Economia
Angola é um bom exemplo desta realidade: nos últimos 11 anos, o país cresceu, em média, 10,6% ao ano, quase o triplo do resto do mundo. E de acordo com as últimas estimativas do Banco Mundial e do gabinete de estudos da revista britânica The Economist — Economist Intelligence Unit (EIU) —, as boas notícias para Angola e para a região não ficarão por aqui. No relatório “Por dentro de África: Oportunidades emergentes para negócios”, publicado no mês passado pelo EIU, os especialistas antecipam que Angola, juntamente com a Nigéria, vai crescer entre 7,5% e 10% até 2016. Isso significa que poderá superar a África do Sul dentro de quatro anos. Será um marco estrondoso no quadro económico do continente e do mundo, dado que actualmente cerca de um terço da riqueza criada na África Subsariana é gerada unicamente pela África do Sul.
Com o mesmo optimismo para Angola está o Banco Mundial, que coloca o país entre o lote dos cinco mais dinâmicos da África Subsariana com um ritmo de crescimento médio anual superior a 7,4% até 2014.
Do lado oposto aos casos de sucesso de Angola, Nigéria, Serra Leoa e Moçambique, volta a figurar o Zimbabwe que deverá continuar a derrapar até 2016. Outro destaque pela negativa é a Swazilândia que, segundo as estimativas do Banco Mundial, não deverá ir além de uma taxa de crescimento do PIB de 0,29% por ano, até 2014.
A referida “mudança de paradigma” é justificada pelos autores do artigo por razões internas (ligadas à estabilidade política e económica), mas também pelo peso crescente do investimento das grandes economias emergentes, particularmente da Índia e da China. Essa tendência fez com que África voltasse a figurar nas agendas da política económica mundial das grandes potências mundiais e a cativar o interesse cada vez maior dos investidores. O caso mais emblemático dessa realidade é exposto pela China, que entre 2001 e 2010 gerou investimentos na África Subsariana no valor de 67,2 mil milhões de dólares, um valor 1,23 vezes superior ao montante injectado pelo Banco Mundial na região no mesmo período, segundo estimativas da agência de notação financeira Fitch.
Angola tem sido um dos países que mais tem beneficiado com a força do “dragão chinês”: actualmente, quase 50% das exportações do país têm como destino o Império do Meio, com Angola a ser actualmente o principal parceiro africano da China (e o segundo maior do mundo) ao nível da exportação de petróleo. Ao que tudo indica, esta tendência não se irá esmorecer nos próximos tempos. Os especialistas do EIU acreditam que os países com forte produção de recursos minerais tais como a Angola, Tanzânia e Moçambique vão continuar a ter um forte desempenho económico e que “o interesse dos investidores vai manter-se muito elevado, nomeadamente entre as grandes potências emergentes, como o Brasil, China e Índia, que desempenharão um papel vital”. Já os técnicos do Banco Mundial vaticinam que “o investimento em infra-estruturas, particularmente da China, Índia e Brasil, deverá impulsionar a capacidade de produção agrícola e industrial da região”.
Recorde-se que em 2011, o investimento directo estrangeiro (IDE) na África Subsariana aumentou 5% face a 2010, contabilizando no final do ano passado mais de 42 mil milhões de dólares. Este valor compara com uma queda de 6,7% registada do IDE nos países desenvolvidos. Além disso, se considerarmos que todos os anos o continente tem necessidade de realizar investimentos na ordem dos 100 mil milhões de dólares, fica clara a ampla margem de progressão do IDE na região.
Segundo os analistas do Banco Mundial, África passa actualmente por um estado de desenvolvimento similar ao que os países da Europa do Leste atravessaram há 20 anos e ao que a Índia vivenciou em 1994. Nos próximos anos, o continente assistirá a um avolumar cada vez maior do investimento estrangeiros na região, sobretudo numa altura em que a economia dos Estados Unidos e da zona euro continuam a marcar passo. Só em 2011 o número de projectos associados ao IDE na África Subsariana, em áreas como os serviços, infra-estruturas e manufacturação, aumentou 27%.
Por todas estas razões, restam poucas dúvidas de que África será o continente mais dinâmico nos próximos anos e, provavelmente, a região do globo que mais mudanças sofrerá no capítulo económico. Basta lembrar que o continente engloba um mercado com quase 1000 milhões de consumidores, sendo apenas superado pela Ásia. Paralelamente, até 2025 será a região do planeta com o mais elevado crescimento populacional: de acordo com as estimativas das Nações Unidas, dentro de 13 anos viverão no continente 1,4 milhões de pessoas, mais 39% do que actualmente, tendo a sua maioria menos de 24 anos de idade.
No entanto, o bom desempenho do continente projectado para os próximos anos estará dependente da superação de um conjunto de grandes desafios. A começar pelo cumprimento dos “Objectivos do milénio” até 2015, que foram delineados pelas Nações Unidas em 2000, e que até ao dia de hoje continuam longe de serem superados por grande parte dos países africanos. Igualmente relevante é a precariedade ao nível das infra-estruturas da região que, entre outras coisas, faz com que apesar de ser uma região rica em recursos naturais, o principal bem importado pelos países da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) sejam combustíveis.
Além de todos os desafios internos, África enfrenta também um conjunto grande de ameaças externas, em resultado de o mundo ser cada vez mais uma “aldeia global”. Nesse sentido, o crescimento do continente está dependente dos desenvolvimentos da crise da zona euro e da extensão do abrandamento económico da China: se o crescimento da economia global for mais fraco do que o esperado, o preço das matérias-primas vai cair levando por arrasto a actividade dos exportadores de recursos naturais industriais (petróleo, metal e algodão) e as economias dependentes do turismo — dois dos principais motores das economias da África Subsariana. Num cenário de crise global, há ainda a contabilizar o enfraquecimento da entrada de capitais estrangeiros, a redução da ajuda externa e das remessas de emigrantes, algo que pode comprometer a estabilidade macroeconómica.
1. Bónus demográfico. África é um dos mercados mais jovens e populosos do planeta (mais de metade dos habitantes tem menos de 24 anos). Em 2050, o continente irá albergar 2 mil milhões de pessoas, ultrapassando a Índia (1,6 mil milhões) e a China (1,4 mil milhões).
2. Urbanização. Cinco cidades africanas têm mais de 7 milhões de habitantes (Cairo, Khartoum, Lagos, Luanda, Joanesburgo). Todas, excepto Luanda, são maiores em dimensão do que Londres, por exemplo.
3. Comércio. A Europa ainda é o maior parceiro comercial de África, mas a China já está a par dos Estados Unidos (e à frente do Japão) na dupla qualidade de importador e exportador.
4. Tecnologia. A penetração rápida dos telemóveis (500 milhões de utilizadores em 2010) surpreendeu o mundo. Com a introdução da fibra óptica há muito espaço para crescer no sector telecomunicações.
2. Infra-estruturas. A Nigéria tem uma população de 180 milhões de pessoas e a mesma capacidade eléctrica da Hungria com 10 milhões. Só no sector da energia, África ainda precisa de investir 100 mil milhões de dólares anualmente.
3. Serviços. Quatro em cada cinco africanos não tem conta bancária. O acesso à internet é baixo e o mercado dos telemóveis está longe da saturação. Ainda há grandes oportunidades na banca, comunicações, saúde, turismo e educação.
4. Bens de consumo. O valor agregado do consumo privado do continente já é igual ao da Índia. Está a ser potenciado pelo surgimento de novos centros comerciais e das grandes superfícies.
O célebre projecto sediado no Waku Kungo “renasceu” em Outubro de 2012 e já é o maior produtor de ovos