Edição nº 29
 

Mercado Capitais

O mapa africano das bolsas

Publicado a 15-08-2012 11:32:00
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A primeira Bolsa conhecida remota ao princípio do século xvi e foi instituída em Amesterdão pela Companhia Holandesa das Índias Orientais, que ficou na história como sendo a primeira instituição a emitir acções e obrigações. Hoje, cinco séculos depois, há mais de uma centena de Bolsas espalhadas pelo globo e quase 50 mil empresas cotadas.  Os Estados Unidos albergam as duas maiores Bolsas mundiais, a mítica Wall Street NYSE (New York Stock Exchange) e a Nasdaq (mais focada nas empresas de base tecnológica), sediadas em Nova Iorque. Ambas lideram duas mega-alianças que cruzam o Atlântico. A maior é a rede NYSE Euronext que resultou da fusão acordada em 2007 entre a norte-americana NYSE e a europeia Euronext, sediada em Amesterdão que inclui as Bolsas da Bélgica, França, Holanda e Portugal. A segunda Bolsa global é o Nasdaq OMX (esta última agrupa na Europa algumas Bolsas dos países nórdicos e bálticos). Seguem-se as Bolsas japonesa, londrina e duas chinesas (Xangai e Hong-Kong).

Em África, contam-se 29 praças financeiras, representativas de 38 países que albergam mais de 1200 empresas. Além das tradicionais Bolsas nacionais há também lugar para duas Bolsas de valores regionais. A mais antiga, nascida em 1998, é a Bourse Régionale des Valeurs Mobiliéres (BRVM), localizada em Abidjan, capital da Costa do Marfim. A BRVM agrega empresas do Benin, Burkina Faso, Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal e Togo. Apresenta uma capitalização bolsista de 7,67 mil milhões de dólares e uma liquidez muito reduzida. Em 2003, nasceu a Bourse des Valeurs Mobilières d’Afrique Centrale (BVMAC), com sede em Libreville, no Gabão, e que serve os países da República Centro Africana, Chade, Guiné Equatorial, República Democrática do Congo e Gabão. O ano passado correu mal a esta Bolsa, estando em estudo uma eventual fusão com a praça de Douala, nos Camarões.

As duas maiores bolsas do mundo, a nyse euronext e a nasdaq omx, resultam de fusões entre praças americanas e europeias
A mais antiga do continente é a do Egipto (hoje reúne as praças do Cairo e de Alexandria) fundada em 1883 e que chegou a ser uma das mais importantes do mundo. Cinco anos depois, nasceu a praça de Joanesburgo que lidera claramente o ranking africano, quer ao nível das transacções quer da capitalização bolsista (é a 17.ª maior do mundo). A Bolsa sul-africana (JSE) possui uma outra praça (chamada Alternative Exchange) dedicada às empresas de pequena e de média dimensões. Os seus responsáveis não escondem a intenção de criar um mercado pan-africano que, numa primeira fase, poderá incluir as praças da Namíbia (que já é parceira da JSE e a segunda maior do continente), Gana, Zimbabué e Zâmbia. Entre as mais antigas está igualmente a praça de Casablanca (Marrocos) fundada em 1929 e que hoje é a quarta de África. A terceira é a da Nigéria que além da praça de Lagos possui uma Bolsa de commodities (matérias-primas) em Abuja (existem mais duas de commodities na Etiópia e na Zâmbia).

Continente com cotação em alta

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De um modo geral, as Bolsas africanas estão a crescer e a tirar partido da expansão económica do continente. Segundo rezam as estatísticas da Bloomberg, nos últimos cinco anos, as acções africanas registaram ganhos médios acumulados de 21%. Trata-se de um desempenho superior ao oferecido pelas acções mundiais que, no mesmo período, acumulam perdas médias superiores a 18%. “Muitos desconhecem que África já é o segundo mercado mais dinâmico em termos de crescimento económico, logo a seguir à Ásia”, refere Jens Schleuniger, gestor do fundo de investimento DWS Invest Africa. O gestor, que tem sob a sua liderança uma carteira equivalente a 246 milhões de dólares aplicados maioritariamente em títulos de empresas cotadas em Bolsas africanas, acrescentou à agência Reuters que “o potencial de África ainda é maior do que o da própria China, pois as acções das empresas africanas estão significativamente subavaliadas”.

