Capa
O comércio informal sempre teve um peso decisivo no mercado da distribuição de produtos de grande consumo, a par de grupos nacionais como, por exemplo, o grossista Arosfran (em parceria com uma empresa libanesa); redes de supermercados como a Martal ou a Pomobel (veja EXAME n.º 2), que foram recentemente remodeladas, e lojas especializadas como a Casa dos Frescos, rede de produtos premium criada em 1999. Nas grandes superfícies, o destaque vai para o “histórico” Jumbo, hoje gerido pelo grupo Auchan e a Maxi, especializada no mercado grossista, detida pelo grupo Teixeira Duarte Angola. A entrada em cena do grupo sul-africano Shoprite, o maior do continente, em 2003, e do projecto estatal Presild, através das marcas Nosso Super e Poupa Lá, em 2005, deram um impulso importante ao sector. Mas a “segunda revolução” surgiu nos últimos três anos com o nascimento de projectos como o Kero (tema de capa desta edição da EXAME), que lançou em 2009 o maior hipermercado do país, assim como os projectos Mega Cash & Carry e o Alimenta Angola, para o segmento grossista.
Para este ano, está confirmada a entrada da marca portuguesa Continente, do grupo Sonae, e ainda está por lançar o projecto do grupo angolano Score que anunciou a intenção de construir 60 supermercados da insígnia Mel e outras unidades para o mercado grossista (ao que parece com a consultoria do grupo português Jerónimo Martins). É também conhecido o interesse de entrar no mercado de outros colossos internacionais, nomeadamente, o espanhol El Corte Inglés (Espanha) e o grupo Wal-Mart (Estados Unidos), que comprou recentemente a cadeia sul-africana Massmart. Ao que dizem os estudos, Angola ainda tem um enorme potencial de crescimento pelo que haverá espaço para todos.
Mas enquanto tais projectos não se confirmam (o sector é infelizmente pródigo em anúncios de intenções que depois não se concretizam) os operadores actuais vão consolidando posições e dando seguimento a planos de expansão ambiciosos que tornarão mais difícil a tarefa de eventuais novos concorrentes. Conheça melhor esses grupos nacionais e internacionais.
Marcas: Nosso Super, Poupa Lá, Nossa Casa
Origem: Angola
O Programa de Reestruturação Logística e de Distribuição de Produtos Essenciais à População (Presild), criado por um decreto presencial de 2005, visou reformular o quadro legal do comércio, ampliar a oferta de bens essenciais à população e o consumo de produtos nacionais. O programa incluía igualmente a construção de infra-estruturas para o comércio grossista e retalhista (centros logísticos) e acções formação profissional (lojas pedagógicas). Foi no âmbito do Presild que nasceram supermercados de pequena e de média dimensões espalhados por todo o território, caso das insígnias Nosso Super (gerido pela empresa brasileira Odebrecht) e Poupa Lá (inicialmente gerido pelo grupo português GCT, que acabou por falir no seu país de origem, sendo substituído pela Odebrecht). Face aos problemas financeiros com que o projecto se debateu, tem sido especulado na imprensa a eventual privatização, uma hipótese já desmentida pela ministra do Comércio, Idalina Valente. Em declarações à Angop, em Novembro do ano passado, a ministra revelou que as 29 lojas da rede Nosso Super iriam reabrir brevemente e que o Executivo “decidiu manter a posse das infra-estruturas nas mãos do Estado que celebrará um contrato de concessão de exploração com uma entidade privada, preferencialmente o anterior gestor (a Odebrecht), para se evitar o desmembramento da rede e consequente dispersão das lojas”.
