Mundial 2010
De todas as casas de espectáculos construídas pelo homem, nenhuma iguala a história de êxito do Coliseu de Roma. Inaugurado no final do século i, foi palco dos mais variados eventos — desde as peças de teatro aos duelos de gladiadores — sempre com a lotação (50 mil espectadores) esgotada. A hegemonia do Coliseu como centro do entretenimento romano durou mais de cinco séculos. Durante a era medieval a estrutura não ficou inutilizada. Serviu de moradia, de templo, de prisão e até de cemitério. Por fim, entrou para a história como um dos maiores símbolos do Império Romano. Apesar de tantas glórias, o Coliseu não rendeu ao Império um único sestércio, a menos valiosa das moedas romanas. Ao contrário, custava uma fortuna ao orçamento, já que os cidadãos assistiam de graça aos espectáculos.
Passados 20 séculos, o homem mantém o hábito de construir estádios. Muitos princípios bá- sicos da sua arquitectura — como o desenho das bancadas ou o posicionamento do palco central — são iguais aos da Antiguidade. Hoje, os gladiadores deram lugar ao fair play e assistir aos jogos, ao vivo, passou a ser um “desporto” para ricos. Mas, em pleno século xxi, ainda lutamos para tornar o estádio um empreendimento interessante para o espectador e rentável para os proprietários. Não faltam pistas sobre como poderá ser o estádio ideal do futuro.
Palco da abertura do Campeonato do Mundo da Alemanha em 2006, o Allianz Arena, de Munique, é um desses exemplos. O novo estádio do Bayern foi muito além das exigências da FIFA para sediar o evento. A comodidade começa fora do estádio. Além de ter uma estação de metro a poucos metros da entrada principal, alberga o maior parque de estacionamento da Europa. Do lado de dentro, tem assentos confortáveis e bancadas próximas do relvado que proporcionam uma visão completa do campo. Todos os lugares são numerados e cobertos. Imagens em câmara lenta dos principais momentos da partida podem ser acompanhados em ecrãs gigantes, à maneira dos jogos de basquetebol da NBA. Um potente sistema de som comemora ruidosamente os golos, anuncia as substituições e anima o público durante o intervalo. Projectado para aproveitar a luz natural e captar a água das chuvas, o Allianz Arena segue as regras de sustentabilidade ambiental exigidas pela FIFA.
“Conheço quase todos os estádios do mundo e nunca vi nenhum como este”, diz Franz Beckenbauer, o eterno kaiser (imperador) do futebol alemão. “Em tempos de pay-per-view — em que não é fácil convencer o espectador a trocar o sofá por um lugar na bancada — o Allianz Arena representa uma nova concepção de eventos desportivos. Apesar de o clube alemão não estar hoje no topo da Europa, a média de lotação dos jogos no novo estádio é de cerca de 100%. Os camarotes estão esgotados para os próximos dois anos. Em 2008, a facturação foi de 59 milhões de dólares, valor mais do que suficiente para suportar os custos operativos e de manutenção.
A questão central diz respeito à sustentabilidade financeira do empreendimento. O Emirates Stadium, estádio privado que pertence ao Arsenal, da primeira divisão inglesa, é um dos mais avançados e rentáveis do mundo. Inaugurado há três anos, factura 92 milhões de dólares. O “efeito Emirates” é o principal suporte dos lucros do Arsenal, que passou de 26 milhões de dólares, em 2006, para 74 milhões, em 2009. Ceder o direito da denominação do estádio por 15 anos e do patrocínio à camisola do clube por oito anos, rendeu 95 milhões de dólares.
No entanto, a principal fonte de receita do estádio são os dias de jogos. Os bilhetes são apenas uma parte. “Um estádio moderno não depende apenas da bilheteira. É preciso oferecer uma vasta gama de serviços para que o espectador deixe mais dinheiro lá dentro”, diz Amir Sornoggi, da consultora Crowe Horwath RCS. No complexo do Emirates há 250 bares e quiosques. Em dia de jogo, o restaurante serve 5 mil refeições. A Armoury Shop, com 1000 metros quadrados, é uma das maiores lojas de desporto do mundo. Dos 60 mil lugares do estádio, 7 mil são premium e há 150 camarotes executivos, bancadas para empresas, etc. A gama de serviços inclui o Arsenal Experience, serviço vip em que o espectador é recebido por um jogador da equipa, tira fotos com o ídolo e ganha uma bola oficial autografada.
Outra proposta de modelo económico sustentável é o conceito de “arena multiusos”. A ideia é criar estruturas flexíveis, que também possam ser utilizadas para receber shows, congressos, convenções de empresas ou até festas de casamento. O Veltins Arena, estádio privado do Schalke 04, é um dos maiores exemplos dessa tendência. Inaugurado em 2003, recebe em média 40 eventos por ano, para além dos jogos do clube. Em Angola, espera-se que os novos estádios proporcionem o mesmo fascínio que os antigos romanos tinham pelo Coliseu, sem causar o mesmo estrago aos cofres públicos.

O célebre projecto sediado no Waku Kungo “renasceu” em Outubro de 2012 e já é o maior produtor de ovos