Global Ásia
Li Yang é uma das celebridades do momento na China. Sobre o palco, diante de plateias que podem chegar até às 30 mil pessoas, ele não canta, nem toca qualquer instrumento: ensina Inglês. Li é o fundador da rede de escolas de línguas Crazy English.
Sem jamais ter estudado inglês fora da China, o engenheiro de formação descobriu a sua vocação quando se preparava para um teste obrigatório sobre a língua britânica na faculdade. Desde então, começou a dar aulas através do seu método peculiar para grupos cada vez maiores.
Hoje, aos 40 anos, é conhecido por “Elvis do Inglês” e já vendeu milhões de livros. O professor dá as suas aulas em acampamentos, ginásios e estádios de futebol, sempre com lotação esgotada, gritando citações emotivas e nacionalistas contidas em livros erguidos pela multidão.
A cena faz lembrar os tempos da Revolução Cultural. Só que em vez do Livro Vermelho, de Mao, os alunos seguem a “cartilha” de Yang e repetem o mais alto que podem a frases como “conquiste o inglês para tornar a China mais forte”, no idioma de Shakespeare. A Crazy English é o lado mais excêntrico de um fenómeno com proporções gigantescas. Em nenhum outro lugar do planeta o inglês avança tão rapidamente.
A China já ultrapassou — quem diria? — a vizinha Índia em número de pessoas capazes de falar inglês com algum grau de proficiência. Essa é a principal conclusão de um estudo recente encomendado pelo British Council, órgão internacional para a promoção da cultura inglesa, da autoria do professor David Graddol.
A EXAME teve acesso ao seu novo livro, English Next India, ainda não publicado. A obra alerta para o crescimento do investimento chinês na educação e para o facto de o país adicionar cerca de 20 milhões de novos estudantes de Inglês por ano. Embora os números sejam difíceis de precisar, estima-se que a China tenha praticamente duplicado a quantidade de pessoas que fala o idioma nos últimos dez anos. O total são 450 milhões — incluindo quem está nos primeiros passos da aprendizagem.
“A China já compreendeu que falar inglês é uma competência indispensável para a geração que deseja prosperar no século xxi”, diz Graddol. A expansão do inglês na terra do mandarim ganhou fôlego no período em que o país intensificou as suas relações comerciais e o seu protagonismo no palco internacional.
Em 2001, quando o país entrou para a Organização Mundial do Comércio e venceu a disputa para albergar os Jogos Olímpicos de 2008, o governo tornou obrigatório o ensino de Inglês para as crianças a partir dos 9 anos de idade. Em cidades maiores, como Pequim e Xangai, a obrigatoriedade começa logo na escola primária, a partir dos 6 anos.
Para receber os visitantes durante os Jogos Olímpicos de 2008 e a feira internacional Expo 2010, que acontecerá a partir de Maio em Xangai, foram criados programas de formação intensiva em inglês para profissionais do sector do turismo, assim como taxistas, médicos e enfermeiros.
O forte crescimento económico do país também aumentou o número de jovens com poder de compra ávidos por melhorar as suas condições no mercado de trabalho.
Para fazer face a essa procura, a China é hoje um dos terrenos mais férteis para a proliferação de negócios na área da educação. De acordo com a consultoria inglesa Ipsos Mori, há cerca de 50 mil redes de escolas de Inglês na China, um mercado estimado em 4,4 mil milhões de dólares e que cresce cerca de 15% ao ano. Com a introdução do inglês na vida escolar de estudantes cada vez mais jovens, a venda de livros didácticos e de literatura britânica também cresceu.
Estima-se que os títulos em inglês já correspondam a um quinto do total de livros vendidos na China. A New Oriental, de Pequim, a maior rede privada de serviços educacionais do país, é uma das empresas mais dinâmicas. Fundada em 1993, com capital aberto na Bolsa de Nova Iorque, a New Oriental tornou-se uma estrela do mercado. Desde o IPO (oferta inicial de compra), em 2006, as suas acções na Bolsa valorizaram mais de 420%. Avaliada em 3 mil milhões de dólares, facturou 300 milhões em 2009 e recebeu mais de 1,5 milhões de matrículas, a maioria das quais para cursos de Inglês.
A China também está a crescer na frente oposta. Estima-se que já existam 40 milhões de pessoas que dominam o mandarim fora da China, número que deverá crescer com a proliferação dos Institutos Confúcio, criados pelo governo para promover a língua e a cultura chinesas (já existem 300, em 88 países). No entanto, poucos duvidam que o inglês continuará a ser a língua dominante à escala planetária por largos anos.
A verdade é que os países asiáticos estão a formar uma geração de profissionais capaz de competir internacionalmente. “Aprender um idioma global é vital para qualquer nação”, disse à EXAME David Crystal, um dos maiores especialistas em linguística do mundo, autor, entre dezenas de livros, da Enciclopédia Britânica. “Hoje, o inglês domina. Quanto vai durar esse triunfo, ninguém pode prever. Segundo as estatísticas, a China já está na linha da frente do número de falantes de inglês”, alerta.
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