Marca: Jumbo
Origem: França
O grupo familiar Auchan foi fundado em 1961, no Norte de França, por Gérard Mulliez, sendo um dos principais grupos de distribuição europeus (veja EXAME n.º 4). Pioneiro no conceito do hipermercado, o grupo iniciou a internacionalização para os mercados contíguos de Espanha, Itália e Portugal. A partir de 1994, o processo intensifica-se com a entrada na Polónia, México, Luxemburgo, Hungria, Estados Unidos, China, Taiwan, Marrocos, Rússia e Roménia. Em 1996, adquire o grupo Pão de Açúcar em Portugal (com 31 lojas das marcas Jumbo e Box) o que permitiu assumir a gestão do hipermercado Jumbo de Luanda, criado em 1973, e o maior do pais até à chegada do Kero. Hoje, o grupo está presente em 13 paises tendo facturado 58,3 mil milhões de dólares em 2011. Segundo um estudo sobre o comércio em Angola, da Espírito Santo Research, o hipermercado Jumbo é detido em 30% pelo grupo francês e o restante pertence a investidores angolanos.
Marcas: Maxi, Bom Preço, Casa de Coração
Origem: Portugal
O grupo português Teixeira Duarte está presente no comércio alimentar angolano, desde 1996, no formato cash & carry, através da insígnia Maxi, que está localizada nas províncias de Luanda (Morro Bento, Talatona, Cazenga, Viana); Kwanza-Sul (Porto Amboim e Sumbe) e Benguela (Lobito). O grupo criou recentemente a marca de retalho de proximidade Bom Preço (localizada no Ginga Shopping, em Viana), a Casa de Coração (especializada em produtos para o lar) e a Maxilectro (electrodomésticos) todas presentes no Maxi Park de Talatona. Recorde-se que o grupo Teixeira Duarte Angola também detém os hotéis Trópico, Alvalade e Baía (veja EXAME n.º 19) em Luanda. A construção civil é o seu ramo principal de actividade (está, entre outros projectos, a construir a nova sede da Assembleia Nacional). Outros ramos de negócio são o imobiliário (possui um edifício de habitação — Coqueiros Luanda Living — e dois de escritórios em Luanda); ramo o automóvel (comercialização e representação das marcas Peugeot, Nissan e Honda e a marca Indiana, Mahindra), os cimentos (Angocine e Metangola) e a restauração (pastelaria Nilo e restaurante Pintos). O grupo, fundado em Portugal em 1921, está em Angola desde 1976 e em mais 12 países (Argélia, Brasil, Cabo Verde, China, Espanha, Marrocos, Moçambique, Namíbia, Rússia, São Tomé e Príncipe, Ucrânia e Venezuela).
Marcas: Mega Cash & Carry
Origem: Angola
Em Novembro de 2010, foi inaugurado no bairro da Palanca, o Mega Cash & Carry, detida por uma sociedade anónima de capitais angolanos e portugueses, ligada ao grupo Refriango (detém, entre outras, as marcas de bebidas Blue, Pura, Nutry, Tutti, Cuia e Welwitschia – veja EXAME n.º 3) e a Wayfield (uma trading de produtos alimentares sediada em Portugal, mas que tem Angola como mercado-alvo). Durante a cerimónia de lançamento o Mega Cash & Carry assumiu a intenção de se tornar o maior centro comercial de distribuição de produtos alimentares em Angola, com foco nos produtos perecíveis. O investimento orçado em 35 milhões de dólares, inclui uma área de venda de 4600 metros quadrados e uma referência de 3 mil produtos (incluindo marcas próprias, o fabrico de pão e pastelaria, cafetaria e restaurante). Na mesma ocasião, o grupo relevou a intenção de inaugurar mais duas lojas, em Benguela e Luanda e criar uma rede em todo o território nacional até 2020.
Marcas: Shoprite, USave
Origem: África do Sul
É o maior grupo de distribuição africano e abriu o seu primeiro hipermercado em Angola, em 2003. Hoje, segundo o site do grupo, tem grandes superfícies no Belas Shopping de Talatona (recentemente ampliada), no bairro do Palanca (o primeiro do grupo, lançado em 2003) e no Lobito (em 2010). Tem ainda outros supermercados de menor dimensão (a cadeia designa-os internamente por USave) no Bairro Azul, Ilha do Cabo, Morro Bento, Mulemba e Prenda. O site do grupo não está porém actualizado, dado que, em Agosto do ano passado, deu-se a abertura do hipermercado no Lubango, com uma área total de 7 mil metros quadrados e que representou um investimento de 20 milhões de dólares e a criação de 189 postos de trabalho. No ano anterior, a cadeia abriu no Huambo num investimento de 10 milhões de dólares e uma área de 500 metros quadrados. A rede sul-africana está também representada nas províncias do Namibe e Kwanza-Sul (Porto Amboim). Recorde-se que o grupo opera em 16 países africanos e emprega 95 mil pessoas. Recentemente, o presidente confidenciou à imprensa sul-africana que tenciona abrir mais dez unidades este ano na Nigéria, Malawi, RDC e Angola. Onde? É escusado procurar no site.
