Edição nº 29
 

Exame Final

"Não existe manual de inovação"

Publicado a 15-08-2012 12:21:00
Inovar transformou-se um daqueles chavões que muitos presidentes de empresas repetem até à exaustão. Criar uma cultura que promova a inovação dentro das empresas, porém, é tarefa para poucos, diz o italiano Roberto Verganti, director da Escola Politécnica de Milão. No livro Design-Driven Innovation (Inovação nascida do design) Verganti não dá receitas fáceis sobre o que fazer, mas descreve o que, na sua visão, os executivos devem considerar para criar um produto campeão de vendas.

O que entende por inovação?

Defino o conceito de inovação através de três características: ser uma novidade; ter maior valor agregado, pois nem tudo o que é novo é mais valioso; e, por último e mais relevante, ser aplicável ao dia-a dia-dos consumidores.

Hoje, é mais fácil para as empresas inovarem?

A dificuldade não é encontrar algo novo, mas, sim, o melhor e o mais funcional. Com a internet, encontrar boas ideias é uma tarefa mais fácil. Diversas empresas utilizam os sites para recolher sugestões dos consumidores. Mas quantas delas vão chegar ao mercado? Quantas serão campeãs de vendas?

O que é que, na sua opinião, uma empresa precisa
de fazer para desenvolver um campeão de vendas?

Não há um manual com o “passo a passo” para ser inovador. Se existisse, todos chegariam lá facilmente, logo, deixaria de ser uma inovação. Mas há evidências de que um sucesso de vendas tem mais hipóteses de ser criado quando a empresa amplia os seus horizontes, quando examina a sua realidade a partir de novas perspectivas. Se tem uma companhia que produz massa, por exemplo, talvez seja uma boa ideia conversar com os executivos de uma fábrica de utensílios de cozinha.

Qual é a lógica?

Em poucas palavras, é difícil criar um produto vencedor sozinho. Para atingir essa meta, é preciso saber cercar-se de pessoas que possam pensar sobre o mesmo tema de diferentes maneiras, com visões distintas. Cada empresa tem os seus próprios meios de chegar a um produto. Se tentar copiar o que a Apple fez, é certo que não vai inovar.

A Apple é o grande exemplo de inovação do momento?

Definitivamente é um deles. Mas existem muitas outras empresas que procuram desenvolver produtos que representem um novo conceito para os seus consumidores. A japonesa Nintendo, que criou a Wii, é outro bom exemplo. Embora o produto concorrente PlayStation, fabricado pela Sony, seja mais potente e veloz, o Wii estabeleceu uma nova relação dos utilizadores com a consola, que deixou de ser um brinquedo apenas para adolescentes. Hoje, tanto os pais como os avós estão a usar a Wii.

A inovação está sempre associada à tecnologia?

As duas coisas trabalham juntas. A tecnologia pode tornar mais potente algo que já existe ou mudar radicalmente a experiência. As pessoas não compram um iPhone porque a qualidade da ligação telefónica vai ser melhor. É pela experiência de utilização.

A economia dos Estados Unidos e a de vários países
 da zona euro está em situação difícil. É mais fácil ou mais dificil, pensar em inovação em tempos de crise?

Numa economia rica e em expansão, é bem mais fácil sobreviver sendo ineficiente ou tendo um produto pouco inovador. Nesses momentos, é quase impossível deixar de vender. Mas, com uma economia mais fraca, as hipóteses de quem não tem um bom produto desaparecer são muito maiores. Ou seja, a crise é um incentivo para a inovação. Se não é pelo menos, deveria ser.

Por: Roberto Verganti, Director da Escola Politécnica de Milão (Itália)
 
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