Global África
O Ruanda parece o país mais improvável do mundo para se transformar num pólo internacional de investimentos. Está localizado numa das regiões mais pobres do planeta (África Subsariana), tem apenas 11 milhões de habitantes (pouco menos do que a população de Angola) e foi palco, nos anos 90, de um dos maiores e mais brutais genocídios da história, com um saldo de 1 milhão de mortes em apenas 100 dias.
Apesar disso, um grupo formado por grandes empresários e políticos influentes dos Estados Unidos e da Europa está a apoiar o país, atraindo negócios e ajudando o seu processo de reconstrução.
A “equipa dos amigos poderosos do Ruanda” inclui figuras como Eric Schmidt, presidente mundial da Google; Howard Schultz, director executivo e fundador da rede de lojas de café Starbucks, e Tony Blair, ex-primeiro-ministro de Inglaterra. Um dos objectivos deste grupo é fazer com que a economia da nação – baseada na agricultura de subsistência e no cultivo de café e de chá – se transforme num centro de referência para os serviços de tecnologia no continente africano.
“Nós já passámos pelo inferno, agora chegou a hora de prosperar”, afirmou o Presidente do Ruanda, Paul Kagame, numa entrevista recente à revista Fast Company.
A rede internacional de ajuda começou a ser formada há dois anos. Numa visita a Chicago, nos Estados Unidos, Paul Kagame conheceu Dan Cooper, sócio do banco Fox River Financial Resources, que o apresentou a Jim Sinegal, director executivo da cadeia de distribuição Costco. Este, por sua vez, pôs Paul Kagame em contacto com Howard Schultz, da Starbucks. O líder africano convenceu vários amigos a investir no Ruanda e a mudar a imagem internacional do país, associada à miséria e à violência. Em 2007, quando o auxílio começou a chegar, os investimentos estrangeiros no Ruanda passaram de 16 milhões de dólares para 67 milhões.
A Starbucks é hoje uma das maiores compradoras de café do Ruanda (veja caixa). Mas há outros exemplos. A ONG de Schmidt, da Google, iniciou a construção de um hospital que custará 1,2 milhões de dólares. Rob Glaser, fundador e presidente da RealNetworks, investiu 6 milhões de dólares em centros de saúde e educação no Ruanda com o objectivo de criar cursos técnicos especializados em tecnologia de informação. Nessa área, também se incluem a bolsa de estudos criada por Dale Daeson, um banqueiro do Arkansas, para levar os alunos ruandeses para escolas nos Estados Unidos. Há ainda um programa de intercâmbio estabelecido por Tony Blair para que funcionários do Whitehall (escritório do primeiro-ministro inglês) e o gabinete de Kagame troquem experiências, ajudando a modernizar a gestão pública ruandesa.
O esforço de reconstrução está apenas no início. Apesar do Ruanda, manter um ritmo de crescimento económico de 6%, nos últimos três anos, o rendimento per capita é ainda de 320 dólares, o que coloca o país na 194.ª posição no ranking do Banco Mundial, que avalia o desempenho de 208 países através desse indicador. O governo quer quadruplicar o rendimento per capita até 2020. “O sector privado será o novo motor económico do Ruanda”, afirmou recentemente a ministra do Comércio, Monique Nsanzabaganwa, numa entrevista à imprensa internacional.
A história da liderança de Paul Kagame no actual processo de reconstrução é um bom exemplo do passado tumultuoso e das contradições do Ruanda. Após mais de uma década de exílio no Uganda, Kagame voltou ao país como líder da guerrilha rebelde Frente Patriótica Ruandesa, que expulsou do poder, em 1994, o ditador Milton Obote. Kagame foi eleito Presidente em 2000, por voto indirecto, e já está no segundo mandato, que vai até 2014. Não há um prazo definido para o reestabelecimento da democracia e o governo ainda controla a liberdade de imprensa.
Os históricos conflitos entre as principais etnias – responsáveis pela onda de violência que destruiu o país – ainda não foram apaziguados. No genocídio de 1994, os hutus massacraram os tutsis. Kagame, que pertence à etnia hutu, tem feito esforços para reintegrar a população. “Mudar a reputação de um país associado a guerras é fundamental para a continuidade do processo de reconstrução económica”, disse à EXAME o economista Jean-Louis Warnholz, professor em Oxford, do Centro de Estudos das Economias Africanas.
Por: Tiago Maranhão Fotografia:Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.