Edição nº 25
 

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Planeta 
do retalho

Publicado a 25-04-2012 11:20:00

"Globalização 3.0”, significa a passagem de um mundo pequeno para um mundo de tamanho reduzido. O termo foi cunhado por Thomas Friedman, colunista do jornal The New York Times galardoado por três vezes com o Prémio Pulitzer e autor do best-seller O Mundo É Plano (onde a EXAME se inspirou para criar umas das secções desta revista).

A expressão é nova, mas a tendência já foi diagnosticada há muito tempo. Hoje, é cada vez mais clara a ausência de barreiras na procura de informação e na forma de fazer negócios. Basta um computador pessoal ou um simples telemóvel com ligação à internet para, a partir de qualquer lugar, a qualquer hora, se fechar um negócio em meros segundos. Mas se para muitas indústrias a globalização ainda está a dar os primeiros passos, para as grandes empresas de distribuição de bens de consumo essa realidade há muito que deixou de ser escolha, mas, sim, uma necessidade e, sobretudo, uma gigantesca oportunidade de negócio.

A cadeia de supermercados norte-americana Wal-Mart é o exemplo mais claro dos efeitos da globalização empresarial: apesar de estar sediada no discreto estado do Arkansas, nos Estados Unidos, a Wal-Mart opera em 16 países, tem quase 9 mil lojas, sob 55 marcas diferentes, onde trabalham mais de 2,1 milhões de pessoas que vendem, anualmente, mais de 555 mil milhões de dólares. A globalização fez da Wal-Mart não só a maior retalhista do planeta como também o maior empregador mundial, que todos os anos gera para os seus accionistas lucros superiores a 15 mil milhões de dólares. No nosso planeta existem muito poucas empresas com esta capacidade de gerar riqueza tal como prova a famosa listagem da revista americana Fortune, segundo a qual a Wal-Mart é a maior empresa do mundo. A proeza é ainda maior se atendermos que no top ten mundial estão seis petrolíferas, uma empresa chinesa de energia e mais duas japonesas, sendo a Wal-Mart e única representante do sector da distribuição.


A Wal-Mart é a maior empresa do mundo por vendas. Quatro herdeiros do fundador estão entre os 20 mais ricos do planeta
A revista Forbes também a classificou como a maior empresa do mundo cotada em Bolsa, segundo o critério do volume de vendas. Caso a gigante do retalho fosse um país, estaria entre as 25 maiores potências mundiais. A mesma revista coloca os herdeiros de Sam Walton, o fundador da Wal-Mart, entre os 20 mais ricos mundo. Christy Walton está no 11.º lugar, com uma fortuna avaliada em 25,3 mil milhões de dólares (é a mulher mais bem colocada no top). Seguem-se Jim Walton (16.º), Alice Walton (17.º) e Robson Walton (18.º), o filho mais velho do visionário, falecido em 1992.

vendas crescem, margens também

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Mas a Wal-Mart não é um caso único de sucesso no universo das retalhistas. As dez maiores empresas de distribuição do planeta não têm parado de crescer, somando vendas superiores a 1 bilião de dólares todos os anos. Em 2010, de acordo com um estudo da Deloitte e a Stores Media, as 250 maiores retalhistas do mundo apresentaram margens de lucro de 3,8% e um crescimento médio das vendas de 5,3%, que contribui para elevar a facturação destas companhias para quase 4 biliões de dólares. “As vendas das operações do retalho ajustadas pela conversão cambial cresceram uns sólidos 5,3% nas 250 maiores retalhistas, face a um crescimento anémico de 1,2% em 2009 [marcado pela crise mundial]”, refere o relatório “Switching channels: Global Powers of Retailing 2012”, produzido pela Deloitte e pela Stores Media, e publicado em Janeiro deste ano.

Também em 2010, 80% das 250 empresas analisadas apresentaram um crescimento das suas vendas, que compara com menos de dois terços das companhias que revelaram um aumento das vendas no ano anterior. Esta evolução positiva é explicada pelos especialistas da Deloitte e da Stores Media como tendo sido resultado “da emersão dos consumidores da depressão”, e também pelo crescimento da classe média nos países emergentes, que tem trazido para o mercado uma enorme onda de novos consumidores.

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Não é por acaso que mais de 23% das vendas das 250 maiores retalhistas mundiais, maioritariamente localizadas na Europa e nos Estados Unidos, são já gerados além-fronteiras. E também não é coincidência que nos últimos anos as retalhistas que têm apresentado maiores índices de crescimento têm estado localizadas em países emergentes. Aliás, a Deloitte e a Stores Media referem que 19 das 50 empresas de distribuição de bens que mais cresceram em 2010 estavam localizadas em países em vias de desenvolvimento. Neste leque encontravam-se: cinco retalhistas chinesas, quatro latino-americanas, três mexicanas e três sul-africanas, duas turcas, e ainda uma russa e outra croata.

