Futebol CAN2010
Enquanto o Estado investiu fortemente em infra-estruturas como os estádios, estradas, saúde, aeroportos, distribuição de energia e captação de água; os privados investiram, sobretudo, na hotelaria, restauração e áreas comerciais.
Infelizmente, nem todos os projectos ficaram prontos a tempo. As causas foram várias: a crise financeira mundial, o estrangulamento dos portos ou o elevado custo de matérias-primas como o cimento. De qualquer modo, em termos qualitativos, foram inaugurados o primeiro hotel de cinco estrelas em Talatona, e o maior centro de congressos do país, em Belas. Tais edifícios darão uma ajuda preciosa ao turismo de negócios.
A estratégia do Governo vai na mesma direcção. O ministro da Hotelaria e Turismo, Pedro Mutindi, anunciou, no final do ano passado, que existe um plano de construção de 30 novos hotéis de luxo até 2012. E o ministro das Obras Publicas, Higino Carneiro disse, antes do CAN, que os privados iriam investir 1000 milhões de dólares na construção de 100 hotéis. Dessa centena, apenas 30 foram efectivamente inaugurados antes da competição, estando 60 ainda em construção. São números importantes. Mas não são suficientes para resolver o problema estrutural da escassez de oferta de camas, face à pressão da procura, que faz com que os preços das dormidas atinjam preços exorbitantes.
Segundo os dados do Ministério da Hotelaria e Turismo relativos a 2008, Angola tem 2541 estabelecimentos hoteleiros, dos quais 81 hotéis, 359 pensões, 11 aldeamentos turísticos, 5 aparthotéis, 11 complexos, 9 conjuntos turísticos e 7 albergarias. É um número de camas muito inferior ao de outros países africanos como o Quénia, Namíbia ou Moçambique.
Entre as inaugurações mais recentes destacam-se, em Luanda, o Hotel Talatona (cinco estrelas), o Skyna e o Praia Mar (quatro estrelas), o Escola, o GRN, o Florença (três estrelas). Em Huíla as inaugurações do ano foram o Chela (quatro estrelas), o Primor e o Novo Hotel (três estrelas). Em Cabinda, o Chiazi (três estrelas). E, em Benguela, o Praia Morena (três estrelas).
Alguns destes hotéis tiveram a sorte de alojar as comitivas das selecções presentes no CAN (veja caixa “O CAN da hotelaria”). O complexo hoteleiro Calor Tropical, localizado na Samba, foi aberto apenas para servir de quartel-general aos Palancas Negras. “Não é todos os dias que se recebe uma delegação tão importante, num momento especial para a história do país. Procurámos dar um toque caseiro ao resort e proporcionar momentos de tranquilidade e descontracção aos atletas”, disse à EXAME o gestor da casa, Duarte Gomes.
Acordar com o mar no horizonte, em plena capital, é um dos trunfos do Calor Tropical. A piscina, os desportos náuticos e as esplanadas engordam as opções deste resort com um design exótico que faz lembrar as ilhas das Caraíbas. O Calor Tropical emprega 68 funcionários e oferece 43 quartos. Os atletas foram distribuídos por 3 suites juniores, 8 quartos duplos e 32 singles. O resort inclui um auditório com 64 lugares onde o técnico Manuel José fez as suas palestras.
Mas não foram apenas os nossos craques que tiveram direito a estrear um hotel. A polícia nacional também entrou no campeonato da hotelaria com uma unidade de três estrelas. Situada no município da Maianga, o Hotel Celeste é, decerto, o “mais seguro” do CAN.
Gerido por uma entidade privada — a Luso Restauração —, tem 26 quartos e 3 suites, restaurante, sala para reuniões, piscina, lavandaria e ginásio, serviços acessíveis a quem não está hospedado. Embora seja propriedade da polícia, o hotel, que emprega 41 funcionários nacionais, “vai estar disponível para o público em geral”, assegura a directora Jilma Octávio. Uma noite num quarto individual custa 350 dólares, no duplo terá de pagar 380 e a suite fica pelos 550. Considerando o custo de vida em Luanda, não é caso para chamar a polícia.
O Hotel Continental, no coração de Luanda, foi escolhido para albergar a selecção da Argélia, que Angola defrontou no último jogo do seu grupo. Das unidades hoteleiras que a EXAME visitou este foi o que mais “caprichou” na decoração inspirada no futebol. A delegação argelina, que ocupou dois pisos, coloriu ainda mais o hotel com tons verdes, brancos e vermelhos. Sónia Cunha, directora da unidade hoteleira confessa que teve de se adaptar a algumas exigências dos atletas magrebinos relacionados com a alimentação e o isolamento.
