Edição nº 3
 

Moeda

Fim do reinado do dólar

Publicado a 25-03-2010 15:53:00

O fim da circulação do dólar como “segunda moeda” da economia angolana foi decretado pelo Banco Nacional de Angola (BNA). Abraão Pio dos Santos Gourgel, governador do BNA, sublinha que se pretende “eliminar as fontes de colocação de moeda estrangeira como meio de pagamento e reduzir o grau de dolarização da economia”.

A medida é encarada positivamente pelos agentes económicos, apesar de sublinharem que o Estado deverá começar por dar um exemplo nesta matéria. Segundo eles, “nos contratos figuram os valores em kwanzas, acompanhados com a expressão ‘valor equivalente em dólares’ que deveria desaparecer”.

A tarefa não parece fácil. No ano passado, quando o Governo “secou” a economia de dólares, numa tentativa de controlar as transferências para o estrangeiro no quadro da gestão das reservas internacionais, gerou alguma turbulência entre os agentes económicos. O Estado deixou de fazer pagamentos e as empresas sentiram grandes dificuldades em cumprir os seus compromissos, especialmente os contratos realizados na moeda norte-americana.

Segundo alguns economistas, a medida do BNA poderá traduzir-se na valorização do kwanza.  Em 2009, a depreciação da moeda nacional face ao dólar foi de 18, 9% no mercado oficial, enquanto no paralelo a desvalorização atingiu 25,8%.

A convergência é uma tendência, mas ainda não está conseguida. Apesar de o diferencial entre os dois mercados ter passado de 29%, em Julho, para 6,83%, no final do ano, trata-se de um objectivo que ainda não foi conseguido.


Contas em dólares continuam

O anúncio da nova política de cortes graduais de alimentação de moeda estrangeira para uso na economia nacional, feito pelo governador do BNA, Abraão Gourgel, foi recebido com alguma cautela pelo mercado.

No segundo fórum sobre “Desdolarização da Economia Angolana”, realizado em Dezembro de 2009, Abraão Gourgel procurou descansar os espíritos mais receosos: “Impor a normalidade cambial na nossa economia, não significa restringir liberdades ou não deixar o mercado funcionar, dado que ainda não se dissiparam as nuvens da crise mundial marcada pelas bruscas oscilações da taxa de câmbio e pela escassez de divisas.”

Para este ano o Banco Central angolano prometeu que a liberdade de abertura e movimentação de contas em moeda estrangeira vai continuar a existir.

A par do pagamento de operações de capitais, a moeda estrangeira é comummente utilizada no nosso país. Acredita-se que a crise económica internacional tenha acentuado, sobretudo no segundo semestre de 2009, a procura de moeda estrangeira, que se situava nos 35 milhões de dólares norte-americanos em 2008.

Alves da Rocha, professor universitário, admitiu ser necessário criar condições para a desdolarização da economia, sendo fundamental conhecerem-se as causas deste fenómeno. Adepto da via gradualista, aquele economista defendeu a necessidade de reposição da confiança na moeda nacional, para que exerça cabalmente as funções de comprar, vender e poupar, e diversificação da economia como pré-condições.

Nobre Coutinho, PCA do Banco Sol, igualmente adepto de uma via gradualista, preconizou um maior estreitamento da coordenação das políticas cambial, monetária e fiscal, como via de redução da dolarização da economia. Adepto de uma renumeração mais atractiva dos depósitos a prazo em moeda nacional, Nobre Coutinho, lançou um aviso à navegação: uma economia que ainda depende em 80% de importações tem de ver a questão da desdolarização com ponderação.


Restrições favorecem kinguilas

Já para o economista Lago de Carvalho, quanto maior for a restrição à circulação da moeda estrangeira, mais incha o mercado paralelo dominado pelas kinguilas. “Se alguém precisar de viajar e os bancos não tiverem dinheiro, é óbvio que fará recurso ao mercado paralelo”, considerou.

Lago de Carvalho acredita que a desdolarização em Angola será um processo lento, que irá prolongar-se ao longo do tempo, adiantando mesmo que a sua total concretização “seria um desastre, porque o dólar tem suportado o kwanza e as pessoas usam uma moeda ou outra”. Para a mesma fonte, “reduzir a importância do dólar na economia nacional pelo menos para 25% ou mesmo 20%, seria muito bom, pois 40% de dolarização ainda é muito”.   


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Uma economia ainda depende em 80% das importações tem q ver a questão com ponderação.

Por: Mário Paiva e Francisco Moraes Sarmento
 


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