Edição nº 29
 

Software

Ataque ao Powerpoint

Publicado a 21-08-2012 13:15:00

A convocatória para uma reunião urgente chegou. A reunião vai começar logo depois do almoço. Ao entrar na sala, a luz está apagada e um slide de PowerPoint já desponta na parede. O apresentador, num tom monocórdio, repete exactamente o que está escrito em cada imagem.


Mathias Poehm:  
Para o especialista suíço o quadro tradicional em papel é mais eficaz  do que os slides apresentados em computador

Má notícia: pelo menos 50 diapositivos serão mostrados na próxima hora. Os minutos passam e o grande desafio é manter-se minimamente atento. O cérebro vai perdendo a capacidade de analisar gráficos e números. Os olhos começam a pesar e, se o seu chefe estiver na sala, você já entrou numa zona perigosa. A menos, claro, que o seu chefe também já esteja no quinto sono.

Atire a primeira pedra quem nunca passou por uma experiência semelhante. Se fosse um programa de televisão, o PowerPoint, o software de apresentações da Microsoft, seria tão popular como as telenovelas brasileiras em Angola, mas tão sonolento como um documentário russo. Instalado em 750 milhões de computadores em todo o mundo, o PowerPoint, companheiro inseparável dos executivos, acaba de completar 25 anos de vida. Para comemorar, o americano Robert Gaskins, criador do software, lançou um livro sobre ele. “O PowerPoint foi pensado para fazer transparências (usadas nos antigos retroprojectores)”, diz Gaskins, que vendeu a invenção à Microsoft em 1987 pelo equivalente, hoje, a 28 milhões de dólares. “Agora os jovens usam o programa sem ter ideia do que seja uma transparência.”

Clique para ampliar a imagem
Hoje, o PowerPoint evoluiu e tornou-se um software eclético: é usado tanto para a divulgação dos resultados das empresas (estima-se que sejam feitas 30 milhões de apresentações no mundo todos os dias) como para os slides com fotos divertidas enviadas pelos amigos na internet.

Apesar do inegável sucesso, o software  também tem detractores. Crítico da sua utilização exagerada, Matthias Poehm, especialista suíço em oratória e autor do livro Powerpoint Fallacy, criou o insólito Partido AntiPowerPoint. Registado oficialmente e com quase 60 mil apoiantes, o grupo não ambiciona disputar eleições. A sua missão “política”, afirma Poehm, não é defender o fim do PowerPoint, mas fazer um alerta contra o excesso de apresentações, muitas delas sem “pés nem cabeça”. “Queremos lembrar às pessoas que existem outras formas de atrair a atenção das pessoas durante as reuniões”, disse no vídeo oficial que lançou o partido no ano passado. Segundo ele, o flipchart — quadro de papel — aumenta a eficiência das apresentações na maior parte dos casos.

Um modo de disfarçar a ignorância

Clique para ampliar a imagem

Al Gore, 
ex-vice-presidente Americano: a sua apresentação rendeu um Óscar e um Nobel
Hoje, existem tantos livros críticos sobre o PowerPoint que já dá para encher uma prateleira de uma biblioteca. Para o francês Franck Frommer, autor de Como o PowerPoint Torna as Pessoas Estúpidas, a ferramenta da Microsoft ajuda a espalhar a ignorância, as frases sem nexo e as expressões repetitivas. Para o americano Chris Witt, especialista em oratória e autor de Líderes de Verdade Não Usam PowerPoint, o programa transformou-se numa forma de disfarçar a falta de preparação. “É como se as pessoas pensassem: ‘Não olhem para mim, que estou nervoso, olhem apenas para o ecrã’”, diz. Exageros à parte, a história do PowerPoint está repleta de casos bizarros. Em 2003, uma comissão de engenheiros da Nasa acusou as apresentações feitas com o software como a causa da morte dos sete astronautas do vaivém espacial Columbia. Segundo argumentam, a operação de emergência montada após a avaria grave ocorrida na asa esquerda só falhou devido aos erros da apresentação  em PowerPoint. As informações estavam todas lá, mas, para resumir tudo em slides, os responsáveis esqueceram-se de destacar o mais importante: uma proposta clara para resolver a situação. Como nada foi feito o vaivém espacial acabou por se desintegrar.

Os fãs do PowerPoint contrapõe que o problema não é a ferramenta em si, mas a forma como é usada. Quem não sabe explorar os recursos do PowerPoint, sustentam esses defensores, provavelmente repetirá os mesmos erros com as outras ferramentas de apresentação que surgiram no mercado. É o caso do Air Presenter, software criado pela inglesa So touch. O Air Presenter mistura recursos do Kinect, sensor de movimentos da Microsoft, com as tradicionais ferramentas do PowerPoint. Há também quem tenha optado por abolir o uso de slides, como o software on-line Prezi. Nesse caso, as apresentações podem ser montadas em forma de árvore genealógica.

Clique para ampliar a imagem
Independentemente do software que se utilize, as apresentações bem planeadas e bem executadas podem fazer “milagres” pelas pessoas menos carismáticas. Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos, é um bom exemplo. Durante a sua digressão pelo mundo para alertar sobre os perigos do aquecimento global, ele percebeu que precisava de ajuda. Contratou uma empresa especializada em apresentações, que usava o Keynote, o programa da Apple similar ao PowerPoint. O resultado foi tão surpreendente que as suas palestras foram adaptadas para o filme, Uma Verdade Inconveniente, vencedor do Óscar de Melhor Documentário em 2007. Graças a essa repercussão, Gore acabou por receber o Prémio Nobel da Paz nesse ano. Em vez de dar sono, as apresentações de Al Gore ajudaram o público a acordar.

Por: Luiza Dalmazo
 

Comentários

  1. Gabriela
    2012-12-07 11:52:49
    Adorei texto!!!... Mim ajudou muito no meu trabalho
Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário


Edição Impressa
Exame 38

Nova vida na aldeia nova

O célebre projecto sediado no Waku Kungo “renasceu” em Outubro de 2012 e já é o maior produtor de ovos








 

 


 

Assinaturas

Medianova

Assine as publicações da Medianova e receba comodamente as várias edições em formato PDF no seu email