Edição nº 29
 

Filantropia

Quem é a guru 
de Bill Gates

Publicado a 19-08-2012 12:36:00

A francesa Esther Duflo nunca se interessou pela tecnologia, não gosta de falar de negócios e dedicou a sua carreira à universidade. Ainda assim, ela encontrou mais afinidades do que diferenças na sua primeira conversa com o empresário Bill Gates, criador da Microsoft e o segundo homem mais rico do mundo, em 2009. Foi um breve encontro, após uma palestra realizada por ela na Califórnia, sobre o seu trabalho à frente do Poverty Lab, laboratório de estudos de combate à pobreza ligado ao Massachusetts Institute of Technology (MIT). Ela contou como criou, a partir do zero, uma rede de dezenas de investigadores que vão ao terreno descobrir estatisticamente quais são os investimentos sociais que funcionam.

Isso era tudo o que Gates — que já dedicou mais de 20 mil milhões de dólares a esse tipo de causas — queria ouvir. Através da Fundação Bill e Melinda Gates, o empresário tornou-se um dos maiores investidores do que é hoje a maior rede global de investigação sobre o assunto, com 65 académicos em 52 países.

Aos 39 anos, Duflo tornou-se uma conselheira cada vez mais requisitada não apenas por Bill Gates, mas por dezenas de investidores e organizações pelo mundo. “O laboratório produz evidências científicas que ajudam a tornar o esforço de combate à pobreza mais eficiente”, afirmou Gates recentemente no seu blogue.

Por trás da cada “evidência científica” está uma abordagem nada convencional de investigação académica, até há pouco tempo vista pela maioria dos economistas como cara de mais para ser adoptada em larga escala. O centro

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utiliza um método “aleatório”, criado em 2003 por Duflo e o indiano Abhijit Banerjee, que também é economista no MIT. Tal como sucede com os testes clínicos da medicina, o método consiste em separar duas amostras da mesma população aleatoriamente. Uma delas é submetida a uma solução contra um problema específico,  por exemplo, um método para aumentar a taxa de vacinação das crianças. A outra amostra não recebe nada. O contraste entre as amostras revela se o programa social gerou o efeito desejado. “O método gera resultados concretos num assunto em que as discussões tendem a ser mais emocionais e retóricas do que práticas”, disse Duflo à EXAME.

Após se licenciar em Economia, pela École Normale Supérieure, em Paris, em 1994, Duflo mudou-se para os Estados Unidos para obter o doutoramento, pelo MIT. Foi nessa altura que conheceu o indiano Banerjee. Os dois amadureceram a ideia de iniciar a aventura de deixar o campus, nos arredores de Boston, para visitar cidades onde grande parte dos habitantes vive com menos de 1 dólar por dia. Eles não foram os primeiros. Nos anos 90, o economista Michael Kremer, também do MIT, realizou um teste no Quénia, no qual demonstrou que a distribuição gratuita de livros didácticos em escolas rurais não havia melhorado a nota dos alunos. “O mérito de Duflo foi ter multiplicado o método em grande escala”, diz Kremer, professor de Economia de Harvard.

Desde então, a equipa de investigadores  coordenada por Duflo e Banerjee já analisou 335 projectos em todos os continentes e o seu orçamento cresceu mais de 30 vezes (hoje é de 10 milhões de dólares). Em 2010, a investigadora recebeu a sua distinção académica mais importante, a medalha John Bates Clark, concedida a economistas promissores com menos de 40 anos e que é considerada uma espécie de passaporte para o Prémio Nobel.

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Bill e Melinda Gates, na Índia: o casal é um dos maiores doadores do laboratório de Duflo

Para Duflo é preciso conhecer de perto o comportamento das pessoas para se chegar às políticas sociais eficientes. Na Índia, por exemplo, os investigadores descobriram que, apesar da campanha ser gratuita, as mães não vacinavam os os seus filhos. A frequência aumentou drasticamente com um incentivo simples, a oferta de um pacote de lentilhas por criança vacinada. O microcrédito, conceito popularizado pelo indiano Muhammad Yunus, vencedor do Nobel da Paz em 2006, também foi objecto de estudo. Duflo, que interrompeu temporariamente a intensa rotina de viagens neste ano, devido ao nascimento do seu primeiro filho, constatou que a oferta de crédito para famílias muito pobres só ajuda, em regra, a endividá-las ainda mais e não estimula necessariamente o empreendedorismo. Essas e outras histórias estão no livro Poor Economics (A economia dos pobres), escrito em parceria com Banerjee e eleito pelo jornal Financial Times como a melhor obra de economia do ano passado.

Bill Gates quer saber se os seus investimentos sociais estão a gerar resultados. Duflo sabe como chegar à resposta 
Assim como Jefrey Sachs, economista da Universidade Columbia, Duflo acredita que os investimentos a fundo perdido dos países ricos podem aliviar a pobreza mundial (críticos como William Esterly, professor da Universidade de Nova Iorque, defendem o contrário). Mas, segundo ela, a grande questão hoje não é investir mais, mas investir melhor. “Não existe uma fórmula única”, diz. “Mas queremos desvendar esse caminho passo a passo.”


Esther Duflo, co fundadora do Poverty Lab

Origem:  Nasceu em Paris, França

Idade:  39 anos

Cargo:  Directora do Poverty Lab, laboratório de estudos contra a pobreza do Massachusetts Institute 
of Technology (MIT), criado em 2003. 
É professora de Economia na mesma instituição.

Trajectória académica: Formou-se em economia, pela École Normale Supérieure, em Paris, em 1994. Doutorada em Economia, pelo MIT em 1999. Recebeu a medalha John Bates Clark em 2010, concedida a economistas promissores com menos de 40 anos. A distinção é considerada um passo para o Prémio Nobel.



Por: Cristiane Mano, em Nova Iorque
 
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