Bruno Santos, responsável pela gestão de 13 milhões de dólares do fundo de investimento ES África, também não tem dúvidas sobre a quantidade de opções que a região tem para oferecer aos investidores. O especialista, que tem como principais investimentos as participações nos bancos Guaranty Trust Bank e Zenith Bank, da Gâmbia, destaca que “as matérias-primas no subsolo africano são um factor crítico para a afirmação do continente como uma região-chave no contexto económico actual”.

A praça de Joanesburgo é responsável por 65% de capaitalização das bolsas africanas. Mas a do Egipto é a que tem mais empresas
As Bolsas africanas padecem, no entanto, de um problema. A falta de liquidez é a grande barreira à entrada de mais investidores internacionais. “O facto de a liquidez ser reduzida em muitos mercados, acaba por ser uma condicionante para a gestão e implica que o maior investimento seja em países como a África do Sul e o Egipto, que são as duas Bolsas mais líquidas”, refere à EXAME Teresa Pinto Coelho, gestora do fundo de acções africanas BPI África. A Bolsa de Moçambique é um dos exemplos dessa realidade. Localizada na capital do país, em Maputo, as sessões normais de Bolsa iniciam-se às 9 horas e encerram às 12 e são realizadas somente às terças, quintas e sextas-feiras. O mesmo sucede com a Bolsa de valores sudanesa, com sede na capital, em Cartum, e que apenas está aberta uma hora por dia, de domingo a quinta-feira. Além disso, como a religião predominante no Sudão é o islamismo sunita, a Bolsa funciona segundo os princípios da Charia islâmica que passam, por exemplo, pelo encorajamento da poupança em detrimento do investimento.

A união das Bolsas faz a força

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O problema da falta de liquidez poderia ser resolvido se houvesse mais integração entre as Bolsas africanas. Essa é aliás a tendência global. O primeiro episódio de “fusões e aquisições” no sector ocorreu em Maio de 2006 com a referida união da principal Bolsa nova-iorquina com pan-europeia Euronext. Este negócio teve como resultado o nascimento da gigante NYSE Euronext, “dona” de mais de um terço da capitalização bolsista mundial através da exploração de seis mercados accionistas e de cinco praças de produtos derivados espalhados pela Europa, Estados Unidos e Singapura. A fusão foi amplamente proveitosa por duas razões: por um lado, o leque de investidores aumentou consideravelmente em todas as praças, pois a facilidade de negociar em Nova Iorque, Paris ou em qualquer outra Bolsa do grupo NYSE Euronext passou a ser a mesma; por outro, a fusão fez com que a liquidez também passasse a ser maior, possibilitando maior liberdade de escolha a investidores e empresários nas suas operações.

Outras grandes fusões sucederam em 2007. Em Março, a americana Nasdaq uniu-se aos suecos e finlandeses da OMX. No final do ano, o grupo comprou as praças de Boston e de Filadélfia, nos Estados Unidos. Ficou por realizar outra megafusão com a praça de Londres.  Nesse ano, a Chicago Mercantile Exchange fundiu-se com a “vizinha” Chicago Board of Trade, criando assim a maior praça financeira de commodities do mundo.

Para as Bolsas africanas, sobretudo as de menor dimensão, dificilmente uma estratégia de crescimento que não seja focada num processo de fusão terá sucesso. É que o dinheiro movimentado diariamente em Bolsa chega a ser equivalente à riqueza que muitos países produzem durante um ano inteiro (o volume de transacções da praça de Joanesburgo chega aos 210% do PIB do país).Só que, inexplicavelmente, qualquer discussão que vise uma estratégia de união de Bolsas na África Austral permanece sem ver a luz do dia. Apesar de há mais de dez anos existir um Comité das Bolsas de Valores da SADC (CoSSE), que agrega dez praças financeiras da África Austral, nada sobre esta matéria tem sido discutido. Para se ter uma ideia da relevância deste assunto, basta pensar que em África existem 29 praças financeiras que, em conjunto, agregam uma capitalização bolsista de 1,3 biliões de dólares — só a Bolsa de Joanesburgo é responsável por 65% desse montante. Recentemente, os membros do CoSSE reuniram-se no Botswana. O que investidores e os empresários esperavam é que a criação de uma Bolsa regional forte estivesse no topo da agenda da reunião. No final, porém, apenas se discutiram assuntos burocráticos.


