Edição nº 1
 

Europa

As lições da Noruega

Publicado a 07-01-2010 10:22:00

Com bancos sólidos e uma boa utilização das receitas do petróleo, a Noruega é uma das economias menos afectadas pela crise financeira que consome o Velho Continente.

O inverno financeiro provocado pela crise económica global está a ser sentido por toda a Europa. Os dados mais recentes do comportamento do PIB da região mostram que os 16 países da zona euro tiveram o seu quarto trimestre consecutivo de desaceleração.

Nos primeiros meses deste ano, as principais economias europeias sofreram a maior contracção desde que a União Europeia foi criada. O desemprego aproxima-se perigosamente da taxa de 10%, a maior da década. E as previsões mostram que 2009 foi mais cruel para a Europa do que para os Estados Unidos. Da Alemanha à França, dos países do Leste à Itália e à Espanha, a sensação é de desalento.

A excepção vem do gelo. Com 4,8 milhões de habitantes, a Noruega resiste bravamente aos piores efeitos da crise, tornando-se um modelo a ser seguido em matéria de gestão económica. De acordo com as estimativas do FMI, o PIB norueguês deve fechar o ano com um decréscimo de 1,6%. O que parece ser uma má notícia torna-se uma maravilha quando comparado com o desempenho de países como a Alemanha e a Inglaterra, cuja economia pode, segundo as piores projecções, registar 6% negativos neste ano. O desemprego ainda não é um problema sério para os noruegueses. A taxa — hoje em torno dos 3% — é um quinto do índice registado em nações como a Espanha. E a produção industrial da Noruega é uma das menos afectada entre os países europeus. “Vamos passar por esta crise com muito menos danos do que a maioria das nações”, afirmou o primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, num discurso recente aos empresários locais.

Sector bancário com regras apertadas

A Noruega colheu os frutos do seu conservadorismo. O mercado imobiliário permaneceu estável, enquanto países como a Espanha iam da euforia ao desespero com o estouro da bolha que envolveu o sector. Os seus bancos não foram “intoxicados” por créditos duvidosos, graças a uma regulamentação apertada nascida na década de 80. Nessa altura, o país enfrentou uma crise que atingiu 70% das suas instituições financeiras, incluindo os três maiores bancos nacionais. Após uma série de medidas duras, o sector foi saneado. “Depois dessa crise, os bancos adoptaram medidas que fizeram com que o sector bancário norueguês fosse mais resistente aos problemas que hoje se verificaram noutros países”, afirmou o economista norueguês Bjørn Basberg, professor da Norwegian School of Economics and Business Administration.

Mas, talvez, o maior mérito dos noruegueses tenha sido administrar com sabedoria os frutos da sua maior riqueza natural, o petróleo, responsável por 25% do PIB. O país é o maior produtor da Europa. Em 2008, graças aos preços recordes atingidos pelo barril, as receitas somaram 68 mil milhões de dólares. O dinheiro do petróleo é gerido sob a forma de um fundo soberano, o Government Pension Fund, que hoje possui activos avaliados em quase 400 mil milhões de dólares, o equivalente ao PIB da Noruega no ano passado.

Boa utilização das receitas do petróleo

É graças a essa enorme poupança que hoje o governo pode aumentar os gastos públicos para estimular a economia sem armar uma armadilha para o futuro. No início deste ano, o governo anunciou um pacote de estímulo fiscal de 2,9 mil milhões de dólares que inclui investimentos extras em infra-estruturas e isenção de impostos para o sector privado. Pouco tempo depois, foi lançado outro plano de ajuda de 15 mil milhões de dólares para aumentar a liquidez dos bancos e fornecer novas linhas de crédito às empresas e empresários.

No orçamento deste ano o governo previu um gasto adicional de 1,5 mil milhões de dólares para evitar um aumento do desemprego — as piores previsões mostram que a taxa pode chegar a 4%.

“O rendimento do petróleo tem dado ao governo norueguês uma liberdade de acção na gestão desta crise que os outros países europeus não têm”, diz o economista norueguês Einar Hope. A palavra de ordem na administração do fundo soberano tem sido a frugalidade. O governo instituiu o limite de 4% do valor do fundo para os saques que visem equilibrar as contas públicas e a cobrir os défices orçamentais.

Até metade do século passado, a Noruega era uma pobre nação de pescadores que lutavam contra o frio do Árctico. No século xiv, metade da sua população foi dizimada pela peste negra. Foi só com a descoberta de petróleo no mar do Norte, no fim dos anos 60, que a Noruega começou a trilhar o caminho que a transformaria num dos países mais ricos e prósperos do mundo. O seu PIB per capita, de 95 mil dólares, está entre os maiores do planeta, e a riqueza encontra-se distribuída de modo igualitário. O IDH, o índice da ONU para medir o padrão de desenvolvimento dos países, é o segundo melhor do mundo.

A Noruega tem investido cada vez mais em energias alternativas, como a eólica. Os reflexos do progresso podem ser vistos em Stavanger, cidade no Sudoeste do país, sede da gigante do petróleo StatoilHydro, cujo controlo accionista pertence ao governo norueguês, e em Oslo, a capital. Com mais de 500 mil habitantes, Oslo é uma cidade moderna e cosmopolita, com um padrão de vida que se tornou uma referência para o resto do mundo. Um padrão que mesmo a pior crise desde há várias décadas não conseguiu modificar.

  Os vikings da economia
 

A Noruega também está a sofrer o impacte da crise global, embora numa escala bem menor do que os outros países da Europa.

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Por: Tatiana Gianini   Fotografia: AFP
 
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