Edição nº 29
 

Sustentabilidade

Crescer 
é um vício?

Publicado a 20-08-2012 9:15:00

Em 1972, os investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) produziram o relatório “Limites ao Crescimento” para o Clube de Roma, grupo que reúne alguns dos mais brilhantes estudiosos de diferentes áreas para discutir o futuro do planeta. Segundo as conclusões catastróficas do MIT, o mundo caminhava rapidamente para a escassez de matérias-primas, o que exigiria uma forte redução da produção de bens industriais e, eventualmente, iria diminuir a riqueza das nações.

Jorgen Randers: Um dos autores do relatório “Limites
 ao Crescimento” do MIT

Nessa altura, muitas pessoas encontraram semelhanças entre o trabalho do MIT e as ideias do pensador inglês Thomas Malthus, que, no século xviii, afirmava que o planeta seria incapaz de alimentar a sua população crescente. Como hoje todos sabemos, nem Malthus nem o MIT acertaram. Os progressos tecnológicos nos sectores agrícola e industrial permitiram que a oferta de alimentos e de produtos manufacturados continuasse em alta, apesar da expansão da população. E a tese rapidamente caiu no esquecimento.

Passados 40 anos, uma nova leva de economistas volta a debruçar-se sobre os limites do crescimento, outra vez, com previsões pessimistas. A culpa agora é o aquecimento global. Nas palavras de Paul Gilding, professor do Programa de Sustentabilidade da Universidade de Cambridge, autor do recém-lançado livro The Great Disruption (A grande ruptura), nós já passámos os limites físicos do planeta. Inventar uma nova tecnologia para aumentar a produtividade da agricultura, como sucedeu no passado, não resolve. Na visão de Gilding, o mundo entrou, no fim da década passada, num momento de ruptura que se acentuará nas próximas décadas.

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A dúvida é quando esse novo momento chegará, argumenta o professor, porque, entre outras razões, os países “camuflam” essa ruptura, expandindo artificialmente a economia através do endividamento. Um número crescente de “economistas verdes” acredita que, independentemente do remédio, a economia global passará a crescer a um ritmo menor. Segundo eles, as actuais crises económicas e financeiras são apenas a ponta do icebergue. O principal factor é a exaustão dos recursos naturais, que conduz à subida insustentável dos preços.

Outra figura emblemática deste grupo é Jorgen Randers, professor de Estratégia Climática, na Escola de Negócios Norueguesa, em Oslo, e um dos investigadores que produziram, em 1972, o relatório “Limites do Crescimento”. O economista lançou recentemente o livro 2052, onde faz projecções para o mundo nos próximos 40 anos. O seu diagnóstico é que o fosso de rendimentos e de consumo entre os países mais ricos e os mais pobres deverá diminuir (veja infografia). Já o uso de energia deve aumentar cerca de 50%. Devido às emissões crescentes de carbono, Randers projecta que o mundo atingirá, na segunda metade deste século, o que ele chama de “colapso climático”, causado pelo aumento da temperatura da Terra em 2 graus face ao período pré-industrial. Randers errou no passado. Será que vai acertar desta vez?

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O consumo de energia aumentará 50% nos próximos 40 anos e o mundo vai entrar num colapso climático
A verdade é que o grupo de “economistas verdes” é cada vez maior e mais influente. Eles têm defendido o fim da “obsessão pelo crescimento”. A tese subjacente é apelidada “lógica da satisfação”. Quando o nível de rendimento da população é muito baixo, existe uma correlação alta entre o crescimento do PIB e o aumento do bem-estar. A partir do momento em que as necessidades básicas da população estão superadas, o aumento do rendimento e da disponibilidade de bens tem uma correlação baixa com a sensação de conforto e felicidade. Em sociedades mais maduras, argumentam, a felicidade está associada a outros factores que não os puramente económicos, como a coesão social e a qualidade da vida comunitária.

“A economia global está construída sobre uma premissa única: a de que somos motivados a trabalhar e a gerar riqueza para comprar mais coisas, porque isso vai melhorar a nossa qualidade de vida. Mas chegámos ao ponto em que mais dinheiro e mais posses, conquistados  à custa de mais stresse, não nos deixam mais felizes”, diz Gilding. Essa lógica até pode fazer sentido para a parcela rica da humanidade. E para os 1,3 mil milhões de pessoas que ainda vivem com menos de 1,25 dólar por dia?


O crescimento do PiB permitiu à China 
tirar 600 milhões 
de pessoas da miséria em 30 anos
Ao longo da história, o crescimento económico provou ser o método mais eficiente para reduzir a pobreza. Nos últimos 30 anos, a expansão do PIB da China tirou 600 milhões de pessoas da miséria, por exemplo. Os teóricos da sustentabilidade não discutem a necessidade de se criar uma nova classe média emergente. “A ideia de redução do consumo seria apenas destinada aos cidadãos dos países ricos”, esclarece Erik Assadourian, do centro de estudos Worldwatch Institute, de Washington.

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Paul Gilding: Um dos economistas verdes da moda... e um dos mais pessimistas: "Já passámos os limites do planeta. Inventar novas tecnologias para produzir mais, não resolve o problema"
Embora a sugestão possa alimentar acalorados debates teóricos, a proposta de “acabar com a obsessão pelo crescimento” tem poucas hipóteses de ser colocada em prática. Dá para imaginar a eleição de um Presidente que defendeu um futuro com menos crescimento? É que não há memória de um país que tenha decidido voluntariamente reduzir o consumo, a não ser em situações extremas. A ideia, para já, parece ser demasiado... extrema. 






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Por: Mariana Segala
 
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