Edição nº 2
 

Investimento

O que reluz é mesmo ouro

Publicado a 08-02-2010 10:04:00

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O ouro representa apenas uma pequena parcela do investimento mundial. Mas, este ano, os profissionais têm apostado forte no metal amarelo como uma forma de protecção dos seus investimentos. “Eu nunca fui um adorador do ouro. É um activo que, tal como tudo o resto na vida, tem o seu tempo e o seu lugar. Agora, não restam dúvidas, é o seu tempo”, revela Paul Tudor Jones, presidente da gigantesca sociedade gestora Tudor Investment. O especialista tem vindo a construir a sua carteira de investimentos em ouro e outros metais preciosos.

“Em 20 anos, não me lembro de haver tantos investidores respeitados concentrados numa única estratégia: o ouro. Algumas dessas pessoas são ícones da indústria”, confessou Bradley Alford, responsável pela sociedade gestora de hedge funds Alpha Capital Management. As companhias de seguros também estão a reforçar as suas posições no metal dourado. “Um número surpreendente de investidores com sangue-frio está a tornar-se adorador do ouro”, revela Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research. “Estão a começar a dar mais atenção àquilo que, por muito tempo, consideraram um investimento para lunáticos.” A verdade é que a onça de ouro tornou-se no objecto mais desejado por investidores e consumidores dos quatro cantos do globo.

No último triénio, enquanto as acções registaram uma correcção média na ordem dos dois dígitos, a onça de ouro alcançou uma valorização de 83% nos mercados internacionais. “Há uma grande confusão e nenhum investimento seguro, excepto no paraíso que é o ouro”, revela Afshin Nabavi, vice-presidente da MKS Finance.

Procura sobe, oferta desce, preço sobe

Segundo o último relatório trimestral do World Gold Council, publicado a 19 de Novembro de 2009, o volume da procura total de ouro no terceiro trimestre deste ano ficou-se pelas 800 toneladas, 34% abaixo dos níveis registados no mesmo período em 2008, mas acima dos valores do segundo trimestre. Paralelamente, o preço da onça de ouro sofreu um incremento de 10% até Novembro de 2009 face ao valor médio do período homólogo do ano anterior.

Quanto à oferta, a associação da indústria de empresas de mineração mundial revela que houve uma contracção de 5% no terceiro trimestre de 2009 causada, sobretudo, pelo comportamento dos bancos centrais que passaram de vendas líquidas de 77 toneladas, no terceiro trimestre de 2008, para compras líquidas de 15 toneladas, no terceiro trimestre de 2009. Observando os últimos quatro anos chega-se à mesma conclusão: enquanto a procura aumentou 2,1%, a oferta sofreu uma queda superior a 10%. O consumo de ouro cresceu duas vezes mais do que o ritmo da sua extracção, o que explica a valorização do activo.

Não é por isso de estranhar que o preço da onça tenha passado de 427 dólares, no início de 2005, para os actuais 1141 por onça. Para os especialistas, a procura pelo metal precioso, nomeadamente por parte dos países emergentes — China, Índia, Rússia e Turquia — não deverá abrandar. Aliás, segundo o último relatório do World Gold Council, apesar de o preço da onça poder aumentar no futuro próximo, as estimativas para as vendas de artigos de joalharia no mercado chinês permanecem positivas.

Na Índia, Turquia e Médio Oriente a tendência de subida do preço está a actuar como uma barreira ao investimento, mas em algumas partes do continente asiático, incluindo a China, o aumento do preço do ouro é visto como um factor positivo porque “os consumidores gostam de comprar quando o preço está a subir”. Nos países ocidentais, pelo contrário, o World Gold Council considera que a procura poderá continuar a descer.

Bancos centrais trocam dólares por ouro

Em meados de 2008, quando a onça estava a ser negociada em Nova Iorque a 922 dólares, Evy Hambro, gestor do fundo BlackRock World Mining, dizia que os picos no preço do ouro estavam a ser impulsionados pela procura de investidores que procuravam um refúgio contra os mercados turbulentos, a inflação e o dólar fraco.

Hoje, com a economia mundial envolvida num mar de incertezas e o ouro a cotar bem acima dos 1000 dólares, o especialista do BlackRock diz que “os investidores dão mais atenção ao ouro como uma forma de diversificar o risco”. Isso acontece sobretudo com as autoridades monetárias. “Muitos bancos centrais querem diversificar as reservas em dólares e substituí-las por ouro”, comentou Ben Westmore, analista do National Australia Bank, à Bloomberg.

