
As campanhas publicitárias sobre prevenção rodoviária seguem usualmente um tom alarmista e dramático. Recorrem, em regra, a imagens de acidentes, levando o espectador a sentir medo e repulsa e (desejavelmente) a mudar o seu comportamento enquanto condutor. Percebe-se a intenção desse tipo de campanhas. Para mais, o problema é realmente dramático em Angola. Os acidentes de viação já são a segunda causa de morte no país e a taxa de sinistralidade é a terceira mais elevada do mundo (após Serra Leoa e Irão). Só que, por vezes, esse tipo de campanhas mais agressivas acaba por não produzir o resultado esperado. Os espectadores entram em estado de negação, preferem “não ver” ou considerar que é “uma tragédia que só acontece aos outros”.
Campanha que circulou pelo país Começou na capital, em Janeiro, e
chegou a mais cinco provincias: Kwanza-Norte e Malanje, em Fevereiro;
Huambo, em Março; e Lobito e Benguela, em Maio
A campanha seguiu uma abordagem positiva, noticiando os condutores que, nesse dia, não tiveram acidentes
A campanha Todos Somos Responsáveis, desenhada pela agência angolana Publivision para a Direcção Nacional de Viação e Trânsito (DNVT), seguiu uma abordagem diferente. “Procurámos olhar para o tema pela positiva, adoptando uma linguagem original e apelativa que ficasse na memória de todos”, justifica a também angolana Rita Pinto Leite, directora executiva da agência e líder da equipa que a coordenou. A originalidade começou pelo logótipo (um volante em forma de mãos entrelaçadas e com um tipo de letra manuscrito).
Mas a face mais visível dessa aposta em mensagens positivas foi patente na comunicação através dos media (o que os técnicos designam por above the line). Os spots de rádio, por exemplo, seguem o tom de um vulgar noticiário. Só que se trata de uma “não

notícia”. Ou seja, o locutor (a voz é de João Armando o popular “condutor” do programa matinal Táxi Amarelo, da LAC) diz que naquele dia um dado condutor chegou a casa tranquilamente, sem ter cometido qualquer infracção ou acidente, em consequência de uma condução responsável. A campanha surpreende pela originalidade e nonsense, ficando na memória de quem ouve. O mesmo sucede com os spots televisivos, em formato de noticiário e cujos rostos são conhecidos apresentadores angolanos como Alexandre Cose, David Diogo, Djamila Santos e Elsa Marques. “Todas estas figuras públicas aderiram à campanha como voluntários”, esclarece Rita Pinto Leite.
Patrocínios privados viabilizam projecto
Razões para reflectir: Os cartazes espelham os cinco “pecados mortais”
de quem conduz de forma irresponsávelA publicidade exterior (vulgo outdoors) está disponível em cinco variações, cada qual incidindo sobre uma mensagem pedagógica sobre prevenção rodoviária: não exceder o limite de velocidade; não conduzir sob o efeito de álcool; atravessar nas passadeiras; usar cintos de segurança e transportar as crianças nos bancos de trás.
Em todos os cartazas repetia-se o slogan: “Dê uma boa notícia ao país.” Por fim, os anúncios de imprensa seguiram a mesma linha conceptual, assemelhando-se mais a um artigo editorial (“publi-reportagens”) do que a um anúncio publicitário. As redes sociais também não foram esquecidas com a criação de uma página específica no Facebook e a disponibilização dos vídeos no canal YouTube. Por fim, a Publivision também foi recolhendo o clipping das referências à campanha que teve cobertura em praticamente todos os órgãos nacionais de comunicação social.
Mas a campanha Todos Somos Responsáveis foi muito para lá da publicidade (no total durou seis meses). O arranque oficial deu-se a 20 de Novembro (Dia Mundial da Sinistralidade), com a apresentação à imprensa e a participação na marcha silenciosa que todos os anos reúne milhares de pessoas que assim prestam memória às vítimas na estradas do país. A marcha teve como ponto de partida a Praia do Bispo (no município de Ingombota), passando pela Nova Marginal e culminando na Paróquia de São Joaquim. Mas a grande acção mediática, de âmbito nacional, deu-se já, em 2012, com a distribuição de camisolas de prevenção rodoviária, autocolantes para viaturas, bonés, folhetos explicativos aos condutores e um livro de conselhos úteis. “A adesão dos agentes da DNVT foi simplesmente fantástica”, diz Rita Pinto Leite.

A primeira grande acção decorreu no dia 17 de Janeiro em Luanda (prolongando-se praticamente durante todo o mês de Fevereiro). Seguiram-se as províncias de Kwanza-Norte (4 de Fevereiro), Malanje (18 de Fevereiro), Huambo (3 de Março), Benguela (25 de Maio) e Lobito (26 de Maio). No final, a DNTV não escondia o entusiasmo pelo sucesso da campanha. O chefe de departamento de prevenção rodoviária, o intendente Pinto Caimbambo, afirmou à Angop que “com esta actividade demonstrámos que a segurança rodoviária não é apenas uma responsabilidade da polícia. Todos somos responsáveis na contenção do índice da sinistralidade. Cada um de nós deve fazer a sua parte”.
Uma consequência prática dessa boa receptividade é a mais que provável repetição deste tipo de acções de sensibilização no próximo ano. “Já estão a decorrer conversas nesse sentido. Do lado da DNTV há obviamente interesse, mas tudo depende dos apoios”, diz Rita Leite. Claro que tudo isto (a campanha integrada teve um orçamento que rondou os 1,5 milhões de dólares) só foi possível com o apoio de patrocinadores (Ensa, Unitel, Pumangol, Mota Engil e gupo MCA). O mais difícil, porém, já foi feito. Os responsáveis da DNVT acreditam que
Devido à sua excelente receptividade já estão a ser estudadas mais acções de rua. Mas tudo depende dos apoios
estas acções de educação e sensibilização — a par da entrada em vigor do novo Código da Estrada e da melhoria das vias de comunicação e sinalização — darão certamente frutos. Para já, a campanha já teve um resultado prático mensurável.
A atribuição de uma Concha de Prata, no 7.º Festival Internacional de Publicidade de Maputo (veja artigo anterior) na categoria de Campanha Integrada. A Publivision, que curiosamente abriu o escritório em Maputo, no ano passado, ficou particularmente orgulhosa de ter sido a única agência angolana premiada na edição deste ano do festival. Tão orgulhosa, que chegou a publicar um anúncio com essa notícia. É caso para dizer: “Santos da casa também fazem milagres.” Só que o milagre que Angola realmente precisava era o de reduzir a taxa de sinistralidade automóvel. Decerto que esta união de esforços já terá dado um valente “empurrão”.
Por: Jaime Fidalgo