Edição nº 29
 

Rússia

Poucos likes, muito dinheiro

Publicado a 15-08-2012 12:14:00

Nos círculos empresariais de Moscovo, o magnata dos metais Alisher Usmanov, dono de uma das maiores empresas de minério de ferro do mundo, é conhecido como “o durão da Rússia”, devido ao seu estilo brutal de negociação. Nas colunas sociais do país, o milionário é tido como uma figura dada às extravagâncias — seja em tempos de bonança, seja nas crises, ele compra mansões, iates, aviões e colecções inteiras de arte. Mas é em Inglaterra, onde Usmanov também opera, que o magnata de 58 anos tem o apelido menos lisonjeiro. Quando começou a investir no Arsenal, um dos mais tradicionais clubes do futebol inglês, em 2007, os adeptos insatisfeitos com a chegada do russo começaram a chamar-lhe “Jabba”, o vilão corpulento do filme A Guerra das Estrelas. O facto de Usmanov ter passado seis anos numa cadeia por fraude e enriquecimento ilícito na década de 80, no Uzbequistão, ajudou a justificar o apelido — a sentença foi anulada depois por suposta falta de provas.

Até aqui a história de Usmanov não é assim tão surpreendente — a paixão dos magnatas russos por iates, a origem pouco transparente das suas fortunas baseadas na exploração de recursos naturais e a ideia de investir em clubes de futebol ingleses são bem conhecidas (basta recordar o caso de Abramovich no Chelsea). O que faz o caso de Usmanov singular, e que o elevou recentemente à condição de homem mais rico da Rússia, com um património de mais de 18 mil milhões de dólares, foram os seus investimentos certeiros no sector de tecnologia americano.

Desde 2008 que Usmanov é sócio do Digital Sky Technologies (DST), um fundo de investimento que comprou participações nalguns colossos da internet. O russo é accionista do site de compras colectivas Groupon e do site de relacionamentos LinkedIn. Em 2009, quando mal sabia o que era uma rede social, aceitou uma proposta para investir no Facebook. Três anos depois, os cerca de 900 milhões de dólares que ele e os outros investidores do DST injectaram na empresa de Mark Zuckerberg transformaram-se em mais de 6 mil milhões — só a parte de Usmanov corresponde a 2 mil milhões de dólares em acções. Esses investimentos na área da tecnologia acabaram por alavancar a entrada noutros projectos. Enquanto, no ano passado, o património de outros oligarcas russos encolhia com a queda dos preços de parte das commodities metálicas, a fortuna de Usmanov manteve-se intacta. “Usmanov é menos um empreendedor e mais um investidor. E um dos melhores da Rússia”, afirma Ruben Vardanian, dono do Troika Dialog, um dos mais conhecidos bancos de investimento do país. Confiante na sua estratégia de diversificação, o magnata compra, em Junho, o seu mais novo brinquedo: um Airbus A340-300, para 375 pessoas, que ele usará como jacto particular.


Na Rússia, é visto como um “durão”. 
Em Inglaterra, o vilão. 
Por onde passa, 
há sempre polémica
Nascido no Uzbequistão, Usmanov, quando jovem, estudou no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscovo, um lugar conhecido na era soviética como um centro de formação de diplomatas e de agentes da KGB. Mesmo após a queda do muro, Usmanov parece ter mantido relações próximas com pessoas ligadas ao serviço de inteligência russo, uma acusação que ele não desmentiu quando a imprensa inglesa escrutinou a sua vida após o investimento no Arsenal. A sua estreia como empreendedor foi nos anos 80, quando abriu uma fábrica de sacos de plástico. Nos anos 90, decidiu mudar do sector industrial para o financeiro. Foi durante algum tempo director de um banco até que a sua carreira disparou quando passou a gerir a carteira de investimentos da Gazprom, a companhia estatal russa de gás. Como é que um gestor financeiro se torna milionário em menos de 20 anos é um daqueles mistérios típicos da Rússia.

Amigo do Presidente Vladimir Putin

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Segundo Usmanov, a Gazprom recebia, nos anos 90, participações em empresas como forma de pagamento de dívidas. Quando a Gazprom resolveu vender esse portefólio que entretanto acumulou, Usmanov decidiu endividar-se e comprar as empresas de mineração. A versão dos críticos é menos simpática. Segundo o jornal inglês The Guardian, Usmanov enriqueceu quando ajudou a Gazprom a fechar um acordo de exportação de gás com o Uzbequistão, um país célebre pela corrupção, algo que o magnata nega veementemente. Polémicas à parte, Usmanov hoje é dono da Norilsk Nickel, a maior produtora de níquel do mundo, a MegaFon, terceira operadora de telemóveis da Rússia, e o Kommersant, um dos maiores grupos de media de Moscovo.

Usmanov, como seria de esperar, também é amigo do Presidente Vladimir Putin. “Na Rússia, ter boas relações com o Kremlin é essencial”, afirma Alexander Klimment, analista da consultora Eurasia Group, especializada em riscos políticos. Em Dezembro, Usmanov demitiu o editor-chefe de uma das suas revistas por ter publicado uma reportagem que denunciava alegadas fraudes nas eleições presidenciais. “Orgulho-me de ser amigo de Putin”, diz Usmanov. O magnata pode até actuar nalguns dos sectores mais modernos da tecnologia, mas, na sua própria casa, nunca deixou de seguir regras bem mais conservadoras de liderança, ao estilo russo.   


Alisher Usmanov

Dono da maior 
mineradora russa

Idade  58 anos

Fortuna  Mais de 18 mil milhões 
de dólares.

Carreira  Alisher Usmanov fez fortuna no sector de mineração da Rússia, na última década. Nos últimos três anos, investimentos certeiros nalgumas das maiores empresas de internet do mundo — como Facebook e Groupon — levaram-no ao topo do ranking dos milionários russos.



Por: Mariana Segala
 
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