Tais declarações foram proferidas na altura (Novembro de 2009) em que foi tornada pública a compra de 10 toneladas de ouro (no valor de 375 milhões de dólares) ao Fundo Monetário Internacional por parte do Sri Lanka (algo que a Índia, a Rússia e as Maurícias já tinham feito).

Reservas de Angola em dólares, não ouro

Do lado das reservas, países como os Estados Unidos, Alemanha, Itália, França e Portugal têm actualmente mais de dois terços das suas reservas internacionais investidas em ouro. Situação bem diferente da maioria dos países, nomeadamente de Angola, que faz do dólar o activo maioritário das suas reservas.

Martin Murenbeeld, economista do banco de investimento canadiano Dundee Wealth que, em 2008, previa que o ouro chegaria aos 1200 dólares até ao final de 2009, define o metal preciso como “a única moeda que um banco central não consegue imprimir.” Os metais preciosos, como a platina e o ouro, são encarados pelos investidores como activos de refúgio para enfrentarem tempos de crise. Permitem-lhes protegerem-se tanto do efeito corrosivo da inflação como da desvalorização do dólar. Como são cotados em dólares, ambos os metais sobem sempre que o valor da moeda norte-americana resvala. Do mesmo modo, durante os períodos de expansão económica, a procura por onças de ouro e por platina tende a aumentar. Em consequência, o seu preço também aumenta.

Durante a década de 70, por exemplo, quando o mundo viveu um período de estagflação — fenómeno que conjuga inflação alta com estagnação do crescimento económico —, a corrida ao ouro foi de tal forma desenfreada que provocou uma bolha no preço do activo. A razão foi simples: o ouro foi e continua a ser um dos activos mais resistentes à inflação. Quando os preços sobem de forma generalizada, as moedas tendem a desvalorizar, enquanto o metal precioso ganha valor. Por isso é que, em termos históricos, o ouro apresenta uma correlação negativa com os mercados accionistas. Ou seja, quando as acções iniciam um processo de arrefecimento, o ouro é uma boa opção para quem se quer proteger dos soluços do mercado.

Apesar da economia global estar ainda longe deste cenário, o BlackRock estima que os próximos quatro anos vão ser marcados por uma quebra da produção aurífera entre 10% e 15%, que deverá ser acompanhada por uma contínua subida dos preços da onça. De acordo com as últimas estimativas, se há dois anos o investimento em ouro representava 25% da procura total, nos primeiros três meses do ano, esse valor já era superior a 60% do mercado. Seja num dente, ao pescoço, em barras ou em moedas, o ouro continua a ser símbolo de riqueza. O mercado aurífero transformou-se numa bóia de salvação para manter à tona as economias de muitos países e as carteiras de milhares de especuladores.

 

O que faz mexer a onça de ouro
São três os principais factores que influenciam o preço do metal precioso.

Política monetária
Quando a política monetária é expansiva, o metal ganha valor, como aconteceu em 1970. Quando é contractiva, o preço do ouro desce, tal como aconteceu em 1980. Actualmente, com o plano de salvação lançado ao sector financeiro norte-americano e as avultadas injecções de capital no mercado, a política monetária dos Estados Unidos está num nível de expansão nunca antes visto. Por isso é que o ouro continua a subir.

Procura e oferta mundial
Na maioria das matérias-primas, os aumentos do preço têm efeitos na procura e na oferta. No petróleo, por exemplo, um aumento de 10% no preço provoca a diminuição da procura entre 1% e 1,5%. Como o “ouro negro” é cotado em dólares, quando a moeda perde valor, a OPEP tende a reduzir a oferta de petróleo para manter a sua receita estável.
Porém, se o mercado está a ser inundado de dólares – que terá como possível consequência a sua desvalorização face a outras moedas –, a única direcção possível para o preço da onça é a subida.

Valor da inflação
Se o preço do ouro tivesse aumentado à mesma taxa anual do que as reservas mundiais de dólares desde 1997, o metal dourado estaria hoje a cotar 1280 dólares. Mesmo assim, continuaria bem longe dos 2200 dólares, a preços de hoje, a que se chegou em Janeiro de 1980. Actualmente, há uma componente especulativa que não existia há dez anos. Além disso, há que ter em consideração o peso da inflação.
De acordo com alguns especialistas, o preço de 1167 dólares a que fechou a onça no mês de Novembro de 2009 até será um valor conservador, porque o máximo histórico ajustado pela inflação está mais perto dos 1700 dólares.

 

Mapa interactivo sobre o ouro no mundoPor: Miguel Cruz   Fotografia: Mapa por Géraldine Correia
 


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