Comité das bolsas de valores da SADC, que agrupa dez bolsas da áfrica austral, continua sem dar seguimento ao plano de fusão
Angola está fora desta discussão, dado que a abertura da Bolsa de Valores e Derivativos de Angola (BVDA) tem sido sistematicamente adiada. Mas agora que o avanço do mercado de capitais parece irreversível (veja artigo anterior), a equipa de Archer Mangueira poderá recolher valiosas lições das experiências já realizadas no continente. Independentemente do modelo escolhido (nomeadamente quanto à eventual integração numa rede africana ou global), a expectativa dos investidores permanece elevada. Em primeiro lugar, porque a economia nacional tem crescido a um ritmo médio de 11% por ano e porque as últimas previsões do Banco Mundial mostram que Angola estará entre as quatro nações da África Subsariana que mais crescerão até 2014 (os economias do organismo internacional projectam um crescimento médio do PIB de 7,43% neste período). Em segundo lugar, porque da América à Europa passando pela Ásia, os investidores andam à procura de alternativas credíveis à crise da Europa e à falta de confiança no crescimento dos Estados Unidos. O tempo, ao que parece, continua a jogar a favor de Angola. Resta esperar que, em 2016, o país entre definitivamente no mapa das Bolsas africanas.


Como funcionam as Bolsas de Valores

Acções, obrigações, matérias-primas, opções e futuros são as personagens do quotidiano de uma Bolsa de valores. Por dia, estes activos financeiros trocam de mãos vezes sem conta e geram um volume de negócio astronómico. Só a Bolsa de Nova Iorque, a maior e mais influente praça dos Estados Unidos, transacciona, em média, mais de 100 mil milhões de dólares todos os dias, um valor superior à riqueza gerada por mais de dois terços dos países de todo o mundo num ano inteiro.

No passado, as ordens de Bolsa eram executadas de viva voz, presencialmente e transaccionadas em papel. Hoje, uma transacção bolsista é realizada por via de sistemas electrónicos sofisticados que se encarregam de “casar” as ordens de compra com as de venda. O processo é simples e ocorre em menos de cinco segundos. Tudo começa com a intenção distinta de duas partes: alguém que quer comprar um lote de acções de uma empresa (comprador) e outra pessoa que deseja vender acções da mesma companhia (vendedor). Os investidores transmitem aos corretores (brokers), por telefone ou internet, o desejo de comprar ou vender um determinado título. O broker recorre aos serviços do corretor com quem trabalha (trader). Este transmite os preços fixados pelos investidores para o sistema informático da Bolsa para que venham a ser cruzados na plataforma de trading. Quando existe coincidência entre o preço de compra (bid) e o de venda (ask), o negócio é concretizado e as acções trocam de dono.

Quanto a custos, os investidores devem ter em atenção que cada ordem de compra e venda acarreta uma comissão de negociação, já para não falar na comissão de guarda de títulos, que será cobrada pela corretora, ou pelo banco, onde as acções estarão guardadas.

A melhor maneira dos investidores se aperceberam da evolução do mercado é através dos índices. São exemplos o centenário Dow Jones Industrial Average, que replica a evolução de 30 das maiores empresas cotadas na Bolsa de Nova Iorque ou do rival S&P 500, da Standard & Poors. Na Europa o mais famoso é o FTSE 100, também conhecido por Footsie, que agrega as 100 acções mais líquidas da Bolsa de Londres e os 69 índices MSCI, repartidos por sectores de actividade e regiões, que são actualizados todos os dias às 22h30 pela Morgan Stanley Capital International.

Em Angola, como foi referido (veja antigo anterior) o lançamento do mercado accionista será feito, numa primeira fase, através do mercado de balcão regulamentado. De carácter mais informal do que a Bolsa de valores, as negociações no âmbito do balcão são intermediadas por entidades como bancos de investimento ou as corretoras autorizadas. Tradicionalmente, o mercado de balcão é um mercado de títulos sem local físico definido para a realização das transações que são feitas electronicamente entre as instituições financeiras. O Nasdaq (Estados Unidos) ou a Bolsa de Cabo Verde são dois exemplos.


Por: Luís Leitão
 

Comentários

  1. Gilton Ramos Bunga
    2013-01-12 10:18:24
    Bolsas de valores Africanas
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