A euforia do CAN não contagiou apenas os hotéis que hospedaram as selecções. O Hotel Loanda, por exemplo, usou a gastronomia para atrair visitantes. Helt Araújo, o chef de cozinha, aproveitou a experiência adquirida em restaurantes como o espanhol El Buli, para apresentar “algumas inovações culinárias com base em produtos típicos da terra”. Em Cabinda, o complexo de Cabassango, que albergou as selecções da Costa do Marfim, Burkina Faso e Gana, foi rebaptizado como “Vila do CAN”. Já o complexo do Buco Ngoio, de 250 moradias, serviu para hospedar as delegações oficiais e os jornalistas. Outros como o Maiombe, Pôr do Sol, Simulambuco, Congresso e Chiazi, também registaram um aumento de ocupação. Em Benguela, o Términus, o Navegantes, o Luso, o Praia Morena e o Tropicana receberam selecções. O reinaugurado Monbaka e o histórico Restinga foram outras opções. Em Huíla o novo Serra da Estrela, um investimento de 37 milhões de dólares, albergou duas selecções. As restantes ficaram no Grande Hotel, Casper Lodge, Amigo, Palanca Negra e Ivone Lar.
O CAN fez também explodir os negócios associados aos patrocínios, marketing e publicidade. A título de exemplo, o banco BFA contratou Lesliana Pereira e Paulo Flores para serem o rosto dos seus outdoors. O capitão Kaly deu a “cara” pelo BAI. O BIC anunciou que iria oferecer 1 milhão de dólares à selecção se esta vencer o CAN. A Unitel, patrocinadora oficial da selecção, criou um hino de apoio e ofereceu bandeiras nacionais para colocar nos automóveis. A ENSA, seguradora dos Palancas, divulgou o facto nos anúncios de imprensa.
No jogo do merchandising a Criacom Comunicação e Imagem, jogou ao ataque e venceu o desafio. No ano passado, chegou a acordo com o COCAN para ser o parceiro oficial para a divulgação do torneio. Os atrasos deitaram tudo a perder. “A vontade de encher o país com produtos oficiais era grande. Por isso planificámos um investimento de 28 milhões de dólares que, todavia, não foi concretizado”, esclareceu Henrique da Rocha Santos administrador da Criacom, à EXAME.
A CAF e a Adidas apresentaram no dia 22 de Dezembro, no Egipto, a Jabulani, a bola oficial do CAN 2010. Segundo os autores, o seu desenho “colorido e místico” foi inspirado no amarelo, vermelho e preto da bandeira nacional. Jabulani, em zulu (da África do Sul) significa celebrar.
O ícone mais representativo da Comissão de Organização do CAN é o estádio (palco do evento) e à bola. Segundo os autores, o padrão cromático utilizado representa as cores da bandeira nacional ao passo que o verde está associado à relva do futebol e aos campos de Angola.
Foi escolhida a Palanca Negra Gigante, símbolo da fauna nacional por ser uma espécie única no mundo. A “Palanquinha”, tem um sorriso nos lábios e está equipada com as cores de Angola.
As restantes cores, o verde e o castanho, simbolizam a terra e o continente africano.
Grupo organizado de adeptos que se comprometeu a mobilizar 42 mil fãs nas quatro cidades-sede. Em troca beneficiaram de transporte até aos estádios e ajuda de alimentação. Receberam do ministro do Interior, Roberto Leal Monteiro “Ngongo”, 40 mil camisolas, chapéus e cachecóis.
Em alternativa, com o investimento de 2 milhões de dólares, a Criacom recorreu à ajuda de parceiros internacionais. A loja oficial do CAN, junto ao cinema do Belas Shopping, disponibilizou ao público inúmeros artigos de merchandising tais como os chapéus, canetas, pólos e cachecóis. As crianças tiveram direito a um kit especial para pintarem uma T-shirt ao seu gosto. Ficou infelizmente de fora as réplicas dos equipamentos. “Contactámos algumas federações e as respostas não satisfizeram os nossos objectivos de colocar os equipamentos no mercado a baixo custo”, justifica. Em contrapartida, com o apoio da Panini, a maior empresa do mundo em colecções de cromos, foi criada uma colecção das 16 selecções. O sucesso da iniciativa levou a Criacom a desenvolver uma nova colecção dedicada Mundial da África do Sul que incluirá a oferta de miniaturas das estrelas. A Criacom, com o auxílio de agentes licenciados, procurou colorir o país com materiais alusivos ao CAN. “Independentemente dos resultados da selecção queremos levar a alegria, o patriotismo e o gosto pelo futebol a todo país”, diz Henrique Rocha Santos, que, fora das quatro linhas, procurou vencer as adversidades e jogar à campeão. Tal como os Palancas, afinal.

Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.