Mas dela se afasta na exacta medida em que é movido, unicamente, pela iniciativa dos emitentes e pela atitude dos investidores face ao risco – todos eles a negociar de acordo com regras bem estabelecidas. E é deste livre jogo de vontades que resulta a disciplina do mercado. Contrariamente à intermediação bancária, um mercado de valores mobiliários bem organizado dispersa os riscos financeiros pelos investidores; oferece uma multiplicidade de soluções de cobertura para os riscos de crédito e de mercado; e, mais importante do que tudo, deixa intacto o sistema de pagamentos, não sendo causa de risco sistémico. Importa contrariar uma ideia muito difundida, mas errada — o mercado de valores mobiliários é feito, não pelos emitentes, mas, sim, pelos investidores.
Parece razoável admitir que, excepção feita à dívida pública, a economia angolana, nestes primeiros tempos, não vai gerar tantas emissões assim de valores mobiliários que satisfaçam dois critérios: proporcionarem uma visão clara dos riscos a que fica exposto quem neles investir – e, nessa medida, serem atractivos para os investidores – e serem em número e dimensão suficientes para permitir que os investidores interessados possam formar carteiras diversificadas. Dito de outro modo, vai demorar algum tempo até que a dinâmica da economia angolana faça surgir um número significativo de emitentes e de emissões capazes de satisfazer as exigências dos investidores institucionais ou particulares. Também não é de crer que surjam, logo, investidores particulares que proporcionem ao mercado movimento, liquidez e profundidade bastantes.
A estratégia concebida pela CMC assenta em três pilares. O primeiro, é organizar mercados de balcão regulamentados, para assegurar a liquidez dos valores mobiliários admitidos à negociação. O segundo, é desenhar um quadro normativo próprio para os fundos de investimento e outras entidades de investimento colectivo, a fim de colocar ao alcance de todos os aforradores a possibilidade de investirem e desinvestirem com custos comportáveis. O terceiro, é dotar o mercado de valores mobiliários, logo de início, com infra-estruturas (institucionais e tecnológicas) eficientes.
A explicação resume-se a uma simples palavra: liquidez. Sem liquidez não há investidores, sem investidores não há mercado secundário – e, sem mercado secundário, o mercado primário, se chegar a acontecer, não terá como proporcionar a quem emite um custo de capital competitivo. É a falta de liquidez, a par com as falhas técnicas e de supervisão, que afasta os aforradores e condena os mercados à irrelevância e insucesso.
Os mercados de balcão regulamentados arrancarão pela seguinte ordem: primeiro, o mercado da dívida pública; seguidamente, o mercado da dívida corporativa; pouco depois, o mercado das acções e de outros instrumentos financeiros equivalentes.
É importante para a estruturação dos mercados financeiros que o mercado da dívida pública titularizada proporcione referências claras para as decisões de investimento e para a orientação da política económica. Referências que se condensam na curva de rendimentos, que reflecte o rendimento efectivo dos títulos até à maturidade ou vencimento. É por isto que o arranque do mercado da dívida pública deve preceder o de todos os restantes mercados.
O mercado da dívida pública é confrontado com três interesses que merecem ser reconciliados: o Tesouro, que pretende colocar as emissões de dívida pública titularizada (DPT) com um custo de capital o mais baixo possível; o BNA, que tem de conjugar as medidas de política monetária com a estabilidade do sistema bancário e com o equilíbrio externo; e os operadores bancários, que pretendem obter o maior retorno possível dos investimentos que façam em DPT. Ou seja, quanto mais altas forem as yields dos títulos — e os preços mais baixos —, melhor. O desenvolvimento de um mercado regulamentado da DPT, com boas regras, boa infra-estrutura institucional e boa infra-estrutura tecnológica, tem como objectivo conciliar os interesses conflitantes dessas partes.
Como em qualquer outro mercado de balcão regulamentado, o mercado da dívida pública será composto por um mercado primário de acesso reservado a operadores especializados, que assumem a obrigação de manter a liquidez do respectivo mercado secundário. Terá ainda um segmento do mercado secundário, no qual só os operadores especializados e outras instituições financeiras participam, sendo aí que as cotações, consoante as ordens de compra e venda, são formadas. Por fim, há um segundo segmento do mercado secundário, onde terão lugar as transacções ditas “de balcão” (ou “de retalho”) entre os operadores da dívida pública (os operadores especializados e as restantes instituições financeiras) e os investidores, em geral.
O mercado da dívida corporativa e o mercado das acções seguirão um modelo muito semelhante: a condição para que uma emissão de valores mobiliários (obrigações, acções, quotas de fundos de investimento) seja admitida à negociação é que disponha de, pelo menos, um promotor de mercado (market maker) que lhe assegure a liquidez, dentro de limites razoavelmente amplos.
Os contratos de futuros terão de ser fatalmente negociados numa Bolsa dotada de contraparte central. Primeiro surgirão os contratos de futuros financeiros, que estarão à disposição dos bancos e de outras instituições financeiras para a cobertura do risco cambial e do risco de taxa de juro. Os contratos de futuros sobre mercadorias surgirão depois logo que a realidade no terreno permita a liquidação física.
O célebre projecto sediado no Waku Kungo “renasceu” em Outubro de 2012 e já é o maior produtor de ovos