Marcas: Alimenta Angola
Origem: Brasil
O cash & carry Alimenta Angola foi inaugurado, em 2009, na estrada de Catete com uma área de 4500 metros quadrados, 150 funcionários e cerca de 6 mil referências. Durante a inauguração, António Severini, o director-geral do grupo brasileiro Tenda Atacado, afirmou ao jornal O País a intenção de ampliar a rede para dez unidades grossistas em Angola, duas em Luanda e sete nas províncias. Fundado em 2001, o grupo Tenda Atacado possui 15 lojas em São Paulo, dois centros de distribuição e cerca de 3 mil trabalhadores. Factura mais de 60 milhões de dólares por ano e é a quinta maior rede retalhista do Brasil (veja EXAME n.º 2).
Fontes: “O Sector do Comércio em Angola”, Espírito Santo Research; sites e relatórios e contas dos grupos citados
O Governo angolano deu permissão para o grupo português Sonae começar a operar no país a partir deste ano
Um dos maiores grupos de retalho português recebeu luz verde do Governo para começar a operar em Angola já a partir deste ano. De acordo com decisão aprovada em Conselho de Ministros, de 21 de Dezembro do ano passado, que se reuniu em Luanda na sua IX Sessão Ordinária, o grupo Sonae poderá avançar com o projecto Continente Angola, em 2012.
De acordo com um comunicado do Executivo, de 22 de Dezembro de 2011, o Continente Angola vai focar-se na “comercialização de bens alimentares em Luanda e no Huambo” e tem um investimento “estimado em 103 milhões de dólares”. Este projecto, que tem como parceiro local a empresária Isabel dos Santos, filha do Presidente da República, “arrancará em 2012, estando prevista a abertura da primeira unidade durante 2013”, refere a Sonae no comunicado dos resultados de 2011, publicado no mês passado.
Segundo o comunicado do Conselho de Ministros, o Continente Angola e o projecto Angola Oilfield Equipment, aprovado na mesma reunião pelo Executivo, vão “dar origem a 2 mil novos empregos” no país. O presidente da Sonae, Paulo Azevedo, referiu recentemente que o projecto do grupo português em Angola “está pronto para arrancar”. No decorrer do IV Congresso da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, que se realizou entre 16 e 18 de Janeiro, em Lisboa, Paulo Azevedo adiantou ainda que “as localizações [dos hipermercados] e as equipas já estão escolhidas”, e que a empresa estava apenas a aguardar a formalização da decisão do Conselho de Ministros, o qual prevê a abertura de quatro hipermercados Continente, em Luanda, na primeira fase.
Recorde-se que, em Abril de 2011, a Sonae fechou o acordo com a Condis, empresa maioritariamente detida por Isabel dos Santos, para a entrada do grupo português em Angola com uma rede de hipermercados com a marca Continente, que tem o objectivo de alcançar a liderança no mercado de retalho moderno de base alimentar do país, segundo um comunicado recente do grupo português. Esta parceria pressupõe que a Sonae tenha a gestão operacional do projecto, embora a maioria do capital da empresa pertença à Condis. A aliança entre a Sonae e Condis terá ainda uma forte componente logística que passa, por exemplo, pela criação de clubes de produtores que possam abastecer a rede de hipermercados.
Vai nascer em Viana num terreno de 100 hectares
e poderá gerar negócios
no valor de 2 mil milhões de dólares. O retail park já estreou.