Edição nº 29
 

Liderança

Sabedoria africana

Nas livrarias dos Estados Unidos, há sempre uma secção para negócios onde se encontra várias obras sobre liderança, assim como manuais de autoajuda. Certos livros dizem conter a sabedoria e as lições de liderança de figuras que se destacaram em vários ramos: militar, desporto, artes, política, etc. Parece haver um número de livros ilimitados sobre a sabedoria de Abraham Lincoln — assim como dos pais fundadores da nação, como George Washington. Os americanos nunca param de venerar a sabedoria antiga. Agora, os africanos parecem estar a fazer a mesma coisa.

Notei que na África do Sul existe o mesmo fenómeno — só que com uma dimensão africana; há livros com lições sobre liderança vindas do Shaka Zulu e de nacionalistas como o Nelson Mandela. Há, também, livros sobre liderança inspirados pela filosofia de Umbuntu – segundo a qual “a vida de alguém só faz sentido se a mesma for dedicada ao bem-estar dos outros”. Achei sempre que existiu uma falta de livros sobre a sabedoria da cultura tradicional africana. Por ela ser, em geral, oral, a sabedoria tradicional africana é contida nos ditos e provérbios de várias comunidades. Há, também, as lendas e contos que, em geral, contêm o conhecimento destilado das sociedades.

Na cultura anglo-americana, por exemplo, a brevidade é, em regra, altamente valorizada. Vai-se a uma reunião, adere-se a uma agenda e trata-se de cada item — ponto final. Em muitas culturas africanas, porém, há momentos em que tem de haver uma celebração da língua; a reunião pode mesmo começar com o mais velho contar uma lenda ou a citar vários provérbios. O tema central de muitos livros sobre liderança, que se encontram nas livrarias americanas, é que os líderes, ao contrário dos gerentes, é que têm a visão, eles sabem qual é o destino do comboio. Os gerentes têm como tarefa principal garantir que as engrenagens que fazem o comboio andar estejam em dia. Em muitas sociedades tradicionais africanas este modelo também existe.

Em Angola, há a cultura do njango – o local aonde os mais velhos da aldeia se reúnem para resolver os vários assuntos da comunidade. Trata-se de uma espécie de conselho de administração. A experiência conta muito; é por isso que é dado muito valor à idade. Os mais velhos – os sekulus – estão conscientes dos valores da comunidade. O bom nome desta comunidade tem de ser respeitado a todo custo. As decisões da mesma comunidade têm de alinhar-se com os valores fundamentais das mesmas. E a habilidade de se encontrar um equilíbrio ideal só vem com o tempo e paciência.

Há um provérbio em Umbundu que diz: “Nda wamonla omalanga ikuete owa kolombinga, yanda chiwa la hossi” (Se vires uma palanca com tortulho no seu chifre significa que soube lidar bem com o leão). Neste caso, o leão representa vários tipos de desafios que um líder vai enfrentando durante a sua carreira e a necessidade de poder superar os mesmos. É que na sociedade tradicional africana dá-se muita importância ao saber que foi adquirido com a experiência. A capacidade de escutar atentamente, nas sociedades tradicionais africanas, é muito apreciada. Quando, há quatro anos, o público norte-americano queria saber mais sobre o candidato Barack Obama, a CNN foi entrevistar a sua avó paterna ao Quénia. A idosa, que vive ainda numa sociedade muito tradicional, disse que a grande qualidade do seu neto era “a sua imensa capacidade de escutar”.

“Um dia alguém escreverá um livro sobre as lições da cultura tradicional africana. Poderá ser um best-seller”
Em várias sociedades africanas também existe o princípio de que não é bom fazer inimizades desnecessariamente. Em Luvale, língua falada no Leste de Angola, há um provérbio que diz: “Tuka muchana; musengue nabakwiba!” (Vale mais disparatar numa planície do que numa floresta, porque na floresta há o risco de quem estiver atrás de uma árvore ouvir o disparate.”) Ainda no que diz respeito à importância de se manter boas relações entre as pessoas há um outro provérbio em Umbundu que diz: “Munda la munda kavalisangi; omanu valisanga” (As montanhas nunca se encontram, mas as pessoas encontram-se sempre”).

Ligado à capacidade de escutar está, também, o saber entender. Importa analisar como é que um fenómeno afecta o outro. Há, em Umbundu, um outro provérbio que diz: “Chakwata upindi, mbunbwangolo kachosile” (O que está a morder o pé não poupará o joelho). Segundo este provérbio, os fenómenos estão interligados. Há vários livros, baseados no princípio de systems analysis cujo argumento principal é que nada pode ser visto como sendo um fenómeno isolado. Em qualquer empreendimento, é muito importante ter-se uma clara noção dos interessados — as suas ambições ou as suas fraquezas. Notei que na internet o provérbio africano mais citado é o que diz: “Um hóspede pode estar com os olhos bens abertos, mas só consegue ver aquilo que sabe.” Talvez, nas nossas leituras sobre a liderança, passamos apenas a ver aquilo que já sabemos. Ir além daquilo que sabemos requer uma certa modéstia. Com o andar do tempo e a convulsões da história africana, decerto que muitos — sobretudo os jovens — já não conhecem grande parte do saber tradicional africano. Não tenho dúvida que um dia alguém poderá escrever um livro sobre as lições positivas que a cultura tradicional africana poderá dar às multinacionais do mundo. Esse mesmo livro poderá até ser, quem sabe, um best-seller...


Por: Sousa Jamba,Escritor e jornalista angolano, radicado nos Estados Unidos
 
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