Futebol Can 2010
A caminhada da selecção nacional até ao CAN não foi isenta de espinhos. Após o afastamento do técnico Oliveira Gonçalves, o herói do Mundial da Alemanha de 2006, foi nomeado o adjunto Mabi de Almeida. Mas a série de maus resultados e exibições pouco conseguidas provaram, mais uma vez, que “santos da casa não fazem milagres”. O eleito para o substituir foi o português Manuel José, técnico consagrado, quatro vezes campeão africano ao serviço dos egípcios do Al-Ahly.
Dono de uma personalidade forte, o seleccionador nacional teve tudo o que queria: um bom salário (216 mil dólares por mês), autonomia de decisões (de que é exemplo, o corajoso afastamento temporário de Manucho por questões disciplinares), uma equipa técnica alargada (escolhida por ele), um plano de preparação ambicioso com vários estágios no Algarve.
Não obstante os resultados desportivos foram tão cinzentos quanto o estado do clima no Sul de Portugal. Sentia-se, porém, que o experiente técnico sabia o que estava fazer. Numa selecção onde as “estrelas” não abundavam, Manuel José montou um colectivo forte, assente numa defesa sólida, no meio-campo musculado e no ataque pelas alas com cruzamentos para a dupla temível de pontas-de-lança: Flávio e Manucho.
No campo das estatísticas Angola entrou no CAN com tudo contra si. Nunca ganhou um título africano e, no ranking da FIFA de 2009, era a segunda selecção com o pior palmarés em prova (depois do Malawi). No entanto, a equipa, muito apoiada pelo público, surgiu em campo para o jogo de abertura sem complexos, altamente personalizada, com uma excelente atitude competitiva e, sobretudo, a praticar bom futebol.
Uma boa forma para “arrendondar” os salários que não são altos — pelo menos para quem joga em Angola. Embora os números do futebol sejam um “segredo guardado a sete chaves” diz-se que, em média, os ordenados dos jogadores que actuam no Girabola oscilam entre 6 mil e 30 mil dólares. Para se ter uma ideia mais precisa, Dias Caíres, do Inter, um dos jogadores menos utilizados por Manuel José, deverá ter um salário no limite inferior. Ao passo que o ordenado do artilheiro Love, do 1.º de Agosto, deverá estar no limite superior. Mas existem outras “ajudas” a ter em conta tais como casas, carros, seguros e educação dos filhos.
Os “estrangeiros” têm um estatuto à parte. Segundo o site alemão TransferMarkt, Manucho, avançado do Valladolid, da primeira Liga espanhola, e Djalma, do Marítimo, em Portugal, são os mais disputados com um valor de passe avaliado em 3,7 milhões de dólares. Seguem-se os avançados Mantorras (2,4 milhões) do Benfica (Portugal) e Flávio (2,3 milhões) do Al-Shabbab (Arábia Saudita). Na quinta posição está o médio Gilberto, um dos esteios dos Palancas Negras (1,7 milhões), que joga no Al-Alhy (Egipto), o antigo clube de Manuel José. Ausente (por enquanto) desta lista, mas com um futuro promissor, está o jovem extremo Job, do Petro de Luanda, o ídolo do último Girabola.

São valores elevados, mas longínquos de outras estrelas africanas. Segundo o mesmo site os cinco mais valiosos são Samuel Eto’o (Camarões), Didier Drogba (Costa do Marfim), Michael Essien (Gana), Yaya Touré (Costa do Marfim) e Emmanuel Adebayor (Togo). Muitos outros passeiam o talento pelos melhores estádios do mundo caso de Obafemi Martins (Nigéria), Mohamed Zidan (Egipto), Frédéric Kanouté (Mali), Seydou Keita (Mali), Kolo Touré (Costa do Marfim), Idriss Kameni (Camarões), Kanu (Nigéria) e Alexandre Song (Camarões).
Todavia, no ranking mundial dos 50 jogadores mais bem pagos do site Futebol Finance (relativo à época de 2008-2009) verificamos que apenas Samuel Eto’o (na altura no Barcelona, hoje no Inter) está na lista dos dez primeiros (em sétimo) com um salário mensal de 625 mil dólares. Constam ainda da lista Frédéric Kanouté, do Sevilha (17.º) com um salário de 716 mil dólares, e Didier Drogba, do Chelsea (40.º) que aufere 405 mil por mês.
No entanto, se somarmos ao salário as receitas de publicidade, o avançado do Chelsea, Drogba, salta para o 15.º lugar da lista (sendo o único africano nos 20 primeiros), com um rendimento anual de 15,4 milhões de dólares. Este ranking é liderado pelo britânico David Beckham, ex- -ACMilan (46,5 milhões), seguido pelo argentino Lionel Messi, do Barcelona (41 milhões) e pelo brasileiro Ronaldinho Gaúcho, do ACMilan (19,6 milhões).
Didier Drogba também está na lista das 20 maiores transferências de sempre da France Football. Ocupa o 20.º lugar relativo à troca do Marselha pelo Chelsea, em 2004, por 52 milhões de dólares. Em 2005, outro africano, Essien (14.º lugar), mudou- -se do Lyon para o Chelsea, por 55 milhões.

A lista é liderada pelo português Cristiano Ronaldo que, em 2009, migrou do Manchester United para o Real Madrid, por 135 milhões de dólares. Seguem-se Zidane (2001), Kaká (2009), Luís Figo (2000) e Crespo (2000).
Os dois treinadores mais bem pagos (valores de 2009) falam português. A lista do jornal espanhol Sport é liderada pelo brasileiro Luiz Filipe Scolari, técnico do Bunyodkor (Azerbeijão) que ganha 23,8 milhões de dólares por ano. Seguem-se José Mourinho, do Inter, com o salário de 16,2 milhões, e o italiano Fábio Capello, treinador da selecção inglesa com 12,6 milhões.
Capello é aliás, segundo o Finance Futebol, o treinador mais bem pago entre todos os que vão participar no Mundial de 2010. Seguem-se Marcelo Lippi, de Itália, e Joachim Low, da Alemanha. Entre os que actuam no continente africano Paul le Guen (Camarões) é o que mais recebe (16.º lugar). Seguem-se os treinadores da Costa do Marfim, Gana e Nigéria (o mais mal pago – 180 mil dólares/ano – entre os 32).

De referir que o português Carlos Queiroz, ocupa o “honroso” sétimo lugar com um salário anual de 2 milhões de dólares. Este é, ao que se diz, o salário aproximado de Manuel José, considerado um treinador caro para os cofres da Federação Angolana de Futebol. Claro que se trata de um contrato de apenas nove meses para uma missão especial: pegar numa equipa em crise anímica, e de resultados, de modo a assegurar uma presença digna na competição que Angola organiza em casa.
Em qualquer cenário os rumores que correm nos bastidores da selecção dão conta que o contrato de Manuel José poderá não ser renovado e que o referido Paul le Guen, o francês que orienta a selecção dos Camarões, é o treinador mais bem posicionado para a sucessão. Claro que, como é normal em futebol, tudo dependerá dos números e, sobretudo, dos resultados. E quanto a isso “qualquer prognóstico”, como disse um dia um famoso futebolista, “só mesmo no fim do jogo”.

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