As retalhistas europeias são as que mais têm apostado nesta mudança de paradigma. De acordo com o documento da Deloitte e da Stores Media, as empresas francesas e alemãs, países com grandes tradições no sector e onde pontificam colossos como o Carrefour, Casino e Auchan (do lado francês) e o Metro, Aldi e Lidl (do lado alemão) foram não só as que mais vendas realizaram em 2010, ao apresentarem receitas de 28,9 mil milhões e 23 mil milhões de dólares, respectivamente, como as que mais fazem depender o sucesso das suas operações da internacionalização, provindo mais de 40% das suas vendas de mercados internacionais.

De fora desta aposta internacional das grandes multinacionais do retalho tem estado África, o segundo continente com maior densidade populacional, onde residem 995 milhões de potenciais consumidores, cerca de 15% da população mundial. Quem agradece esta decisão são os competidores locais, que têm sabido captar as potencialidades do seu continente; mas sobretudo as grandes cadeias de distribuição sul-africanas, como são o caso do grupo SPAR, que entre 2005 e 2010 registou um crescimento anual das vendas de 20,7%, do Shoprite (presente em Angola) e do Woolworths, que neste período contabilizaram um aumento anual das vendas de 16,7% e 12,4%, respectivamente.

Todavia, é cada vez mais notória a mudança do foco e da estratégia de internacionalização dos “tubarões” do retalho para África, em resultado de uma estagnação dos níveis de consumo nos seus mercados domésticos e das imensas oportunidades de negócio ainda por explorar abaixo do deserto do Sara.

o futuro escreve-se em áfrica


Nas retalhistas europeias, 40% da facturação vêm do exterior. Carrefour e Auchan querem crescer no Norte de África
O primeiro grande passo da (re)descoberta do continente pelas grandes retalhistas mundiais ocorreu pela mão do colosso Wal-Mart, no ano passado, que acabou por adquirir a Massmart, o terceiro maior distribuidor de bens do continente. “Esta aquisição não só confere à Wal-Mart uma posição-chave no mercado sul-africano como também uma presença em 13 mercados africanos, que se expandem entre o Botswana e a Zâmbia”, referiu Robert Gregory, director da consultora Planet Retail. Mas o especialista, que juntamente com a Deloitte contribui para a elaboração do documento “Heróis escondidos: A próxima geração dos mercados de retalho”, que destaca as fortes potencialidades dos mercados africanos para o sector do retalho, vai mais longe. Gregory considera que “com a maior retalhista do mundo (a Wal-Mart) agora activa no continente, parece provável que outros grandes retalhistas globais procurem oportunidades de negócio na região”.

É isso que poderá acontecer em breve com as cadeias francesas Carrefour e Auchan, que deverão expandir-se para países do Norte de África e para outros mercados africanos que tenham o francês como língua oficial. No mesmo sentido deverá também seguir a retalhista britânica Tesco, que finalmente deverá entrar na África do Sul, um dos cinco países africanos identificados pela Deloitte e pelo Planet Retail como estando no leque dos dez novos mercados que mais provavelmente irão atrair as retalhistas internacionais nos próximos anos. Além da África do Sul as duas consultoras identificam ainda a Argélia, Quénia, Marrocos e Nigéria. “Todos estes países apresentam economias com elevado crescimento, populações jovens e em desenvolvimento e com os sectores de retalho fragmentados”, lê-se no referido documento “Heróis escondidos”.

John McCarvel, presidente da distribuidora de calçado Crocs, revelou à Reuters que África era uma região atractiva e com potencial para a empresa, e não apenas pelo clima do continente ajudar a comercializar o calçado da Crocs. Todavia, McCarvel salientou que a Crocs ainda não fez um grande investimento na região por muitos mercados serem ainda de dimensões reduzidas e porque, no curto prazo, a empresa está focada em expandir-se para a Ásia e preocupada em colmatar o abrandamento na Europa.

Bem diferente tem sido a aposta da sul-africana Woolworths, a quarta maior retalhista do continente africano, que no final do ano passado apresentou um extenso plano de crescimento, que aponta para uma duplicação da sua presença no continente nos próximos três anos. “África é a última fronteira no retalho”, salientou John Fraser, um executivo da Woolworths.

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As maiores: A americana 
Wal-Mart é 
a n.º1 mundial, enquanto a 
sul-africana Shoprite lidera em África
Em Angola, a presença das grandes distribuidoras internacionais ainda não se faz sentir com grande intensidade. As excepção são a retalhista sul-africana Shoprite, o grupo francês Auchan, detentor do hipermercado Jumbo, o grupo português Teixeira Duarte, com a Maxi e os brasileiros da Tenda Atacado, que detém a insígnia Alimenta Angola. Sabe-se, porém, que ainda este ano entrará no país a Sonae, um dos maiores grupos de retalho português, através de uma joint-venture com o grupo angolano Condis, liderado por Isabel dos Santos, filha do Presidente da República. De acordo com um comunicado do Governo, o “Continente Angola” vai focar-se na “comercialização de bens alimentares em Luanda e no Huambo” e terá um investimento “estimado em 103 milhões de dólares”.

Será mais um passo para a dinamização de um sector que tem sofrido uma verdadeira revolução nos últimos anos. E quando a concorrência aperta, os preços baixam e os consumidores agradecem. 


Por: Luís Leitão
 
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